MENTORIA DE EXCELÊNCIA EM NEUROPSICOLOGIA: A JORNADA DO HERÓI
Autor: Vitor Geraldi Haase
Instituto Letra & Número
Fevereiro de 2025
PRELÚDIO
A neuropsicologia se desenvolveu no século XIX quando neurologistas e psiquiatras - além de alguns cirurgiões e oftalmologistas etc. - perceberam que lesões em determinadas localizações cerebrais causavam déficits específicos na cognição, afeto, motivação e comportamento. Surgiu assim o método anátomo-clínico e a neuropsicologia. Neuropsicologia é aplicação do método anátomo-clínico; o resto é firula. Segundo Karl Pribram, a neuropsicologia se utiliza de métodos psicológicos para estudar o cérebro enquanto a psicobiologia se utiliza de métodos biológicos para estudar o comportamento (e cognição, afeto e motivação também).
A importância inicial da neuropsicologia era ser o único método não invasivo de localização lesional no cérebro (diagnóstico topográfico). E o diagnóstico topográfico é a base da neurologia (e da neuropsicologia, portanto). Atualmente, além da neuropsicologia, a correlação estrutura-função pode ser feita de forma não invasiva através dos métodos de neuroimagem. Atualmente, além da correlação anátomo-clínica em modelos anátomo-funcionais, a ciência cognitiva permite realizar correlações estrutura-função virtualmente através de modelos cognitivos, principalmente modelos de processamento de informação. Os modelos cognitivos constituem a ponte entre a neurologia e a psicologia, constituindo a neurociência cognitiva.
Mas o progresso da neuropsicologia não parou por aí. Houve um crescimento exponencial também na compreensão do impacto biopsicossocial dos problemas neuropsicológicos sobre o indivíduo e sua família, propiciando o desenvolvimento de estratégias crescentemente eficazes de aconselhamento e intervenção.
Inicialmente, a neuropsicologia era um assunto de médicos, uma espécie de hobby para médicos entediados. Os pioneiros eram todos médicos que se utilizavam do método anátomo-clínico e interpretavam seus resultados em termos de modelos psicológicos relativamente toscos. O interesse crescente de profissionais de outras áreas, tais como psicologia, fonoaudiologia etc. permitiu que a neuropsicologia fosse se sofisticando. Além da neuroimagem, modelos cognitivos e adaptação biopsicossocial, avanços importantes são representados pela psicometria, estatística e estudo quase-experimental de casos isolados.
A partir dessas breve considerações, é possível reconhecer a complexidade e interdisciplinaridade da neuropsicologia. A neuropsicologia é uma área pós graduada porque nenhum curso profissionalizante isolado propicia a formação necessária. Historicamente, os progressos mais significativos foram obtidos por médicos trabalhando com profissionais de outras áreas. Algumas duplas ficaram famosas: Gelb & Goldstein; Penfield & Milner; Weisenburg & McBride etc. Houve contribuições significativas também de um trio composto pelo neurologista Geschwind, a psicóloga Kaplan e o linguista Goodglass, além de inúmeros outros exemplos.
Há quarenta anos, a neuropsicologia era incipiente no Brasil. O panorama mudou. É crescente o número de profissionais atuando na área e a neuropsicologia se integrou ao cuidado de saúde e educação no Brasil. O aumento da demanda por serviços neuropsicológicos responde ao aumento da conscientização e prevalência de diversas condições neurológicas e psiquiátricas agrupadas sob o guarda-chuva conceitual da neurodiversidade.
Por ser uma área interdisciplinar e pós graduada, a formação neuropsicológica é complexa. A formação neuropsicológica no Brasil nem sempre responde aos melhores padrões internacionais. Uma das razões é que, no Brasil, a principal trajetória de formação são cursos de especialização de curta duração. Cursos esses que não propiciam um aprofundamento na fundamentação teórico-metodológica da neuropsicologia nem a experiência de prática supervisionada necessária para adquirir perícia.
A aquisição de perícia em qualquer domínio do conhecimento ou atividade é um processo complexo, laborioso e demorado. Algumas estimativas são de que um profissional precisa de cerca de 10 anos (ou 10000 horas) de árduo trabalho para adquirir perícia em uma área. Um curso de especialização com 360 horas de duração não atende essa finalidade.
Como resultado, a neuropsicologia brasileira tem uma resolutividade baixa. Frequentemente, os clientes vêm me procurar com dois ou três relatórios neuropsicológicos diferentes sem que qualquer um dos profissionais tenha atendido suas demandas. As principais dificuldades que eu observo são as seguintes: 1) Carência de conhecimento sobre correlação anátomo-clínica (estrutura funcional do cérebro) e sobre correlação estrutura-função (modelos cognitivos); 2) Redução da clínica neuropsicologia a uma “avaliação” com viés psicométrico, através da qual o desempenho do indivíduo em múltiplos testes é posicionado na curva normal, sem que haja a formulação e teste de hipóteses diagnósticas; 3) Ausência de um aconselhamento que permita ao cliente, sua família e os profissionais de saúde e educação envolvidos atribuir significado e integrar os resultados do diagnóstico à biografia do cliente, descortinando possibilidades de desenvolvimento pessoal. Eu já discuti essas dificuldades em dois posts do Instituto Letra & Número: Neuropsicologia: Quo Vadis e Miséria da neuropsicologia .
Com o intuito de fornecer uma formação de excelência em neuropsicologia para profissionais que já tenham uma formação básica, o Instituto Letra & Número desenvolveu o programa Mentoria de Excelência em Neuropsicologia. As características do programa estão detalhadas na página do projeto. Aqui, eu vou discutir a filosofia educacional subjacente à Mentoria de Excelência em Neuropsicologia, fazendo uma analogia com a Jornada do Herói. A Figura 1 homenageia o maior herói da neuropsicologia
Figura 1 - Carl Wernicke (1848-1905). Broca é, geralmente, considerado o pai da neuropsicologia, apesar de ser antecedido por outros médicos. Broca foi o fundador, ao menos no sentido de que convenceu a comunidade científica de que o método anátomo-clínico era um assunto sério. Wernicke, entretanto, foi o maior herói da neuropsicologia. Wernicke foi o cara que formulou o método anátomo-clínico em termos da psicologia associacionista-localizacionista da época, antecipando várias concepções contemporâneas. Wernicke foi também o autor mais influente em ambos os lados do Atlântico Norte. Sua influência se estendeu até os anos 1970.
Como espero poder mostrar, a analogia com a Jornada do Herói é pertinente por diversos motivos. A aquisição de perícia em neuropsicologia é uma aventura que exige disposição para enfrentar o medo do desconhecido, comprometimento e sacrifício. A aquisição de perícia em neuropsicologia exige tanto a disposição para ler textão em inglês (curiosidade e espírito científico) quanto para compreender a história dos clientes (veia literária, fenomenologia, teoria da mente). Assim como a aventura do herói, a aquisição de perícia em neuropsicologia é facilitada por um mentor. A analogia com a narrativa é importante também porque porque as narrativas propiciam a atribuição de significado à vida e um aspecto importante do aconselhamento neuropsicológico é ajudar o cliente e a família a construírem uma narrativa pessoal e socialmente aceitável, integrando os aspectos neuropsicológicos à biografia e que ajude o indivíduo a tocar sua vida adiante.
O texto é subdividido em 13 seções: 1. A Jornada do Herói; 2. Mundo Ordinário; 3. Chamado à Aventura; 4. Relutância; 5. Encontrando o Mentor; 6. Primeiro portal; 7. Desafios e Ferramentas; 8. Buscando a Pedra Filosofal; 9. Sacrifício; 10. Achando a Pedra Filosofal; 11. Retornando ao Mundo Ordinário; 12. Eureka!; 13. Usando a Pedra Filosofal.
1. A JORNADA DO HERÓI
As narrativas constituem o modo default de aquisição, representação, manipulação e transmissão de conhecimento na espécie humana. Antes de a escrita ser inventada, tudo o que os humanos sentiam e sabiam era mediado pelas narrativas. O pensamento narrativo é o raciocínio humano primordial, o meio pelo qual os humanos atribuem significado à vida.
A lógica formal, silogística, aristotélica etc. somente se desenvolveu a partir da invenção da escrita. O pensamento científico, com valor de verdade e fundamentado em implicações mecânicas de causa e efeito exigiu séculos de experiência com a escrita. A lógica das narrativas é distinta. É uma lógica dos sentimentos, das intenções, da atribuição de significado.
O self tem uma estrutura narrativa, a qual começa a adquirir seu contorno final a partir da adolescências, mas cuja origem remonta às primeiras interações verbais da criança com os cuidadores através de reminiscência elaborativas que promovem o desenvolvimento da memória autobiográfica e a construção de uma linha de vida, de uma consciência autonoética, a qual permite ao indivíduos situar-se no tempo e no espaço e viajar na linha de vida imaginária.
As narrativas são o modo pelo qual os humanos atribuem significado à sua existência. O self, ou representações que os humanos fazem de si mesmo, são estruturados como narrativas autobiográficas. As pessoas têm tantos selves quantas são as histórias que contam de si para os outros. As narrativas autobiográficas são estruturadas por narrativas mestras, as quais prescrevem o que precisa, o que pode e o que não pode ser contado, definindo temas e estilos. As narrativas mestras são ao mesmo tempo universais e particulares culturais.
Os estudos narratológicos permitiram identificar os aspectos universais e particulares da gramática narrativa que distingue a espécie humana. Vladimir Propp (2009) investigou a gramática narrativa dos contos de fadas enquanto Joseph Campbell (2020) investigou a gramática narrativa dos mitos e religiões. Há grande convergência nos achados desses pesquisadores. Aqui, vou me utilizar do conceito de Jornada do Herói, desenvolvido por Campbell.
Campbell observou que a maioria das narrativas importantes para os humanos compartilham uma estrutura típica que pode ser caracterizada como uma Jornada do Herói. Essa estrutura é compartilhada pelos diversos mitos e religiões das regiões mais distantes do mundo.
O herói pode ser um indivíduo excepcional ou medíocre. O importante não é de onde ele começa, mas para onde ele vai e chega. No início, o herói vive uma vida ordinária, em um mundo comum. Quer seja através de um chamado externo à aventura, transmitido por um arauto, quer seja através de um chamado interno, o herói se defronta com um desafio que precisa ser enfrentado. O herói precisa enfrentar o medo do desconhecido para resolver algum problema crucial seu ou da sua comunidade. De início, o herói reluta. A relutância do herói é muito importante do ponto de vista evolucionário porque atesta sua autenticidade e integridade.
Vencendo a relutância, o herói se depara com o desafio de fazer um diagnóstico da situação e adquirir as ferramentas ou habilidades que lhe permitirão enfrentar o desafio. Geralmente, a trajetória de enfrentamento do desafio é representada como uma viagem, quer seja externa ou interna. Geralmente, o herói é ajudado nessa trajetória por um mentor, que é um perito na resolução do tipo de desafio com o qual o herói se defronta. O mentor orienta e treina o herói na superação de uma série de limiares e provações, na identificação dos seus aliados e inimigos e no planejamento das estratégias para enfrentar os desafios. Mas o mentor só pode ir até um certo ponto. A partir de um determinado momento da trajetória, o herói precisa contar com seus próprios recursos, andando sozinho.
O herói precisa ele próprio se tornar um perito na resolução dos desafios com os quais se defronta, ou seja, um mentor. A partir de um determinado momento, a trajetória do herói é, necessariamente, solitária e implica em sacrifícios e, até mesmo, a morte. Nas histórias com final feliz, o herói renasce sendo recompensado com algum tipo de talismã, elixir, ferramenta, conhecimento, sabedoria ou pedra filosofal. O dilema que se propõe a seguir é retornar à vidinha ordinária e utilizar a sua experiência para melhorar a vida das pessoas. O desafio final é convencer as pessoas de que a sua pedra filosofal funciona.
A Jornada do Herói original proposta por Campbell consistia de 17 etapas. Christopher Vogler (2015), um roteirista de Hollywood simplificou a jornada para 12 etapas. As sugestões de Vogler têm sido adotadas há mais de 30 anos pelos roteiristas de filmes de aventura, constituindo um paradigma na área. A Tabela 1 ilustra a Jornada do Herói, conforme concebida por Vogler.
Tabela 1 - A Jornada do Herói (Vogler, 2015)
A Jornada do Herói pode ser usada para caracterizar praticamente todas as narrativas, desde a jornada de ida de Abraão e a jornada de volta de Moisés para a Terra Prometida, até as aventuras de Star Wars, Harry Potter etc., passando pelos mitos gregos e histórias da carochinha. A Tabela 2 ilustra como a Jornada do Herói pode ser utilizada para caracterizar a estrutura narratológica da Odisséia. Nas seções subsequentes, ilustrarei a relevância da Jornada do Herói para a aquisição de perícia em neuropsicologia.
Tabela 2 - A Jornada de Odisseu
2. MUNDO ORDINÁRIO
A Jornada do Herói consiste em uma viagem do mundo comum e ordinário para um mundo especial, extraordinário e desconhecido. Essa viagem pode ser interior, representando um percurso que vai do desconhecimento e da imprudência até a sabedoria. No começo da história, o herói é apresentado em seu cotidiano, vivendo em seu mundinho comum, com sua personalidade e limitações. Muitas vezes, ele é uma pessoa medíocre, sem atributos que o destaquem. No entanto, o que realmente importa não é de onde o herói parte, mas sim para onde ele vai. Um exemplo clássico é Bilbo Bolseiro, que, no início de O Hobbit, vive pacificamente em sua toca no Condado, sem imaginar a grande aventura que o aguarda.
O mundo ordinário da neuropsicologia, o qual o herói precisa transcender, é o mundo da “testologia” e do diagnóstico por checklists. Os clientes vão de um neuropsicólogo para outro sem que alguém resolva seu problema. A aquisição de perícia em neuropsicologia somente começa quando o profissional percebe que precisa ir muito além da curva normal e do DSM-5.
3. CHAMADO À AVENTURA
O chamado à aventura pode ocorrer por meio de um arauto ou pela própria percepção do herói de que há um problema em seu mundo comum, um desafio que precisa ser enfrentado. O herói não nasce pronto; ele precisa responder ao chamado e se preparar. Qualquer pessoa pode se tornar um herói, desde que reconheça um desafio e decida enfrentá-lo. Um exemplo disso é Star Wars: Uma Nova Esperança, em que Luke Skywalker é chamado à aventura ao receber a mensagem de Leia através de R2-D2.
O desafio do neuropsicólogo, seu chamado à aventura, é transcender a “testologia” e o diagnóstico por checklists. Para ser digno desse nome, o neuropsicólogo precisa reconhecer a ineficácia e os paraefeitos dessa abordagem limitada. A verdadeira neuropsicologia se baseia na correlação anátomo-clínica, dentro dos modelos anatômicos do cérebro, e na correlação estrutura-função, nos modelos de processamento de informação. O neuropsicólogo precisa ir além do salamê minguê dos testes e checklists. O neuropsicólogo precisa ajudar o cliente e sua família a fazer sentido do perfil neuropsicológico de modo que a vida possa ir adiante.
4. RELUTÂNCIA
O chamado à aventura desencadeia uma reação de orientação, sendo a primeira resposta marcada por ansiedade e até terror diante do desconhecido. Somente depois surgem a curiosidade e o comprometimento com a exploração desse novo mundo. A relutância ou recusa inicial ao chamado é essencial para que o herói seja percebido como alguém autêntico e humano, em vez de um mero oportunista. Essa hesitação pode ser motivada pelo medo, pela dúvida ou por uma lealdade ao mundo comum, já que o heroísmo sempre envolve sacrifício. Um exemplo disso é Matrix, em que Neo hesita em seguir Morpheus e abandonar sua vida comum para encarar a realidade da Matrix.
Em neuropsicologia, a relutância emerge da percepção dos limites do próprio conhecimento. Se o clínico não consegue superar a ansiedade causada pela percepção do seu desconhecimento, ele não se transforma em neuropsicólogo. À medida que o conhecimento cresce, a fronteira com o desconhecido também se expande, exigindo um compromisso contínuo com a aprendizagem e a adaptação. A aquisição de conhecimento exige a leitura de textão em inglês. A relutância inicial é comum, mas precisa ser vencida.
5. ENCONTRANDO O MENTOR
Mentor é um personagem da Odisseia, um amigo da família que se destaca por sua bondade, cabelos brancos e grande sabedoria. Ele auxilia Telêmaco a enfrentar os desafios decorrentes de sua inexperiência, resultado de ter crescido com um pai ausente. Frequentemente, a deusa Atena aparece disfarçada de Mentor, momento em que assume o nome de Mentes.
Geralmente, o Mentor é um velho sábio, alguém que pode ser severo, mas sempre justo e benigno. A relação entre Mentor e Herói é semelhante à de pai e filho, professor e aluno, terapeuta e paciente. Sua principal função é preparar o Herói para enfrentar o desconhecido, mas seu acompanhamento tem limites. Em determinado momento, o Herói precisa seguir sozinho. Com o tempo e a experiência, ele próprio se transforma em Mentor, dando continuidade ao ciclo.
O Mentor Neuropsicológico é um perito na área que utiliza duas estratégias didáticas: a Prática Deliberada e o Construtivismo de Tuparendi. A Prática Deliberada é a estratégia inicial, mas, em determinado momento, o Construtivismo de Tuparendi se torna inevitável. Para receber "alta" da mentoria, o neuropsicólogo precisa desenvolver habilidades autodidáticas, tornando-se capaz de continuar seu aprendizado de forma independente.
A aquisição de perícia (expertise) ocorre por meio da prática deliberada, um processo que exige cerca de 10 anos ou 10.000 horas de árduo trabalho. Inicialmente, essa prática é orientada por um mentor, mas, em determinado momento, o futuro perito precisa desenvolver habilidades autodidáticas para continuar sua evolução de forma independente.
A Tabela 3 sumariza as características do processo de mentoria implementado através da prática deliberada (Lehtinen et al., 2017).
Tabela 3 - Prática deliberada para aquisição de perícia
A mentoria vai até um certo ponto. A partir de um determinado momento, o profissional precisa aprender a andar com as próprias pernas. É aí que entra o tal Construtivismo de Tuparendi. O Construtivismo de Tuparendi é a estratégia que eu usei para a formação de levas sucessivas de neuropsicólogos por quase 30 anos no Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento (LND-UFMG).
O aspirante à iniciação científica vinha conversar comigo dizendo-se interessado em desenvolver algum projeto. Eu sugeria diversas possibilidades e o aluno em potencial escolhia o argumento que mais lhe apetecia. Fechávamos um contrato implícito de trabalho. Uma ou duas semanas depois eu perguntava para o aluno como estava andando o trabalho. Frequentemente, o aluno perguntar:
- Mas, professor, como eu começo. O que eu preciso fazer?
Ao que eu respondia:
- E eu é que vou saber. Se soubesse, já tinha feito. Pedi para você fazer, justamente porque não sei.
No LND-UFMG, eu já começava de cara com o construtivismo. Brincadeiras à parte, os alunos do programa de Mentoria de Excelência em Neuropsicologia não serão jogados às feras como muitos alunos de IC foram no LND-UFMG. Os alunos da Mentoria receberão toda a orientação necessária. Mas, em algum momento, precisarão se desmamar. A partir de algum momento o aluno precisa desenvolver habilidades autodidáticas, precisa virar, ele próprio, um mentor. Será mentor dos seus clientes.
6. PRIMEIRO PORTAL
A travessia do primeiro limiar ocorre quando o herói deixa o mundo comum e entra no mundo extraordinário, cruzando uma barreira que marca o início de sua jornada. O primeiro limiar é o comprometimento com a missão, pois o heroísmo implica sacrifício e a aceitação do destino. Para seguir adiante, o herói precisa entrar resolutamente nesse novo mundo e enfrentar as consequências de lidar com o problema e o desafio. Um exemplo disso ocorre em Harry Potter e a Pedra Filosofal, quando Harry atravessa a plataforma 9 ¾ e entra no mundo mágico de Hogwarts.
O portal inicial da aventura neuropsicológica consiste de habilidades gerais, tais como leitura em inglês e curiosidade científica. O neuropsicólogo é um scientist practitioner, alguém que testa hipóteses em estudos com n = 1. O neuropsicólogo precisa ser um bibliófilo, sentido tesão pela leitura de textão e pesquisa bibliográfica. O neuropsicólogo precisa ser um conhecedor da epidemiologia clínica e praticante da assistência à saúde baseada em evidências. O neuropsicólogo precisa ser um perito no método experimental, na estatística e na psicometria. Além disso, o neuropsicólogo precisa ter uma veia literária, um tino fenomenológico, uma teoria da mente para compreender o drama dos seus clientes e se colocar no lugar deles. Essas habilidades e interesses não são propriamente neuropsicológicos, mas são indispensáveis.
O neuropsicólogo precisa ter uma disposição ao heroísmo. Precisa tomar sua formação como uma questão pessoal. O caminho para a perícia é solitário. Não existem soluções coletivistas ou paternalistas para a perícia.
7. DESAFIOS E FERRAMENTAS
Ultrapassado o primeiro limiar, o herói enfrenta desafios iniciais, forma alianças e descobre quem são seus inimigos. Ele aprende as regras do mundo especial, conhecido como o "covil da intriga", reconhecendo e enfrentando diferentes arquétipos, como o Guardião do Limiar, o Camaleão e a Sombra. Esses primeiros desafios e alianças são fundamentais para prepará-lo para desafios ainda maiores. Em Harry Potter e a Pedra Filosofal, Harry, Hermione e Rony aprendem a trabalhar juntos, enfrentando suas primeiras batalhas contra Voldemort.
Os maiores demônios do neuropsicólogo são internos, tais como a ansiedade, a preguiça, a tendência ao processamento automático e busca por soluções simples, a insensibilidade ao drama dos clientes, a falta de escrúpulos e o auto-engano. Os clientes e os livros são os melhores aliados.
8. BUSCANDO A PEDRA FILOSOFAL
A aproximação da caverna secreta ocorre quando o herói se aproxima do maior desafio da jornada, que frequentemente ocorre em um local de grande perigo ou mistério. Antes de atravessar os portais, os heróis sempre fazem uma pausa, seja para se preparar ou refletir. A preparação envolve a aquisição de uma caixa de ferramentas para enfrentar a Hidra, enquanto o planejamento consiste em desenvolver uma estratégia para enfrentar ou enganar o vilão e seus asseclas. Em O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, Frodo e seus aliados se aproximam de Moria, onde enfrentam perigos cruciais.
A perícia neuropsicológica é uma pedra filosofal que precisa ser encontrada. A pedra filosofal da neuropsicologia é a correlação estrutura-função. Mas o neuropsicólogo precisa se apoderar de uma verdadeira caixa de ferramentas para resolver efetivamente os desafios colocados pelos seus clientes (Tabela 4). Cada habilidade é uma cabeça de Hidra que precisa não apenas ser cortada mas também queimada.
Tabela 4 - Caixa de Ferramentas Neuropsicológicas
9. SACRIFÍCIO
A grande provação é o momento no qual o herói enfrenta seu maior desafio até o momento, uma experiência transformadora que testa seus limites e exige grande esforço ou sacrifício. Em O Rei Leão, Simba enfrenta Scar e supera seus medos para reivindicar seu lugar como rei.
A aquisição de perícia é heróica porque é uma jornada solitária e perigosa que exige sacrifício. Os primeiros atendimentos e relatórios constituem um confronto direto com o maior medo, o medo de errar. Ao mesmo tempo em que o medo de errar é natural, ele precisa ser superado. Mas a ausência do medo de errar significa ausência de escrúpulos, constituindo um mau presságio. Assim, o medo de errar é ruim e precisa ser superado, mas ao mesmo tempo é bom porque indica uma consciência moral.
10. A PEDRA FILOSOFAL
A recompensa representa a conquista do conhecimento e da experiência, a tomada de posse da caixa de ferramentas. A espada, a varinha ou a pedra filosofal simbolizam esse poder, e empunhar a espada é a suprema recompensa. Após vencer a provação, o herói recebe seu prêmio, que pode ser literal, como um objeto, ou simbólico, como conhecimento, maturidade ou poder. Um exemplo disso ocorre em Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, quando Indiana descobre a Arca, embora não consiga controlá-la completamente.
A perícia neuropsicológica confere poder de esculápio. Ou seja, através da sua perícia, o neuropsicólogo é alguém que tem o poder de esclarecer a natureza das dificuldades do cliente, eximindo-o de culpas, encorajando-o a retomar sua vida em um outro patamar, promovendo seu desenvolvimento pessoal.
11. RETORNANDO AO MUNDO ORDINÁRIO
Vencidos os desafios e tendo ressuscitado, o herói precisa decidir se volta ou não ao mundo comum. O ideal é que o herói decida retornar ao mundo comum para contribuir com o restabelecimento da ordem. Ao iniciar sua jornada de volta, o herói ainda enfrenta obstáculos e decisões importantes que testam sua transformação. Em Procurando Nemo, Marlin retorna para casa com Nemo, mas precisa superar desafios finais, como a rede de pesca, antes de completar sua jornada.
O caminho de volta do neuropsicólogo consiste na utilização da sua pedra filosofal para ajudar os clientes, exigindo uma reflexão sobre os resultados do exame neuropsicológico, uma análise de suas implicações para a vida do cliente. Esse processo leva ao diagnóstico ecológico, que busca compreender de que forma os achados neuropsicológicos podem contribuir para o restabelecimento do equilíbrio biopsicossocial.
12. EUREKA!
A ressurreição ocorre quando o herói enfrenta um último teste que simboliza sua transformação completa. Ele renasce, mais forte e preparado para retornar ao mundo comum. Em Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2, Harry se sacrifica e, após "morrer", retorna para finalmente derrotar Voldemort.
A ressurreição do neuropsicólogo corresponde à percepção de Eureka! ou Momento Ahá!, a qual ocorre durante a redação do relatório, quando o neuropsicólogo integra todas as informações obtidas, testa as hipóteses formuladas, realiza o diagnóstico diferencial e sugere as hipóteses diagnósticas com base nos resultados do exame. Ao alcançar essa etapa da trajetória, o neuropsicólogo internaliza o arquétipo de Mentor.
13. USANDO A PEDRA FILOSOFAL
No final da história, o herói retorna ao mundo comum com o "elixir", um conhecimento ou conquista que beneficiará tanto a ele quanto à sua comunidade. Esse momento marca o encerramento da jornada. Em O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos, Bilbo retorna ao Condado transformado, trazendo consigo sabedoria e experiências que ressignificam sua vida simples.
A pedra filosofal da neuropsicologia é o aconselhamento neuropsicológico, etapa essencial que nenhum diagnóstico pode dispensar. Sem aconselhamento, a aventura neuropsicológica torna-se uma viagem sem volta. Esse processo consiste na aplicação do conhecimento adquirido no mundo extraordinário da correlação estrutura-função à vida cotidiana dos clientes, auxiliando-os na adaptação e no enfrentamento de desafios. Através do aconselhamento, o neuropsicólogo assume o papel de mentor, guiando seus clientes com sabedoria. Usando a pedra filosofal, ele se transforma no verdadeiro Grilo Falante para seus clientes, oferecendo-lhes orientação e suporte ao longo de suas jornadas.
CODA
Caro leitor, espero que a Jornada do Herói tenha motivado você a enfrentar o desafio de adquirir perícia em neuropsicologia. Se começar do zero, essa jornada vai lhe tomar 10 anos de muito trabalho e sacrifício. Você contará com ajuda de livros, mentores e pacientes. Mas a jornada é solitária e depende da sua decisão, do seu esforço e comprometimento, da sua capacidade de lidar com sua ansiedade e superar as limitações que todos temos.
Talvez você já tenha suspeitado de que eu me identifico muito com a Jornada do Herói. Quando comecei a trabalhar na UFMG, a neuropsicologia era incipiente no Brasil e praticamente inexistente no Brasil. As pessoas me perguntavam como eu pretendia trabalhar com neuropsicologia no Brasil se, à época, não havia testes neuropsicológicos, adaptados, validados e normatizados para nossa realidade. Eu ficava espantado. Essa pergunta revelava um desconhecimento muito grande do cerne da neuropsicologia. Para “fazer” neuropsicologia você precisa, basicamente, aplicar o método anátomo-clínico. Era isso que os pioneiros faziam. É isso que precisamos e continuamos fazendo.
Gosto de pensar que minha jornada foi heróica. Mas foi solitária. Tive a rara oportunidade de contar com o apoio e observar o crescimento de dezenas de jovens alunos brilhantes que se tornaram excelentes neuropsicólogos. Alguns são tão bons que me superaram e passaram a me ensinar.
Os testes são um acréscimo importante, acrescentam fidedignidade e validade ao diagnóstico. Mas o cerne do diagnóstico é o teste de hipóteses relacionadas com a integridade estrutural e funcional do cérebro. Você pode usar os testes que quiser. Por melhor que eles sejam, se você restringir sua prática aos testes estará fazendo qualquer coisa, menos neuropsicologia. Quaisquer medidas psicométricas são indiretas. São medidas baseadas em teoria. A teoria das medidas neuropsicológicas é a correlação estrutura-função. Reduzindo a “avaliação” aos escores do teste você não faz nem psicologia, que dirá neuro-psicologia.
Além da correlação estrutura-função, outra característica importante da pedra filosofal neuropsicológica é o aconselhamento. É de pouca serventia aplicar um monte de testes, levantar os escores e interpretá-los apenas quanto ao seu posicionamento na curva normal. Os testes recebem esse nome porque testam hipóteses. As hipóteses dizem respeito a correlações estrutura-função e têm implicações importantes para o desenvolvimento do cliente e sua família, as quais precisam ser explicadas através de psicoeducação, ou seja, aconselhamento. O perfil neuropsicológico precisa ser integrado à biografia do cliente através de uma narrativa que seja pessoal e socialmente aceitável. A neuropsicometria e o teste de hipóteses são hard science. O aconselhamento se fundamenta em uma hermenêutica, a qual depende de teoria da mente e experiência de vida. A literatura de ficção pode ser um caminho para acelerar a aprendizagem vicária da experiência humana para os profissionais mais jovens.
Espero que você tenha gostado desse texto e tenha se motivado para cursar a Mentoria de Excelência em Neuropsicologia. Junto com a equipe do Instituto Letra & Número, estou à disposição para tornar o caminho das pedras menos árduo e solitário. Tomara que o espírito de Wernicke nos alumie.
O PROJETO DO NOSSO PROGRAMA DE MENTORIA ESTÁ DISPONÍVEL NO LINK: https://drive.google.com/file/d/1BGfpJQUJ5u_ewR2wrZrUAVupP1c2KAcB/view?usp=sharing
REFERÊNCIAS
Campbell, J. (2020). The hero with a thousand faces. Los Angeles, CA: Joseph Campbell Foundation.
Lehtinen, E., Hannula-Sormunen, M., McMullen, J., & Gruber, H. (2017). Cultivating mathematical skills: From drill-and-practice to deliberate practice. ZDM, 49, 625-636.
Propp, V. (2009). Morphology of the folktale. Autism: Universty of Texas Press.
Vogler, C. (2015). A jornada do escritor. A estrutura mítica para escritores. São Paulo: Aleph.
Vitor Geraldi Haase
Médico no Instituto Letra & Número: Neuropsicologia do Desenvolvimento (desde 2022).
Professor titular (aposentado) do Departamento de Psicologia da UFMG (1995-2022).
Doutor em psicologia médica pela Universidade de Munique (1999).
Mestre em linguística aplicada pela PUCRS (1990).
Neurologista assistente no Hospital São Lucas da PUCRS (1985-1990).
Residência médica em neurologia e neuropediatria pela UFCSPA (1984).
Médico pela UFRGS (1981).