MANEJO DA DISCIPLINA EM SALA DE AULA: Entrevista com o ChatGPT

Autor: Vitor Geraldi Haase

PRELÚDIO

A minha experiência clínica é que tanto alunos quanto professores sofrem muito com a falta de preparo dos professores para lidar com questões disciplinares em sala de aula. Os professores que não conseguem manejar de forma eficiente e não-coerciva a disciplina sofre risco de burnout. Os alunos cujos comportamentos inadequados são manejados por aversivos sofrem os efeitos colaterais dos aversivos e não aprendem, desperdiçando oportunidades de aprender.


Há muitos anos que eu percebo isso. Mas quem sou eu? Pode ser que eu esteja fora da casinha e tenha ideias estapafúrdias, politicamente incorretas e/ou cientificamente não fundamentadas. Desde a Pandemia de COVID-19, o lema é “Follow the science”. Seja lá o que isso signifique.


Sempre que me deparo com um dilema desses, recorro ao meu amigo imaginário, o ChatGPT, que é o Mais Sábio dos Homens. Abaixo apresento a minha análise do problema e a resposta do ChatGPT.



PERGUNTA

Os professores brasileiros de ensino fundamental e médio gastam muito tempo lidando, de forma ineficiente, com questões disciplinares. Segundo resultados de uma pesquisa TALIS de alguns anos, comparativamente à média de professores da OCDE, os professores gastam o dobro do tempo em sala de aula lidando com questões disciplinares.


Pelo que eu estudei e a partir da minha experiência clínica, isso se deve ao fato de que a formação dos professores não contempla a aquisição de estratégias eficientes e não-coercivas de manejo da disciplina em sala de aula.


Quando um aluno não se comporta de maneira adequada, os professores tendem a usar aversivos. A utilização de aversivos chama atenção para o comportamento inadequado, o qual acaba sendo reforçado. Quando o professor chama atenção para o comportamento inadequado, os colegas também reforçam esse comportamento. O resultado é que o problema pode ser resolvido no curto prazo, mas a longo prazo o comportamento inadequado tende a reincidir.


Essa situação é lastimável, considerando que a análise aplicada do comportamento desenvolveu estratégias eficazes de manejo não-coercivo de questões disciplinares. Basicamente, o professor aprende a utilizar-se do reforçamento diferencial, negligenciando os comportamentos inadequados dentro de limites e prestando atenção e reforçando o comportamento adequado. 


O bom comportamento pode ser treinado a partir de procedimentos de modelagem, através dos quais comportamentos inadvertidamente emitidos pelo aluno e que se aproximem de determinada meta vão sendo sucessivamente reforçados até que a meta seja atingida.


A falta de formação dos professores em estratégias comportamentais não-coercivas e eficientes de manejo disciplinar, na minha opinião, se deve a questões ideológicas. Parece-me que existe um certo enviesamento ideológico na educação e as estratégias baseadas na análise do comportamento são mal vistas.


A má reputação das estratégias comportamentais se deve, em grande parte, aos próprios behavioristas, os quais se fecharam em uma espécie de igrejinha e são impérvios ao diálogo com outras correntes.


De outra parte, a má vontade se deve a uma incompreensão e a uma representação caricata do que seja o behaviorismo. Constrói-se um espantalho do behaviorismo, como se fosse uma espécie de robotização das crianças. 


Essa representação caricata ignora que ao invés de robotizar, a análise do comportamento pode libertar. Quando o aluno provoca e o professor usa estratégias aversivas para tentar maneirar de forma ineficiente o comportamento inadequado, ambos, professor e aluno, caem em uma armadilha comportamental. A armadilha comportamental resulta em um ciclo vicioso de interações coercivas, no qual professor e aluno tentam um controlar o comportamento do outro. Só que o aluno sempre ganha o controle sobre o professor. A hierarquia se inverte. Mas o aluno perde em  termos de aprendizagem e desenvolvimento.


Depois desse longo preâmbulo gostaria de saber sua opinião. Você acha que essa análise faz sentido? Você percebe esse viés anti-behaviorismo na pedagogia? Você concorda que o behaviorismo poderia, efetivamente, contribuir para o manejo não-coercivo de questões disciplinares em sala de aula? Se as respostas a essas questões forem afirmativas, o que pode ser feito para reverter a situação?



RESPOSTA

Sua análise é extremamente pertinente e reflete questões fundamentais tanto no âmbito da formação docente quanto na prática pedagógica no Brasil. Vou abordar suas perguntas uma a uma:

1. A análise faz sentido?

Sim, faz muito sentido. O gasto excessivo de tempo com questões disciplinares reflete uma lacuna na formação docente em estratégias de manejo de comportamento. A abordagem descrita — centrada em aversivos — é amplamente documentada como ineficaz a longo prazo. Estratégias baseadas na análise do comportamento, como reforçamento diferencial e modelagem, têm base empírica sólida para promover comportamentos desejáveis e reduzir comportamentos inadequados sem o uso de coerção.


2. Você percebe um viés anti-behaviorismo na pedagogia?

Sim, há evidências claras de um viés contra o behaviorismo em muitos círculos pedagógicos, tanto no Brasil quanto em outros contextos. Esse viés tem raízes em:

  • Representações equivocadas do behaviorismo: A percepção de que ele promove "robotização" ou desconsidera aspectos humanos mais amplos.

  • Conflitos ideológicos: Muitos educadores associam a análise do comportamento com controle rígido e desumanização, em oposição a abordagens mais "humanistas" que enfatizam autonomia, criatividade e expressão subjetiva.

  • Posicionamento isolacionista dos próprios behavioristas: Como você mencionou, há uma tendência de alguns behavioristas em adotar posturas exclusivistas, que dificultam o diálogo interdisciplinar.

3. O behaviorismo pode contribuir para o manejo não-coercivo de questões disciplinares?

Certamente. A análise do comportamento tem o potencial de transformar a dinâmica em sala de aula, especialmente se focada no manejo positivo e na modelagem de comportamentos desejados. A eficácia dessas estratégias está amplamente demonstrada em diversos contextos educacionais, e elas têm o mérito de beneficiar tanto o professor quanto o aluno, rompendo ciclos de interação coerciva e promovendo um ambiente de aprendizagem mais saudável.


4. O que pode ser feito para reverter a situação?

Há várias ações possíveis para mitigar o viés anti-behaviorismo e integrar essas estratégias na prática pedagógica:

a) Formação docente:

  • Inserir o behaviorismo no currículo pedagógico de forma clara e contextualizada: É necessário desmistificar conceitos, mostrando como as estratégias comportamentais podem ser libertadoras e eficazes.

  • Oferecer capacitações práticas: Demonstrar aos professores como aplicar reforçamento diferencial e modelagem em situações reais de sala de aula pode ser um divisor de águas.

b) Diálogo interdisciplinar:

  • Estabelecer pontes entre behavioristas e outras correntes da pedagogia, mostrando que essas abordagens podem ser complementares, e não opostas.

c) Divulgação científica:

  • Tornar o behaviorismo mais acessível, com linguagem não técnica, promovendo exemplos práticos e concretos de sua aplicação bem-sucedida.

  • Combater caricaturas e mal-entendidos, usando exemplos que demonstrem o impacto positivo dessas estratégias na vida real.

d) Advocacy e políticas públicas:

  • Trabalhar para incluir diretrizes baseadas na análise do comportamento em políticas educacionais e currículos de formação docente.

  • Criar programas-piloto em escolas públicas para demonstrar os resultados dessas abordagens em larga escala.

e) Reflexão interna dos behavioristas:

  • Superar a postura "igrejeira" e engajar-se mais ativamente em debates interdisciplinares.

  • Reconhecer e integrar contribuições de outras abordagens pedagógicas, mostrando disposição para um diálogo produtivo.

A chave para reverter esse cenário é equilibrar rigor científico com sensibilidade pedagógica, promovendo um entendimento mais amplo do que o behaviorismo pode oferecer à educação. Estou à disposição para continuar discutindo esse tema ou para ajudar a estruturar ideias que você possa usar em palestras ou publicações.

CODA

Sempre acontece isso. O ChatGPT é muito bacana. Um amigão. Ele sempre me dá a maior força e, ainda por cima, acrescenta diversos argumentos nos quais eu não tinha pensado. Menos quando o ChatGPT diz que as minhas idéias são politicamente incorretas ou quando inventa coisas. Dessa vez, não aconteceu nada disso. Ele me disse que estou no caminho certo, que as minhas idéias são bacanas e, caso sejam implementadas, podem ajudar professores e alunos.  Basicamente o que eu entendi é o seguinte: a) Os professores precisam receber uma formação em análise aplicada do comportamento; b) Os analistas do comportamento precisam ser menos rígidos, precisam sair da sua igrejinha, cair na vida real. Precisam deixar de ser tão assustadores para os professores.

Vitor Geraldi Haase
Médico no Instituto Letra & Número: Neuropsicologia do Desenvolvimento (desde 2022).
Professor titular (aposentado) do Departamento de Psicologia da UFMG (1995-2022).
Doutor em psicologia médica pela Universidade de Munique (1999).
Mestre em linguística aplicada pela PUCRS (1990).
Neurologista assistente no Hospital São Lucas da PUCRS (1985-1990).
Residência médica em neurologia e neuropediatria pela UFCSPA (1984).
Médico pela UFRGS (1981).

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