Aprender por estratégia ou por decoreba faz diferença?

Por que algumas pessoas parecem resolver contas difíceis com facilidade, enquanto outras travam mesmo em cálculos simples? Seria apenas uma questão de treino — ou a forma como se aprende também faz diferença? Um estudo publicado na revista NeuroImage (Delazer et al., 2005) oferece uma resposta clara — e baseada em neuroimagem funcional.

No experimento, adultos foram convidados a aprender duas novas operações aritméticas complexas. Uma delas foi ensinada por meio da repetição: os participantes decoraram pares de números e seus respectivos resultados, sem executar nenhum tipo de raciocínio. A outra operação foi aprendida com base em uma estratégia fornecida, isto é, uma sequência lógica de passos para chegar ao resultado.

Após uma semana de treinamento, os participantes foram testados tanto em termos de desempenho quanto em exames de fMRI (ressonância magnética funcional), que mapeiam a atividade cerebral durante a realização de tarefas cognitivas.Os resultados comportamentais revelaram diferenças importantes: embora ambos os métodos tenham levado a um bom desempenho nos itens treinados, apenas os participantes que usaram estratégia conseguiram aplicar o conhecimento a novos problemas. Aqueles que aprenderam por decoreba apresentaram acurácia muito baixa diante de itens diferentes dos que haviam memorizado, indicando que não houve compreensão transferível para novas operações.

A análise das imagens cerebrais revelou que o modo de aprendizagem influenciou diretamente as redes neurais ativadas:

  • No grupo que aprendeu por repetição, houve maior ativação no giro angular esquerdo, uma área relacionada à memória verbal automatizada, frequentemente associada à recuperação de fatos memorizados — como as tabuadas.

  • Já no grupo que aprendeu por estratégia, observou-se forte ativação do precuneus, do hipocampo e de áreas pré-frontais, regiões envolvidas com visualização mental, memória episódica, raciocínio e controle atencional.

Além disso, quando os participantes precisavam resolver problemas novos, o cérebro ativava mais intensamente o sulco intraparietal, responsável pela manipulação de quantidades e cálculo passo a passo (Dehaene et al., 2005). Isso sugere que, sem treino prévio, o cérebro recorre a circuitos mais exigentes e menos automatizados.

Essas descobertas reforçam uma ideia cada vez mais valorizada nas práticas educacionais: a compreensão conceitual favorece o desempenho duradouro, adaptável e transferível. Ensinar apenas por repetição pode funcionar a curto prazo, mas limita o potencial de generalização e o desenvolvimento de estratégias próprias. Como afirmam Rittle-Johnson e Alibali (1999), métodos que integram compreensão e prática favorecem tanto a aprendizagem quanto a automatização ao longo do tempo.

Referências

  • Delazer, M., Ischebeck, A., Domahs, F., Zamarian, L., Koppelstaetter, F., Siedentopf, C. M., ... & Felber, S. (2005). Learning by strategies and learning by drill—evidence from an fMRI study. Neuroimage, 25(3), 838-849.

  • Dehaene, S., Piazza, M., Pinel, P., & Cohen, L. (2005). Three parietal circuits for number processing. In The handbook of mathematical cognition (pp. 433-453). Psychology Press.

  • Rittle-Johnson, B., & Alibali, M. W. (1999). Conceptual and procedural knowledge of mathematics: Does one lead to the other?. Journal of educational psychology, 91(1), 175.

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