Por que repetir sempre a mesma história não ajuda crianças autistas a avançar na compreensão

Crianças com Transtorno do Espectro Autista costumam apresentar dificuldades importantes na compreensão de linguagem oral e escrita. Mesmo quando já conseguem decodificar palavras com precisão, elas podem não conseguir construir sentido a partir do que leem ou do que ouvem. A compreensão de histórias exige que a criança organize informações, identifique personagens, relacione eventos, reconheça causas e consequências e até mesmo faça inferências sobre sentimentos e intenções que não aparecem de forma explícita no texto. Por isso, a literatura científica vem recomendando cada vez mais intervenções que trabalhem de forma específica a compreensão oral e a compreensão leitora de crianças autistas.

Na prática cotidiana, muitas vezes os professores e terapeutas recorrem a uma estratégia comum: repetir a mesma história várias vezes até que a criança consiga recontar a narrativa de forma mais completa. Essa estratégia parece funcionar em um primeiro momento, porque a criança passa a relembrar detalhes do enredo e a reproduzir frases de maneira mais organizada. No entanto, surge a pergunta fundamental: será que decorar uma narrativa específica garante que a criança desenvolverá habilidades de compreensão que possam ser usadas em textos novos?

O estudo conduzido por Spencer e Kirby em 2025 investigou essa questão. As pesquisadoras avaliaram quatro crianças autistas, com idades entre sete e nove anos, em um desenho experimental de linha de base múltipla. Elas utilizaram o programa Story Champs, que foi desenvolvido para ensinar a estrutura básica das histórias por meio de múltiplos exemplares. O programa contém vinte e quatro histórias planejadas para incluir elementos de gramática narrativa, como personagem, cenário, problema, sentimento, plano, ação, consequência, final e sentimento final. Cada história possui um conjunto de ilustrações que representam os episódios principais e um conjunto de ícones visuais que simbolizam cada elemento da gramática da narrativa.

A intervenção foi realizada individualmente. No início de cada sessão, o terapeuta lia a história em voz alta, apresentava as ilustrações correspondentes e colocava sobre a mesa os ícones visuais. Esses ícones representavam, por exemplo, um círculo para o personagem, um quadrado para o cenário ou um símbolo específico para o problema. O terapeuta nomeava cada parte da história, associava o ícone correspondente e pedia para a criança repetir os nomes e observar a relação entre o desenho e a narrativa. Em seguida, a criança era convidada a recontar a história com a ajuda das ilustrações e dos ícones. Depois, as ilustrações eram retiradas e a criança recontava a história utilizando apenas os ícones. No passo seguinte, os ícones também eram retirados e a criança era estimulada a recontar a narrativa sem nenhum apoio visual.

Os resultados mostraram que esse processo promoveu ganhos significativos. Quando as crianças treinaram somente uma narrativa, elas conseguiam recontar aquela história, mas não transferiam o aprendizado para outras narrativas. Em contrapartida, quando tiveram contato com muitas histórias diferentes, sempre apoiadas pelos mesmos ícones de gramática narrativa, elas passaram a compreender melhor novas histórias nunca apresentadas antes. O estudo demonstrou que os ícones não forneciam informações específicas de um enredo, mas funcionavam como guias para organizar qualquer narrativa. Essa estratégia ajudou as crianças a identificar personagens, problemas, ações e desfechos em histórias inéditas, tanto na escuta quanto na leitura.

As pesquisadoras destacaram ainda que repetir a mesma narrativa várias vezes pode ser até prejudicial, porque incentiva apenas a memorização do conteúdo. A criança aprende a repetir frases decoradas, mas não aprende a usar estratégias cognitivas que permitem construir sentido em novos textos. Em contraste, o uso de múltiplas histórias com apoio visual promoveu generalização, que é considerada a verdadeira medida de sucesso em intervenções de linguagem. As crianças que participaram do estudo conseguiram demonstrar compreensão de histórias inéditas, inclusive em contextos de leitura, mesmo tendo treinado principalmente em situações de escuta.

Do ponto de vista prático, isso significa que professores e terapeutas não precisam insistir em treinar apenas uma história até que a criança consiga repeti-la de forma perfeita. O mais importante é oferecer variedade de narrativas, associadas a estratégias visuais e estruturais, para que a criança aprenda a organizar informações de maneira independente. Essa abordagem fortalece habilidades reais de compreensão, que podem ser usadas em diferentes contextos escolares e sociais.

E aqui fica a reflexão final: quando você trabalha compreensão leitora ou oral com crianças autistas, você está treinando apenas a memorização de um enredo específico ou está ensinando a construir sentido em qualquer história nova que surgir?

Referência:

Spencer, T. D., & Kirby, M. S. (2025). Effect of Narrative Intervention with Strategy Instruction on the Listening and Reading Comprehension of Children with Autism. Behavioral Sciences, 15(8), 1020.

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