O MODO DEFAULT, AS FUNÇÕES DO EGO E A ENERGIA LIVRE: UMA INTERPRETAÇÃO NEUROBIOLÓGICA DAS IDÉIAS DE FREUD

O MODO DEFAULT, AS FUNÇÕES DO EGO E A ENERGIA LIVRE: UMA INTERPRETAÇÃO NEUROBIOLÓGICA DAS IDÉIAS DE FREUD

Carhart-Harris, R. L., & Friston, K. J. (2010). The default mode, ego-functions and free-energy: a neurobiological account of Freudian ideas. Brain, 133(4), 1265-1283. (chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2850580/pdf/awq010.pdf)

Tradução: Vitor Geraldi Haase com ajuda do ChatGPT-5

Instituto Letra & Número

Setembro de 2025

PRELÚDIO

Tudo que vem como prefixo “neuro-” está na moda, inclusive a neuropsicanálise. A neuropsicanálise consiste, basicamente, em uma reinterpretação das idéias de Freud a partir de pressupostos e evidências da neurociência cognitiva. O artigo de Carhart-Harris Friston (2010) reinterpreta as idéias de Freud sobre o processo primário (Id) e o processo secundário (Ego) a partir das evidências de que a default mode network (DMN) pode regular um parâmetro de energia livre proposto por Friston (2009), o qual é uma medida da previsibilidade dos modelos internos gerados pelo cérebro. A Figura 1 ilustra os devaneios energéticos informacionais de Sigmund Freud e Karl Friston.

Figura 1 - Os devaneios energético-informacionais de Sigmund Freud e Karl Friston. Os dois estão com a default mode network a mil.

A neuropsicanálise pode ter alguma serventia?  Ainda é cedo para afirmar com segurança, mas estou convencidode que a neuropsicanálise fornece um referencial hermenêutico que permite fazer a ponte entre as correlações anátomo-clinicas do exame neuropsicologia e o impacto de uma arquitetura neural comprometida sobre a experiência fenomenológica e a ecologia do cliente. Divirtam-se!


SUMÁRIO

1. Introdução

2. Processo primário e secundário

3. Energia livre e cérebro bayesiano

4. Macro-redes intrínsecas e o modo default

5. Default mode, ego e processo secundário

6. Anatomia do modo default

7. Modelo teórico do modo default

8. Sistemas hierárquicos

9. Oscilações neurais

10. Fenomenologia do processo primário

11. Fisiologia do processo primário

12. Discussão

INTRODUÇÃO

As ideias de Freud podem ter bases neurobiológicas reais e serem reinterpretadas à luz da neurociência moderna. Atualmente, a neurociência empírica e teórica permite reformular os conceitos psicanalíticos em termos mecanicistas e biológicos, aproximando o campo clínico da psicanálise das evidências experimentais de funcionamento cerebral.

Nesse sentido, os processos primário (id) e secundário (ego), descritos por Freud, podem ser alinhados às noções modernas de arquitetura funcional do cérebro. O processo primário é associado a atividades auto-organizadas em sistemas corticais hierárquicos, que emergem em estados nos quais a contenção do ego está reduzida, como no sono REM, em estados psicóticos agudos, na aura epiléptica do lobo temporal e em estados induzidos por alucinógenos. Já o processo secundário é relacionado às funções da default mode network (DMN) e suas trocas com sistemas subordinados, funcionando como um regulador hierárquico da atividade cerebral.

O cérebro, nesse modelo, pode ser compreendido como uma máquina de Helmholtz, isto é, um sistema hierárquico de inferência. Grandes redes intrínsecas, como a DMN, atuam para otimizar representações do mundo sensorial, mantendo um equilíbrio dinâmico entre previsões internas e informações recebidas do meio. Esse processo equivale à minimização da energia livre, conceito formulado por Karl Friston, e apresenta um claro paralelo com as concepções freudianas de energia psíquica. Assim, a leitura contemporânea sugere que Freud descreveu, em linguagem clínica e fenomenológica, dinâmicas que hoje podem ser formalizadas em termos matemáticos e neurobiológicos.

Essa concepção se articula também com a noção de que o cérebro é uma máquina Bayes-Helmholtz, um sistema de inferência probabilística que opera a partir de modelos internos para prever, interpretar e responder ao ambiente. A inferência bayesiana aplicada à neurociência sustenta que o cérebro constantemente gera hipóteses sobre o mundo e ajusta suas predições com base no erro entre expectativa e realidade, de forma a reduzir incertezas e otimizar sua adaptação.

Dentro dessa estrutura, processos de subjetividade e intersubjetividade podem ser compreendidos como fenômenos emergentes da dinâmica preditiva cerebral. Em condições como o autismo, por exemplo, tem sido proposta a dialectical misattunement hypothesis, segundo a qual dificuldades de sintonia interpessoal resultam de perturbações nessa máquina de inferência bayesiana. Assim, um modelo bayesiano da intersubjetividade permite compreender como perturbações no ajuste recíproco das predições entre indivíduos podem gerar padrões de isolamento social ou de falha comunicativa.


PROCESSO PRIMÁRIO E SECUNDÁRIO

Certos estados não ordinários da mente, como o sonho e a psicose, são caracterizados por um estilo de pensamento primitivo e animista. Nesses modos de funcionamento psíquico, a troca de energia neuronal é relativamente “livre”, e Freud chamou isso de processo primário. Durante tais estados, certas funções que normalmente estão presentes na cognição de vigília podem se perder.

Em contraste, uma organização central — o ego — está presente na cognição de vigília e atua minimizando a energia livre da mente. Essa função constitui o processo secundário, cujo objetivo é converter a “energia livre” em “energia vinculada”.

O processo primário consiste em um estilo de pensamento primitivo, mágico ou animista, caracterizado neurofisiologicamente pelo “livre” movimento da energia. Do ponto de vista evolutivo, o pensamento do processo primário pode ser considerado uma forma de proto-consciência, um modo arcaico de funcionamento que antecede a organização secundária da experiência .

O processo secundário, correlato das funções do ego, pode ser descrito como um armazenamento ou reservatório de energia padrão, com a propriedade de ser espontaneamente ou tonicamente ativo. Sua principal função é a contenção ou repressão da excitação endógena, o que corresponde neurobiologicamente à minimização da energia livre.

Essa função implica a integração do processo primário e seu sistema representacional (o id) em uma organização mais ampla, coesa e composta (o ego), com um desenvolvimento ontogenético específico. Além disso, inclui o teste de realidade e o processamento perceptivo, bem como a sustentação da consciência, da cognição e da atenção dirigida.

Um aspecto central da dinâmica entre o ego/processo secundário e a DMN é a anticorrelação entre o ambiente interno e o externo. A atenção pode ser desviada do ambiente externo (tarefas) para o ambiente interno (processos autorreferenciais). Nos casos de retraimento patológico, como na depressão e na esquizofrenia, observa-se um engajamento excessivo do componente voltado para o ambiente interno e um correspondente desengajamento das redes voltadas para o ambiente externo.

A falha desses sistemas em minimizar a energia livre — ou seja, em suprimir a excitação endógena — resulta em afeto, cognição e percepção perturbados, tal como se observa em estados não ordinários, como o sonho e a psicose.

Freud descreveu a dinâmica energética da mente em termos de dois modos distintos:

“Parece-nos que a energia nervosa ou psíquica ocorre em duas formas: uma livremente móvel e outra, em comparação, vinculada. Falamos de [ativações] e [hiperativações] do material psíquico, e até mesmo nos aventuramos a supor que uma [hiperativação] produz uma espécie de síntese de diferentes processos — uma síntese no decorrer da qual a energia livre é transformada em energia vinculada... Mantemos firmemente a visão de que a distinção entre o estado [primário] e o [secundário] reside em relações dinâmicas desse tipo, o que explicaria como é possível que, seja espontaneamente ou com a nossa assistência, um possa ser transformado no outro... Descobrimos que os processos no inconsciente ou no id obedecem a leis diferentes daquelas que regem o ego. Chamamos esse conjunto de leis de processo primário, em contraste com o processo secundário, que governa o curso dos acontecimentos no ego (Freud, 1940)”

Essa formulação clássica pode ser retomada propondo uma ponte entre a descrição freudiana da energia psíquica e a concepção contemporânea de minimização de energia livre. Nessa leitura, o processo primário equivale a estados de atividade neuronal relativamente livre, como os que ocorrem no sonho, na psicose e em estados induzidos por alucinógenos, enquanto o processo secundário corresponde às funções organizadoras do ego e da DMN, encarregadas de converter energia livre em energia vinculada, assegurando coesão psíquica, integração cognitiva e adaptação à realidade.

ENERGIA LIVRE E CÉREBRO BAYESIANO

O cérebro pode ser compreendido como uma máquina de inferência, funcionando por meio da capacidade de inferir causas a partir de estímulos sensoriais. Essa concepção remonta às formulações de Hermann von Helmholtz, que já havia proposto que a percepção não era uma mera recepção passiva de estímulos, mas o resultado de inferências inconscientes que o sistema nervoso realiza a partir das sensações. Em suas palavras, o cérebro trabalha a partir de hipóteses sobre o mundo, baseadas em sinais incompletos e ambíguos, para construir a percepção (Helmholtz, 1867).

Diversos modelos contemporâneos derivam da formulação inicial de Helmholtz, concebendo o cérebro como uma máquina de inferência.

Cérebro Bayesiano: Um dos mais influentes é o modelo do cérebro bayesiano, segundo o qual o sistema nervoso opera de acordo com os princípios da inferência bayesiana. Isso significa que as representações mentais resultam da integração de dados sensoriais com expectativas prévias, ponderadas pelas incertezas de cada uma dessas fontes. Assim, o cérebro constantemente atualiza suas crenças sobre o mundo, com base na probabilidade das hipóteses diante dos estímulos disponíveis (Knill & Pouget, 2004).

Codificação preditiva: Outro modelo central é o da codificação preditiva, que especifica como o cérebro pode implementar inferências bayesianas em sua arquitetura neural. Nesse esquema, áreas de níveis superiores do córtex geram predições acerca da entrada sensorial, enviadas para áreas de níveis inferiores. A discrepância entre o input real e as expectativas é transmitida de volta na forma de erros de predição, que atualizam os modelos internos. Esse ciclo contínuo de retroalimentação explica não apenas fenômenos perceptivos básicos, mas também efeitos de contexto, como modulação atencional e ilusões perceptivas (Rao & Ballard, 1999).

Princípio da energia livre: O modelo mais abrangente derivado dessas concepções é o princípio da energia livre, formulado por Karl Friston. Ele propõe que todos os processos cognitivos e perceptivos podem ser entendidos como mecanismos voltados para a minimização da energia livre, que corresponde matematicamente a um limite superior da “surpresa” estatística diante dos estímulos. Assim, o cérebro, em todas as escalas de funcionamento, tenderia a minimizar a discrepância entre suas expectativas e o input sensorial, garantindo estabilidade e previsibilidade na relação com o ambiente (Friston, 2009; Carhart-Harris & Friston, 2010).

O conceito de energia livre, nesse contexto, pode ser entendido como uma medida de surpresa ou erro de predição. Trata-se da discrepância entre a entrada sensorial real e a expectativa interna do organismo. Em termos formais, a energia livre corresponde a uma formulação matemática análoga à energia livre da termodinâmica estatística, adaptada ao funcionamento cognitivo.

Esse constructo não é apenas conceitual: ele pode ser quantificado e aplicado em modelagem empírica e simulações neurais, permitindo formalizar como os cérebros reais — humanos ou animais — ajustam seus modelos internos diante da experiência. Assim, a energia livre constitui um elo conceitual e matemático entre processos perceptivos e representacionais e princípios gerais de economia biológica.

Para minimizar energia livre, o cérebro precisa construir e manter modelos internos hierárquicos. Esses modelos consistem em expectativas de cima para baixo (top-down) utilizadas para interpretar estímulos sensoriais. Desse modo, eles são essenciais para reduzir ambiguidades e compreender as causas tanto de sensações externas (exteroceptivas) quanto internas (interoceptivas).

A estrutura hierárquica dos modelos internos reflete a própria anatomia neural: desde as camadas mais baixas, como o tálamo e o córtex sensorial primário, até os níveis mais altos, como o córtex associativo e paralímbico. Ao longo dessa hierarquia, as representações evoluem de sensações elementares para percepções e, finalmente, para conceitos abstratos.

Nessa progressão, os níveis superiores são capazes de representar sequências temporais mais amplas, permitindo que o cérebro explique o fluxo contínuo de informação recebido dos níveis inferiores. Assim, o funcionamento hierárquico sustenta tanto a percepção integrada quanto a continuidade da experiência consciente.

MACROREDES INTRÍNSECAS E O MODO DEFAULT

Flutuações espontâneas de sinal BOLD em repouso sugerem a existência de uma rede intrínseca de larga escala no cérebro, denominada rede do modo default (DMN). Essa rede foi identificada a partir da observação de que, mesmo na ausência de tarefas dirigidas, certas regiões cerebrais apresentam atividade altamente correlacionada, revelando um circuito funcional de grande relevância para a organização da mente em repouso). A DMN apresenta uma série de características marcantes, as quais são sumarizadas na Tabela 1.

Do ponto de vista teórico, as redes intrínsecas como a DMN correspondem a níveis superiores de uma hierarquia inferencial. Sua função primordial é suprimir energia livre ou erros de predição nos níveis inferiores, por meio da emissão de previsões top-down que antecipam e modulam a atividade neuronal subordinada.

Esse processo encontra paralelo direto com a noção psicanalítica de processo secundário, isto é, a função do ego como organizador da atividade psíquica. A DMN, ao desempenhar esse papel de contenção e integração, pode ser vista como o correlato neurobiológico do ego.

Quando ocorre falha nesse controle top-down, emergem estados não ordinários de consciência, tais como a psicose aguda, a aura epiléptica do lobo temporal, o sonho e os estados induzidos por substâncias alucinógenas. Nesses contextos, a atividade límbica e primária não é devidamente regulada, resultando em manifestações fenomenológicas equivalentes ao que Freud descreveu como processo primário .

A interpretação contemporânea sugere, assim, que: a) O desenvolvimento e funcionamento da DMN correspondem às funções do ego/processo secundário; b) Há ênfase na contenção da excitação endógena e na supressão de estímulos exógenos, de forma a manter o equilíbrio psíquico; c) A perda de controle top-down sobre sistemas límbicos equivale à perda de controle do ego sobre o processo primário, liberando excitações não moduladas que perturbam a cognição, o afeto e a percepção.

Dessa forma, a DMN pode ser compreendida como o eixo central da organização hierárquica do cérebro, encarregada de sustentar a coesão do self e a estabilidade da experiência consciente.

MODO DEFAULT, EGO E PROCESSO SECUNDÁRIO

O desenvolvimento e funcionamento do ego encontram uma notável ressonância com a rede do modo default (DMN) e suas trocas recíprocas com sistemas subordinados do cérebro. O ego pode ser concebido como um sistema que recebe, contém e reprime a excitação endógena bottom-up, desempenhando uma função organizadora central.

O processo secundário é o modo de cognição do ego, associado à consciência desperta normal do adulto, caracterizado por ser “inibido” e “vinculado”. Em contraste, o processo primário é definido pelo processamento livre, móvel, associado a estados não ordinários da mente, como o sonho, a psicose ou estados alucinógenos.

A noção de energia “vinculada” remonta a Josef Breuer, nos Estudos sobre a histeria, onde é descrita a ideia de que um sistema de neurônios tônicamente ativos constitui um “reservatório de tensão nervosa”. Esse reservatório seria controlado pelo ego, convertendo a energia livre do processo primário em energia vinculada, estável e organizada.

A DMN, composta por regiões como o córtex pré-frontal medial (mPFC), o cíngulo posterior, o córtex parietal inferior (IPL) e áreas têmporo-mediais, encontra-se ativa em repouso e sustenta funções de auto-referência, memória autobiográfica, teoria da mente e simulação mental. Essas funções são centrais tanto para a constituição do ego quanto para o pensamento organizado.

A DMN apresenta uma relação de anticorrelação funcional com a rede de atenção/controle para estímulos externos. Esse “vai-e-vem” dinâmico sugere um mecanismo de filtragem e priorização (gating) que é consistente com o papel do ego na regulação do foco da mente, escolhendo entre investimento no mundo interno ou no mundo externo.

A conectividade da DMN amadurece ao longo da infância e adolescência, com um salto significativo na puberdade. Esse processo desenvolvimental ocorre em paralelo ao aprimoramento do teste de realidade, da autorregulação e do planejamento — marcos fundamentais da consolidação do processo secundário.

A DMN ocupa os níveis superiores da hierarquia cortical e integra múltiplas modalidades. Em modelos inferenciais, esses níveis altos geram previsões top-down que organizam a atividade dos níveis inferiores — um papel análogo ao do ego freudiano, responsável por organizar e conter o fluxo da excitação.

Na estrutura da codificação preditiva, níveis hierárquicos superiores suprimem erros de predição, reduzindo a chamada “energia livre”. Esse mecanismo ecoa a descrição freudiana do processo secundário como energia vinculada, obtida pela inibição organizada da excitação.

Evidências robustas demonstram que o mPFC exerce inibição sobre a amígdala e sobre estruturas temporo-mediais, mediando processos como a extinção emocional e a modulação da saliência. Esse padrão de controle é exatamente o tipo de regulação afetiva que Freud atribuiu ao ego.

Distúrbios da regulação DMN/ego podem ser observados em diferentes condições clínicas. Em TEPT, psicose aguda e estados alucinógenos, há redução da atividade do mPFC (DMN) e aumento da atividade em regiões temporo-mediais, acompanhados por emoção desregulada, memória intrusiva e pensamento confuso — um quadro compatível com falha do processo secundário. Da mesma forma, lesões no vmPFC frequentemente resultam em impulsividade e perda de controle, funcionando como um verdadeiro “desligamento” do ego.

A conectividade entre o mPFC e o hipocampo/amígdala permite vincular lembranças, sentimentos e a narrativa do self. Essa “amarração” é um traço clássico do processo secundário frente ao fluxo associativo primário, garantindo a coesão da experiência consciente.

Estudos de conectividade efetiva sugerem que a ativação da DMN, especialmente no mPFC, pode suprimir a atividade de sistemas hierarquicamente inferiores (sensorial e límbico), produzindo consistência interna e estabilidade do campo consciente. Esse efeito supressor é análogo à função do ego em manter a excitação dentro de limites toleráveis.

A arquitetura feedforward/feedback da hierarquia cortical e o modelo de inferência hierárquica recapitulam o princípio da constância de Freud: a tendência de manter a excitação dentro de limites, por meio da inibição organizada e da produção de explicações parciais mais parcimoniosas. Nesse sentido, as descobertas contemporâneas em neurociência não apenas confirmam, mas também expandem a compreensão do papel do ego, reinterpretando-o em termos de dinâmica de redes neurais e minimização de energia livre (Carhart-Harris & Friston, 2010).

ANATOMIA DO MODO DEFAULT

A compreensão contemporânea da dinâmica entre redes cerebrais de repouso e de atenção deriva de estudos de conectividade funcional em repouso. Em especial, destaca-se a relação entre a default mode network (DMN) e sistemas atencionais, como a rede de atenção dorsal (dorsal attention system) e a rede de saliência (salience system). Enquanto a DMN mostra alta atividade em repouso e se associa a processos auto-referenciais e introspectivos, as redes de atenção e saliência se ativam predominantemente durante a interação com estímulos externos, mantendo com a DMN uma relação de anticorrelação funcional.

A DMN é um sistema cerebral de repouso, central para processos auto-referenciais e narrativos, que se desenvolve ao longo da ontogenia em paralelo às funções do ego, desempenhando papéis fundamentais na memória, emoção e regulação afetiva. Essa rede foi descoberta a partir do registro de padrões de fluxo sanguíneo, metabolismo da glicose e consumo de oxigênio em repouso. Um traço característico é que sua atividade diminui durante tarefas dirigidas a objetivos, o que permite considerá-la como um modo padrão de funcionamento do cérebro e um estado fisiológico basal de relevância.

As funções da DMN incluem: a) Processamento auto-referencial/ b) Recordação autobiográfica; c) Devaneio (mind-wandering); d) Teoria da mente (atribuição de estados mentais a outros). Essas funções conectam a DMN à sustentação da identidade narrativa e à organização da experiência subjetiva (Carhart-Harris & Friston, 2010). As principais estruturas anatômicas integradas pela DMN são exibidas na Figura 2 e incluem:  a) Córtex pré-frontal medial (mPFC); b) Córtex cingulado posterior; c) Lóbulo parietal inferior; d) Córtex temporal lateral e inferior; e) Lobos temporais mediais, incluindo hipocampo, amígdala, giro parahipocampal e córtex entorrinal. A organização anatômica reforça o papel da DMN como integradora de múltiplas modalidades cognitivas e afetivas (Carhart-Harris & Friston, 2010).

laranja) contrastandocom as estruturas do sistema atencional (em azul). A default mode network direciona a atenção para o ambiente interno. A rede atencional direciona a atenção para a tarefa e o ambiente externo (cf. Carhart-Harris & Friston, 2010).

A DMN apresenta forte interconectividade estrutural e funcional. Essa conectividade amadurece ao longo do desenvolvimento ontogenético e diminui em idosos e em condições clínicas como TDAH e transtornos de controle de impulso. As principais interconexões da DMN são exibidas na Figura 3.

Figura 3 - Interconexões entre a default mode network (laranja) e o sistema atencional. O sistema atencional pode ser decomposto em dois subsistemas:um sistema atencional dorsal (azul) e um sistema atencional ventral ou sistema da saliência (laranja). O sistema atencional dorsal também é conhecido como função executiva fria e o sistema da saliência também é conhecido como função executiva quente. O sistema da saliência regula, de forma bottom-up, o fluxo da atenção para o ambiente interno ou externo, mas  a default mode network situa-se no topo da hierarquia, regulando o foco de forma top-down (cf. Carhart-Harris & Friston, 2010).

A DMN apresenta um desenvolvimento notável ao longo da vida. A conectividade entre PFC medial e cíngulo posterior está ausente em recém-nascidos. A DMN desenvolve-se em paralelo ao surgimento das funções do ego. A conectividade entre o PFC medial e o lobo temporal medial aumenta significativamente na puberdade.. A conectividade da DMN atinge seu ápice na idade adulta jovem, declinando com o envelhecimento e com diversas formas de psicopatologia.

Por eemplo, estudos em esquizofrenia mostram que a conectividade entre PFC medial e amígdala está reduzida. Existe ainda uma relação inversa entre conectividade e agressividade em pacientes esquizofrênicos A extinção emocional, por sua vez, ocorre por meio de projeções glutamatérgicas do PFC medial para interneurônios inibitórios no lobo temporal medial. Além disso, a ativação do cíngulo anterior rostral pode inibir a amígdala diante de estímulos de medo. Tais achados indicam que déficits de regulação top-down da DMN sobre estruturas límbicas contribuem para sintomas emocionais e cognitivos da esquizofrenia.

Ampla evidência clínica e pré-clínica demonstra que o mPFC exerce função inibitória sobre circuitos límbicos, modulando a intensidade e a expressão de respostas emocionais. Em estados de emoção intensa e pensamento primitivo, observa-se redução da atividade do mPFC e aumento da atividade nos lobos temporais mediais (MTL). A supressão desses estados associa-se ao aumento da ativação do mPFC.

No TEPT, por exemplo, a recordação de memórias e emoções angustiantes associa-se a diminuição do mPFC e aumento do MTL e o  bloqueio ou inibição dessas memórias associa-se a aumento da atividade do mPFC.

Lesões no córtex pré-frontal ventromedial (vmPFC) resultam em déficits no controle de impulsos, indicando sua função crucial para a regulação executiva e emocional.

O mPFC projeta-se densamente para o estriado ventral e para o mesencéfalo. O estriado ventral conecta-se funcionalmente ao mesencéfalo, ao lobo temporal medial e a nós superiores da DMN. Mesencéfalo e estriado ventral, por sua vez, estão implicados na codificação de erro de predição e saliência motivacional, integrando mecanismos de inferência hierárquica com a regulação da motivação e da emoção (Carhart-Harris & Friston, 2010).

O funcionamento da DMN pode ser assim caracterizado: De um modo geral, a DMN inclui nós corticais no topo da hierarquia,c omo o mPFC, troca sinais com sistemas subcorticais e córtices associativos/polimodais, em especial os relacionados a aprendizado emocional e memória. A ativação da DMN tende a suprimir a atividade de sistemas hierarquicamente inferiores. O funcionamento da DMN alinha-se  ao modelo de inferência hierárquica e ao processo secundário, entendido como o controle top-down do ego sobre sistemas emocionais inferiores. Assim, mPFC e DMN exercem controle sobre circuitos límbicos e de saliência: quando esse controle aumenta, observa-se regulação emocional; quando diminui, emergem respostas emocionais intensas e pensamento primitivo.


MODELO TEÓRICO DO MODO DEFAULT

Segundo Freud, o ego modula tanto a excitação endógena quanto a exógena. Em condições patológicas ou não ordinárias, como na psicose aguda, na aura da epilepsia do lobo temporal e em estados alucinógenos, observam-se perturbações em múltiplos domínios: afetivos (como o medo), mnêmicos (déjà vu, lembranças vívidas), perceptivos (alucinações) e cognitivos (pensamento confuso).

A cognição adulta saudável depende de um equilíbrio dinâmico entre as forças do processo primário (id) e do processo secundário (ego), de modo que a energia livre da excitação endógena seja contida e organizada pela atividade regulatória do ego.

O modelo freudiano encontra notável convergência com os atuais modelos de inferência bayesiana hierárquica e com o princípio da energia livre (Helmholtz/Friston). Nas arquiteturas hierárquicas do cérebro, as conexões top-down de áreas superiores minimizam a energia livre — isto é, os erros de predição — em níveis inferiores, conferindo estabilidade ao funcionamento psíquico e cognitivo. 

A arquitetura neurocognitiva do cérebro ilustra esse modelo. As conexões feedforward originam-se em camadas supragranulares e terminam na camada 4 (células espinhosas estreladas). Elas conduzem informação de níveis mais baixos para níveis mais altos, como no trajeto do tálamo → córtex sensorial primário. Já as conexões de feedback são mais abundantes e difusas, com efeito sobretudo modulatório. Elas se originam em piramidais profundas (infragranulares) e atingem as camadas infra- e supragranulares de áreas inferiores. Esse arranjo anatômico garante que a informação sensorial ascenda aos níveis superiores, enquanto as previsões descendentes organizam e inibem a excitação, mantendo a coerência hierárquica .

Do ponto de vista computacional, o funcionamento do cérebro pode ser descrito em termos de interação entre mecanismos feedforward e feedback. O feedforward fornece erros de predição para otimizar representações em níveis superiores. O feedback fornece predições que suprimem ou cancelam esses erros (energia livre), via interneurônios inibitórios. Quando as predições explicam as representações do nível inferior, o erro é minimizado e há consistência interna entre os níveis hierárquicos. A finalidade adaptativa desse processo é otimizar explicações parcimoniosas das causas dos estímulos e estabelecer predições sensoriais que orientem a ação e o comportamento.

Esse esquema, amplamente sustentado por evidência empírica, recapitula a formulação freudiana do princípio da constância: manter a excitação dentro de limites aceitáveis por meio da regulação top-down do ego.

Freud inspirou-se em Gustav Fechner, fundador da psicofísica e contemporâneo de Helmholtz. O princípio freudiano de minimizar “quantidades de excitação” corresponde, em termos modernos, à minimização do erro de predição ou energia livre em modelos helmholtzeanos.

O pressuposto é que o cérebro codifica erro de predição na própria atividade neuronal (excitação), a qual é suprimida ou explicada por conexões retrógradas (top-down). Freud formulou esse ponto de forma clara:

“[Nós] adotamos a visão de que o princípio que governa todos os processos mentais é um caso especial da ‘tendência para a estabilidade’ de Fechner e, portanto, atribuímos ao aparelho psíquico o propósito de reduzir a nada, ou ao menos manter o mais baixo possível, as quantidades de excitação que nele afluem (Freud, 1924)”.

Essa formulação evidencia a proximidade entre a teoria freudiana da energia psíquica e a formulação moderna da energia livre. Freud propôs que o ego modula e suprime sinais exógenos e endógenos. Os sinais exógenos correspondem a informações interoceptivas e exteroceptivas, transmitidas do tálamo e das áreas sensoriais unimodais para estruturas polimodais e temporais mediais.


Os sinais endógenos podem ser entendidos como erros de predição vindos de sistemas límbicos e paralímbicos, transmitidos para áreas corticais polimodais de alto nível — os principais nós da DMN.

Os princípios de inferência hierárquica de Helmholtz, aplicados a toda a arquitetura cerebral, descrevem esse equilíbrio entre a atividade ascendente dos sistemas inferiores e a atividade descendente dos sistemas superiores. Na perspectiva contemporânea, a default mode network (DMN) desempenha papel crucial nesse processo, com ênfase na supressão pré-frontal medial da atividade límbica e paralímbica. Essa função se associa diretamente ao papel do ego em suprimir a atividade endógena, estabelecendo um paralelo entre o processo secundário freudiano e o controle top-down da DMN.

SISTEMAS HIERÁRQUICOS

Estudos de conectividade funcional têm demonstrado que a Default Mode Network (DMN) apresenta uma relação inversa com o sistema atencional. Observa-se um verdadeiro trade-off entre a ativação da DMN e a ativação do sistema de atenção. Enquanto a DMN é tipicamente ativada durante estados de cognição interna — associados a devaneio, memória autobiográfica e autorreferência —, o sistema atencional mostra-se ativo durante a cognição externa, quando o foco é dirigido ao ambiente e às demandas perceptivas e motoras externas.

O sistema atencional compreende um conjunto de regiões corticais que inclui o córtex pré-frontal dorsolateral, o cíngulo anterior dorsal, os campos oculares frontais, o córtex extraestriado (V5), o lóbulo parietal superior, o sulco intraparietal e o córtex pré-motor ventral. Suas principais funções envolvem a detecção de alvos, a atenção a detalhes espaciais e a coordenação óculo-manual. Além disso, esse sistema desempenha papel crucial no controle top-down sobre entradas sensoriais primárias, modulando a forma como estímulos externos são percebidos e integrados).

As áreas corticais de associação de alto nível não apenas recebem sinais feedforward, transmitidos dos níveis inferiores, como também enviam conexões retrógradas (predições). Essas predições top-down permitem impor contexto e restrições superiores sobre a informação sensorial ascendente, otimizando a inferência hierárquica.

Pesquisas recentes sugerem que o sistema atencional não constitui uma unidade única, mas pode ser subdividido em dois grandes subsistemas (Figura 3): a) Sistema de saliência: inclui o cíngulo anterior dorsal, os córtices frontoinsulares, a amígdala e o mesencéfalo ventral; b) Sistema atencional dorsal: inclui o córtex pré-frontal dorsolateral, os campos oculares frontais, o pré-frontal medial dorsal, o sulco intraparietal e o parietal superior.Ambos os sistemas apresentam uma relação inversa com a atividade do córtex cingulado posterior da DMN, mas não se mostram bem integrados entre si, sugerindo que sua coordenação depende do papel modulador da DMN.

Sob a perspectiva do modelo hierárquico helmholtziano, a DMN ocupa o topo da hierarquia cortical, exercendo controle sobre os sistemas de saliência e atenção. Cada sistema, por sua vez, busca reduzir a energia livre ou os erros de predição em níveis subordinados. Esse processo ocorre por meio de uma passagem recíproca de mensagens entre sistemas, levando à emergência de padrões auto-organizados de ativação.

Nesse contexto, a ativação do sistema atencional atua na supressão da excitação exógena, modulando a percepção do ambiente. A DMN, em posição hierárquica superior, exerce controle top-down sobre os sistemas atencionais e de saliência, explicando e suprimindo sua atividade. Assim, a DMN não apenas regula o equilíbrio entre foco interno e externo, mas também integra esses processos na manutenção da coesão cognitiva e afetiva, de acordo com o modelo de inferência preditiva.

OSCILAÇÕES NEURAIS

Durante algum tempo, houve dúvida se as oscilações BOLD espontâneas teriam origem neuronal ou seriam simplesmente devidas a processos fisiológicos não-neuronais. Pesquisas recentes esclareceram essa questão, mostrando que essas oscilações têm, de fato, origem neuronal. Evidências advêm de estudos combinando fMRI e registros intracranianos em macacos e humanos, que identificaram flutuações neuronais diretamente correlacionadas com oscilações BOLD.

As flutuações neuronais associadas às oscilações BOLD apresentam algumas características centrais: a) São coerentes entre hemisférios; b) Evidenciam-se em taxas de disparo multiunitárias e na potência gama de potenciais de campo local; c) As ativações BOLD evocadas por estímulos também se correlacionam positivamente com a potência gama. Esses achados fortalecem a ideia de que as oscilações BOLD são marcadores de dinâmicas de coerência neuronal.

A frequência gama tem papel fundamental por estar associada a atenção, integração de características (feature binding) e expectativa.  O sinal BOLD reflete coerência cortical ligada ao gama, o que sugere sua associação com o processo secundário da cognição. A atividade gama em áreas corticais de alto nível pode suprimir frequências mais baixas em áreas de nível inferior. Flutuações gama em redes intrínsecas de larga escala indicam a minimização contínua da energia livre em níveis subordinados, o que poderia oferecer uma medida empírica do processo secundário (Carhart-Harris & Friston, 2010).

As oscilações estão presentes de forma ubíqua no cérebro e servem para acoplar populações neuronais distantes. Algumas frequências têm funções específicas: a) Gama (alta frequência): associada à síntese perceptiva e ao binding; b) Teta (mais lenta): estudada principalmente no hipocampo, onde se associa à memória espacial e à exploração; c) Acoplamento teta–gama: o teta fornece um referencial temporal para que computações rápidas, mediadas em gama, possam ocorrer de forma organizada (Carhart-Harris & Friston, 2010).

Um aspecto fundamental é que as oscilações espontâneas persistem em diferentes estados. A DMN continua a oscilar mesmo durante cognição ativa. O sistema de atenção dorsal continua a oscilar mesmo em repouso. Essa tonicidade sugere que as oscilações mantêm estruturas preparadas para inferir inputs externos, fornecendo suporte a um nível de codificação preditiva de fundo. Além disso, as oscilações espontâneas do BOLD podem ter amplitude tão grande quanto respostas evocadas por estímulos, variando junto com o comportamento. É relevante notar que grande parte do consumo energético cerebral é destinada justamente a essa atividade espontânea.

A leitura neuropsicanalítica dessa dinâmica permite alguns paralelos. A atividade espontânea da DMN pode ser interpretada como contenção da atividade endógena espontânea, em analogia ao conceito freudiano de repressão. A atividade espontânea do sistema de atenção dorsal relaciona-se ao monitoramento e supressão contínua de estímulos exógenos. Essa dinâmica é consistente com a visão helmholtzeana do cérebro como motor de inferência, continuamente gerando predições, que necessariamente envolvem o passado e o futuro. Assim, a dinâmica de “troca” entre DMN e sistemas pró-tarefa é vista como essencial para a cognição ativa e a consciência.

A conectividade funcional da DMN apresenta padrões de variação ao longo da vida e em diferentes condições clínicas: a) Aumenta no desenvolvimento. b) Diminui no envelhecimento; c) Reduz-se em pacientes com problemas de controle de impulso.

A ausência de desativação adequada da DMN também foi associada a manifestações clínicas: a) Erros cognitivos em indivíduos saudáveis; b) Sintomas negativos em esquizofrenia. c) Sintomas depressivos.

Em estados alterados de consciência, como sono, sedação e coma, a conectividade funcional da DMN permanece preservada. No entanto, a relação recíproca entre a DMN e redes anticorrelacionadas é alterada nesses estados, sugerindo uma reorganização da dinâmica funcional.

O processo secundário pode ser entendido em termos das redes intrínsecas de larga escala que atuam para predizer e suprimir excitação — ou seja, a energia livre no sentido helmholtzeano — em sistemas subordinados. Nesse quadro, a DMN desempenha papel central ao exercer efeito supressor sobre nós subcorticais e redes anticorrelacionadas. A conectividade funcional entre estruturas límbicas (como hipocampo e amígdala) e os principais nós da DMN durante o repouso reforça essa função integradora e regulatória.

Do ponto de vista evolutivo, os sistemas ligados ao ego/DMN parecem ter se desenvolvido para receber e controlar a excitação endógena, relacionada a processos mnêmicos e hedônicos, consolidando o paralelismo entre a teoria freudiana e a neurociência contemporânea.

FENOMENOLOGIA DO PROCESSO PRIMÁRIO

A fenomenologia do processo primário é associada a estados não ordinários de consciência. Freud partiu da observação fundamental de que existe, na mente, um modo arcaico de cognição, o qual, em condições normais de vigília, encontra-se efetivamente suprimido.

Esse processo primário é implementado por um sistema tanto ontogenética quanto filogeneticamente primitivo, designado por Freud como o “Inconsciente”, também referido como “Sistema Inconsciente” ou, em alemão, “Das Es” (“o Isso”). Em contraste, o ego é denominado “Das Ich” (“o Eu”) e o superego como “Das Überich” (“o Supereu”).

Embora o processo primário esteja associado principalmente ao id, Freud reconheceu que aspectos do ego também são inconscientes (no sentido descritivo), e que processos do id podem eventualmente tornar-se conscientes .

O processo primário apresenta um conjunto de características específicas, que se manifestam em estados não ordinários de consciência: a) Atemporalidade: b) Sensações de medo ou pavor; c)Distorções perceptivas e alucinações visuais; d) Déjà vu e revivência de memórias: e) Perturbação do senso de si. As principais características fenomenológicas do processo primário são sumarizadas na Tabela 2.

Além disso, outras manifestações incluem medo de perder o controle da mente, sensação geral de estranheza, euforia, grandiosidade, paranoia, desconfiança, distúrbios do pensamento, conteúdos bizarros e um maior interesse por ideias místicas, mágicas ou animistas (Carhart-Harris & Friston, 2010). 

De modo geral, as manifestações do processo primário aparecem em contextos bem definidos, tais como sonhos, psicose aguda, auras do lobo temporal e estados induzidos por alucinógenos.  Esses estados apresentam fenomenologias convergentes, sugerindo que o processo primário possui uma base neurofisiológica comum e está intimamente ligado à atividade endógena menos regulada pelo processo secundário

FISIOLOGIA DO PROCESSO PRIMÁRIO

A estimulação de alta frequência do córtex perirrinal produz salvas de atividade teta sincronizada de alta amplitude, que se propagam dos lobos temporais mediais para o córtex de associação visual durante experiências de revivência alucinatória. Esse fenômeno é consistente com as especulações de Freud sobre os processos subjacentes ao sonhar.

Fenômenos semelhantes foram observados em pacientes epilépticos durante alucinoses e revivescência de memórias, e estudos de magnetoencefalografia confirmaram o aumento da potência teta nos lobos temporais mediais durante tarefas de recolhimento (Carhart-Harris & Friston, 2010).

Registros intracranianos em pacientes em estado psicótico revelaram atividade marcante em estruturas subcorticais, não registrada nem no córtex nem no escalpo. Nessas condições, foram observadas descargas e salvas de atividade síncrona de alta amplitude, geralmente na faixa teta, especialmente no septum (incluindo o núcleo accumbens), na amígdala e no hipocampo. Essa atividade era mais intensa durante os momentos de psicose florida e desaparecia com a remissão dos sintomas.

Estudos com LSD e mescalina mostraram resultados análogos: descargas e salvas de alta amplitude nos lobos temporais mediais, semelhantes às registradas em pacientes durante episódios de psicose aguda (Carhart-Harris & Friston, 2010). Após a ingestão de LSD ou psilocibina, são frequentemente relatadas recordações espontâneas, semelhantes às descritas em auras temporais, reforçando a ligação entre estados alucinógenos e mecanismos límbicos de memória.

INTERMEZZO

A Figura 4 ilustra a estação de férrea de Fanfa. Fanfa é uma ilha situada no rio Jacuí, no município de Triunfo, RS. Em 1836, ocorreu a decisiva batalha de Fanfa, na qual os revolucionários farroupilhas sofreram uma gran derrota para os imperiais. Na década de 70, os magrinhos de Porto Alegre pegavam o trem de Fanfa para colher cogumelo alucinógenos em Fanfa. Saiam de lá com sua DMN completamente perturbada.)

Figura 4 - Estação de Fanfa. Na Década de 1970, os magrinhos que pegavam o Trem de Fanfa no fim de semana,voltavam para Porto Alegre com sua DMN completamente desarranjada. Muitos fizeram a famosa viagem sem volta.


No sono REM, registram-se salvas de baixa frequência/teta no hipocampo humano. Além disso, a administração de LSD antes ou durante o sono promove tanto o aumento do REM quanto da intensidade dos sonhos, sugerindo a participação da atividade teta na facilitação desses estados.

Em entrevistas psiquiátricas, salvas esporádicas de atividade síncrona de alta amplitude nos lobos temporais mediais foram observadas quando pacientes evocavam memórias pessoais de forte conteúdo emocional. Essa atividade se dessincronizava quando o paciente se concentrava no ambiente externo ou realizava uma tarefa cognitiva estruturada.

A atividade límbica anormal é uma assinatura comum a diferentes estados não ordinários, como aura do lobo temporal, psicose aguda, estados alucinógenos e sono REM. Essa atividade se manifesta geralmente na faixa teta, mas também pode aparecer em salvas rápidas e de alta amplitude.

Nos animais, a atividade teta no hipocampo está associada a locomoção, orientação, sono REM e potenciação de longo prazo (LTP). Os inputs dos núcleos septais, importantes geradores de teta, são fundamentais nesse processo.

A atividade teta facilita tanto a codificação de novas experiências quanto a recuperação de memórias. Durante a cognição dirigida a metas, observa-se aumento da potência teta no escalpo, o que se distingue das salvas teta registradas no septo e no lobo temporal medial em estados não ordinários. Embora o córtex seja capaz de gerar sua própria atividade teta, registros intracranianos em humanos mostram mais evidências de oscilações de baixa amplitude e alta frequência associadas à atenção.

Nos estados não ordinários de consciência, como os induzidos por alucinógenos serotoninérgicos, observa-se uma atividade cortical de baixa amplitude, alta frequência e dessincronizada, uma assinatura típica do sono REM e de outros estados corticais “up” (Carhart-Harris & Friston, 2010).

Salvas de atividade teta límbica registradas no córtex como aumento de potência gama podem estar associadas aos sintomas positivos de transtornos neurológicos e psiquiátricos.

Em condições normais, a atividade gama cortical suprime oscilações de baixa frequência, desempenhando função análoga ao processo secundário descrito por Freud. No entanto, em estados patológicos ou durante o sonho, a atividade límbica se torna mais anárquica, exigindo maior esforço do córtex.

Registros com eletrodos subdurais demonstraram que a fase da oscilação teta modula a potência da atividade gama de alta frequência (80–150 Hz). Esse acoplamento ocorre tanto em repouso quanto em tarefas comportamentais, sendo mais forte no vale da fase teta.

Eletrodos que apresentaram maior potência teta também exibiram maior acoplamento teta–gama, sugerindo que esse mecanismo pode sustentar a conectividade de longo alcance em redes corticais. Assim, a atividade teta atua como um ritmo organizador, promovendo a coordenação entre diferentes regiões cerebrais.

As descargas teta de alta amplitude e baixa frequência em regiões límbicas e paralímbicas podem ser interpretadas como índice da energia livre no modelo de Helmholtz, ao mesmo tempo que mediam o processo primário no modelo freudiano. Essa equivalência sugere uma ponte entre a neurofisiologia moderna e os conceitos da psicanálise.

Na cognição em vigília, as oscilações límbicas de baixa frequência acoplam-se à gama cortical, permitindo que o córtex explique e contenha a atividade límbica. Nos estados não ordinários, esse mecanismo pode ser perturbado, como no caso de drogas alucinógenas que atuam em receptores pós-sinápticos moduladores. Nessas condições, a organização hierárquica e a capacidade supressora das redes intrínsecas ficam comprometidas, e as descargas límbicas podem atravessar sistemas que normalmente não atingiriam, chegando, por exemplo, ao córtex de associação visual. Assim, enquanto na vigília normal a atividade límbica é suprimida pelo controle top-down de regiões de alto nível da DMN, nos estados não ordinários esse controle é liberado, possibilitando fenômenos como alucinações. O devaneio em repouso pode ser visto como uma atividade ainda controlada, ao passo que as alucinoses em estados não ordinários refletem uma liberação da atividade límbica (Carhart-Harris & Friston, 2010).

DISCUSSÃO

As descrições freudianas do processo secundário são consistentes com a anatomia funcional das redes intrínsecas de larga escala. As redes intrínsecas se auto-organizam em hierarquias para suprimir a energia livre dos níveis subordinados. As flutuações espontâneas nos nós corticais da Default Mode Network (DMN) servem para conter a atividade endógena límbica/paralímbica, que de outra forma seria anárquica. Além disso, as redes subordinadas, anticorrelacionadas à DMN, funcionam prevendo e corrigindo erros de predição gerados por estímulos sensoriais e viscerais. Os principais pontos de contato entre as idéias freudianas e a neurociência contemporânea são sumarizados na Tabela 3.

Investimento libidinal

Inicialmente, toda a libido está concentrada no ego, correspondendo ao estado de narcisismo primário absoluto. Com o desenvolvimento, parte da libido do ego é deslocada para os objetos (ego–libido → objeto–libido). O ego permanece, ao longo da vida, como o reservatório central de onde a energia libidinal é investida em objetos e para o qual pode ser retirada. Freud descreveu a relação como antitética: quanto mais energia é investida em objetos, menos permanece no ego, e vice-versa.

A ideia freudiana de deslocar energia de um reservatório (ego) para o mundo externo se assemelha à dinâmica entre a DMN e suas redes anticorrelacionadas. Durante cognição dirigida a objetivos, a atividade é deslocada da DMN para o sistema de atenção dorsal. Esse “dar e receber” de energia corresponde ao mesmo padrão de reciprocidade descrito por Freud entre ego–libido e objeto–libido.

Para Freud, o ego é um reservatório finito de energia. A atividade recíproca entre DMN e redes subordinadas reflete a minimização hierárquica da energia livre. Essa minimização funciona por troca recíproca de mensagens entre sistemas hierárquicos, suprimindo erros de predição em diferentes níveis. O aumento de atividade em um nível suprime a atividade de erro em outro, gerando padrões recíprocos de ativação/desativação. O “reservatório” de energia livre é constantemente reabastecido por inputs inesperados do sensorium, sendo redistribuído pela hierarquia para minimizar sua expressão em cada nível.



Esquizofrenia

A atividade da DMN é diminuída quando o indivíduo se envolve em atividades cognitivas, e a intensidade da redução se correlaciona positivamente com a conectividade interna da DMN. Na esquizofrenia, existe um menor engajamento com o mundo externo. O cérebro se organiza hierarquicamente para minimizar energia livre da forma mais eficiente, e essa organização permite explicar eventos internos e externos e diferenciá-los.

A manutenção da organização hierárquica depende do uso e engajamento com o mundo externo. O retraimento pode comprometer essa estrutura, levando a confusão entre sensações internas e externas. A puberdade é um período crítico, no qual o ego precisa negociar novas demandas internas e externas para se tornar um ego adulto funcional. O desenvolvimento adequado da DMN é essencial para conter excitações internas e regular engajamento externo.

Quando a organização hierárquica se desagrega, os sistemas normalmente inibidos pela DMN (ex.: sistema de saliência) podem escapar ao controle, gerando caos cognitivo. Os delírios emergem como estratégia de compromisso para conter o aumento da energia livre. Do ponto de vista da energia livre, retraimento, pobreza psicomotora e pensamento delirante são últimos recursos adaptativos diante de um mundo percebido como imprevisível e surpreendente. Modelos de codificação preditiva ajudam a explicar falsas inferências típicas da esquizofrenia.



Depressão

Assim como na esquizofrenia, a depressão envolve retraimento do mundo externo. Nela, o foco está na perda de um amor-objeto intenso. O sujeito investe libido em um objeto amado; quando o vínculo é rompido (por decepção ou perda real), a libido não é reinvestida em outro objeto, mas recolhida para o ego. Este passa a ser tratado como o objeto perdido, e a agressividade contra o objeto volta-se contra si mesmo. As condições são que haja uma forte fixação no objeto amado e que o investimento objetal tenha baixa resistência, regredindo ao narcisismo quando frustrado.

Na depressão ocorre redução da supressão da DMN durante tarefas cognitivas, a qual se correlaciona com a intensidade dos sintomas e os sentimentos de desesperança. A hipoatividade do córtex pré-frontal dorsolateral e a hiperatividade de regiões límbicas e pré-frontais medial são outras alterações consistente.

A DMN oferece funções de contenção e integração, suprimindo descargas límbicas “anárquicas” do processo primário. Contribui para a manutenção da coerência entre estímulos internos e externos, funcionando como reservatório regulador, análogo ao ego freudiano. Além disso, sustenta o pensamento narrativo e a memória autobiográfica, englobando recordação pessoal, projeção mental do futuro (imaginação episódica) e construção narrativa do self.


Criatividade

O processo secundário não elimina a criatividade e os sentimentos, mas os canaliza para formas compatíveis com a realidade. Um sonho (processo primário) pode gerar imagens oníricas; ao acordar, o ego/DMN ajuda a transformá-las em narrativa, memória ou até inspiração criativa.

A inibição não significa supressão total, mas sim modulação: o processo secundário regula a intensidade e a forma do processo primário para que ele não se torne caótico ou patológico. Assim, garante que a energia criativa seja aproveitada simbolicamente, seja em arte, narrativa ou projetos de vida.



Adaptação psicossocial

O Ego/DMN é um filtro organizador que garante continuidade e coerência do self. O processo primário/límbico é fonte de afetos, imagens e criatividade. Quando o controle é demasiado, ocorre rigidez e bloqueio criativo; quando é escasso, há inundação do ego, com risco de psicose ou delírio.

A saúde psíquica depende de um equilíbrio: o ego/DMN deve conter sem sufocar, integrar sem dissolver. O processo secundário, descrito por Freud como função central do ego, refere-se à capacidade de organizar a atividade mental, conter a descarga afetiva imediata e dar forma simbólica às experiências.

A neurociência contemporânea sugere que essa função encontra paralelo na atuação da DMN, que mantém a coerência da experiência subjetiva. Ela está envolvida tanto no raciocínio autobiográfico quanto no pensamento narrativo, processos que ligam memórias passadas, afetos presentes e projeções futuras em uma sequência temporal significativa. Portanto, longe de significar apenas repressão, o processo secundário representa uma função integradora: ao modular os impulsos do processo primário, transforma energia bruta em história, memória e narrativa, fornecendo base tanto para a continuidade do self quanto para a expressão criativa em formas comunicáveis.

Previsibilidade e energia livre

O cérebro é uma máquina de inferência bayesiana, constantemente gerando predições sobre o mundo e ajustando-se quando há discrepância entre o previsto e o recebido. Mantém um modelo generativo interno do ambiente, e a energia livre é uma medida formal da discrepância entre esse modelo e os dados sensoriais. Minimizar energia livre significa minimizar erro de predição, isto é, atualizar o modelo para reduzir surpresa.

As áreas de baixo nível processam sinais sensoriais, enquanto as áreas de alto nível enviam predições top-down. O desajuste entre previsão e input gera um erro de predição bottom-up, que é corrigido seja pela atualização do modelo, seja por ação no ambiente.

A atividade associada a erros de predição aparece em múltiplos contextos, como no potencial evocado Mismatch Negativity (MMN). O acoplamento teta–gama tem sido interpretado como mecanismo de transmissão de erros de predição e supressão top-down.

Na esquizofrenia e na psicose, há falha em suprimir erros de predição internos, levando a alucinações e delírios. Na percepção, ilusões visuais e auditivas demonstram como o cérebro “corrige” inputs inconsistentes com expectativas, priorizando o modelo interno.


Energia livre e teoria da informação

A energia livre, no sentido de Friston (adaptado da termodinâmica estatística), é uma função de limite superior para a surpresa (–log probabilidade dos dados). Como o cérebro não pode calcular surpresa diretamente (não conhece a distribuição real do mundo), ele minimiza a energia livre como substituto. Em termos informacionais, a energia livre corresponde à divergência de Kullback–Leibler (KL) entre a distribuição inferida pelo cérebro e a distribuição real dos estímulos. Minimizar energia livre significa reduzir a incerteza, aproximando a distribuição interna da externa.

O cérebro age para maximizar a evidência de seu próprio modelo interno, tornando suas previsões mais próximas da realidade, economizando recursos e aumentando estabilidade. Nesse sentido, a energia livre é o elo formal entre modelos internos e inputs, representando quanto erro de predição resta no sistema. Informacionalmente, é uma métrica de divergência entre crença interna e realidade, funcionando como medida de complexidade e incerteza no processamento cerebral.

O cérebro é uma máquina de inferência bayesiana que gera modelos internos para prever estados do mundo. A comparação entre esse modelo e os inputs sensoriais gera erros de predição quando há discrepância, e essa discrepância é medida como energia livre, que funciona como limite superior da surpresa.

A redução da incerteza ocorre pela minimização da energia livre, seja atualizando o modelo interno (aprendizagem perceptual), seja agindo sobre o ambiente para alinhar o input com a expectativa (ação preditiva).

Nos estados normais de consciência, a minimização da energia livre garante percepção estável, memória autobiográfica coerente e pensamento narrativo organizado. Já nos estados não-ordinários, ocorre falha em suprimir erros de predição, o que leva a delírios, alucinações e retraimento (como em esquizofrenia e depressão).

A energia livre, portanto, é a métrica formal do erro de predição, interpretada informacionalmente como divergência entre crenças internas e realidade. Sua minimização é o fundamento da organização cognitiva.



CODA

Depois de passar dois dias estudando neuropsicanálise, o véio barrigudo que traduziu o texto ficou devaneando que nem os magrinhos do Trem de Fanfa (Figura 5).

Figura 5 - Flagrante do tradutor devaneando com a neuropsicanálise. A sua DMN está totalmente desarranjada.

REFERÊNCIAS SELECIONADAS

Carhart-Harris, R. L., & Friston, K. J. (2010). The default mode, ego-functions and free-energy: a neurobiological account of Freudian ideas. Brain, 133(4), 1265-1283. 

Freud, S. (1924/2001). The economic problem of masochism. In J. Strachey (Ed. & Trans.), The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (Vol. 19, pp. 159–170). London: Vintage.

Freud, S. (1940/1976). An outline of psychoanalysis. In J. Strachey (Ed. & Trans.), The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (Vol. 23, pp. 141–207). London: Vintage.

Friston K. The free-energy principle: a rough guide to the brain? Trends Cogn Sci 2009; 13: 293–301.

Helmholtz H. von. Concerning the perceptions in general. In: Treatise on physiological optics. vol. III, 3rd edn. (translated by J. P. C. Southall 1925 Opt. Soc. Am. Section 26, reprinted New York: Dover, 1962).

Knill DC, Pouget A. The Bayesian brain: the role of uncertainty in neural coding and computation. Trends Neurosci 2004; 27: 712–9.

Rao RP, Ballard DH. Predictive coding in the visual cortex: a functional interpretation of some extraclassical receptive-field effects. Nat Neurosci 1999; 2: 79–87

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