Figura 2 - Processos de agência: Implícita (Feeling of Agency - FoA) e Explícita (Jugement of Agency - JoA) ( (Vallori et al., 2022).
O control-based response selection (CBRS) é um modelo que procura explicar as conexões entre agência e recompensa. Produzir efeitos percebidos como autoinduzidos facilita a seleção e execução das ações, de modo que o planejamento e o controle dos movimentos são modulados por características cognitivas e sensório-motoras. Respostas associadas a maior probabilidade de produzir um efeito são escolhidas mais rapidamente e com maior frequência. Nesse sentido, o senso de controle não apenas motiva, mas também facilita a ação. No nível implícito da agência, isso se manifesta no impacto sobre parâmetros motores, como a diminuição do tempo de reação, com forte dependência da contingência temporal entre ação e efeito, já que atrasos prejudicam a experiência de agência. Importa destacar que essa atuação vai além dos julgamentos explícitos, influenciando diretamente a dinâmica motora.
Na vida cotidiana, a seleção fluente de ações aumenta a probabilidade de realização das intenções e da obtenção dos resultados esperados. Estímulos que permitem seleção rápida de respostas ampliam a percepção de controle, e ações habituais, por estarem bem consolidadas, são frequentemente acompanhadas de um forte senso de agência. Contudo, há limites: o sistema motor pode se mostrar insensível à valência do efeito (positivo ou neutro), sem alteração dos parâmetros motores em função disso.
Do ponto de vista neurobiológico, diversas áreas cerebrais estão associadas à agência. Entre elas, destacam-se o giro angular, a junção têmporo-parietal, as áreas motora suplementar e pré-suplementar, a ínsula, o córtex frontal medial dorsal e o precúneo. Pesquisas indicam diferenças entre agência implícita e explícita também no nível neural: experiências de agência explícita positiva (“fui eu”) estão associadas à ativação da ínsula anterior, enquanto ações dirigidas externamente envolvem o córtex parietal inferior. Já julgamentos explícitos de agência negativa (“não fui eu”) ativam de forma aumentada o giro angular do lobo parietal inferior.
Essa distinção se observa também entre agência negativa e positiva. A agência negativa subjetiva está relacionada ao giro temporal superior direito, ao lobo parietal inferior esquerdo e ao giro temporal médio esquerdo. Já a agência positiva não apresenta bases neurais específicas claramente identificadas até o momento. Além disso, há diferença entre agência externa — envolvendo estruturas como o giro temporal superior (STG), o lobo parietal inferior (IPL), o precúneo, a área motora pré-suplementar (pre-SMA) e o córtex pré-frontal dorsomedial (dMPFC) — e autoagência, que recruta a ínsula bilateral, o córtex somatossensorial primário bilateral e o córtex pré-motor esquerdo.
No caso da agência implícita, observa-se ativação da área motora suplementar (SMA) e da pré-SMA durante a preparação, execução e monitoramento perceptual das ações voluntárias. Suas assinaturas neurais incluem o readiness potential (RP) e os componentes N1 e P2 de potenciais evocados relacionados ao processamento sensorial da ação. O RP caracteriza-se por um acúmulo lento de potenciais elétricos antes do movimento voluntário. Ele possui duas fases: uma precoce, cerca de 1 segundo antes da ação, associada à intenção de mover e gerada no pré-SMA/SMA; e uma tardia, iniciada aproximadamente 500 ms antes do movimento, relacionada à preparação motora específica e gerada no córtex pré-motor e no M1. O RP é modulável pela expectativa de estímulo, sendo que o feedback sensorial esperado após a ação pode alterar sua amplitude e atrasar sua latência. O pré-SMA mostra forte correlação entre o RP e o outcome binding, ou seja, o vínculo entre ação e resultado.
O feedback sensorial da ação é processado por potenciais evocados auditivos e visuais (componentes N1 e P2), cuja latência e amplitude variam conforme o estímulo é autogerado ou externo. Outras regiões participam da agência implícita: o cerebelo, que detecta discrepâncias entre consequências previstas e reais; o córtex parietal posterior (PPC), que monitora a correspondência entre intenções e efeitos visuais; a extrastriate body area (EBA), ativada durante movimentos autoinduzidos; e o sulco temporal superior posterior (pSTS), igualmente implicado nesse processo.
Por fim, as ações também são moduladas pela valência de suas consequências. Aquelas associadas a efeitos positivos, como recompensas de valor motivacional, são preferidas. Entretanto, os substratos neurais responsáveis pelo processamento da recompensa são distintos dos relacionados ao senso de agência, indicando que embora ambos se inter-relacionem na experiência subjetiva, suas bases cerebrais são parcialmente independentes.
RECOMPENSA
Os mecanismos de recompensa revivsador por Vallori e cols. (2022) são apresentados na Figura 3. O sistema de recompensa é sustentado por uma rede de estruturas corticais e subcorticais que atribuem valor, antecipam consequências e modulam a motivação para a ação. O córtex pré-frontal ventromedial (vmPFC) está diretamente envolvido na atribuição de valor esperado aos resultados de diferentes ações, funcionando como um núcleo de avaliação que orienta escolhas. Já o córtex orbitofrontal medial (mOFC) é responsável pela codificação da magnitude e da valência de recompensas positivas e negativas, além de participar da tomada de decisões baseada em gradientes de custo–benefício e na formação de associações entre estímulos incondicionados e reforçadores primários.