LITERACIA: Entrevista com o ChatGPT
Vitor Geraldi Haase
Instituto Letra & Número
2024
ADVERTÊNCIA
Essa se origina de uma entrevista que eu fiz com o ChatGPT. Nessa entrevista, eu fiz um tantão de perguntas para o ChatGPT sobre tudo o que eu achava que seria relevante pais e professores conhecerem sobre literacia. Fiz dezenas de perguntas e depois sistematizei o texto. Foi bem trabalhoso, mas acho que o resultado ficou instrutivo, didático.
SUMÁRIO
I - A aquisição da literacia começa em casa.
II - A aquisição da literacia depende de duas habilidades básicas.
III - A alfabetização requer uma série de habilidades.
IV - A alfabetização depende de habilidades linguísticas específicas.
V - A consciência fonêmica é um correlato importante da alfabetização.
VI - A aprendizagem da leitura em uma ortografia alfabética é um processo gradual e sistemático.
VII - A consciência fonêmica pode ser estimulada
VIII - A compreensão leitora é uma habilidade complexa.
IX - A fluência na leitura de palavras isoladas é importante para a compreensão.
X - A aquisição da fluência de leitura é um processo árduo e demorado.
Cartilha recomendada
Leituras sugeridas
I - A AQUISIÇÃO DA LITERACIA COMEÇA EM CASA
A literacia familiar se refere ao ambiente de leitura e aprendizado que é cultivado em casa pelos pais e outros membros da família. Envolve a promoção de atividades relacionadas à leitura, escrita e comunicação desde os primeiros anos de vida da criança. Os pais podem promover a literacia familiar antes de a criança entrar na escola através de diversas atividades:
Leitura em família: Ler em voz alta para a criança desde tenra idade é uma das maneiras mais eficazes de promover a literacia familiar. Os pais podem fazer da leitura parte da rotina diária, lendo histórias antes de dormir ou durante outros momentos tranquilos do dia. É importante que a leitura seja dialogada. Ou seja, à medida que os pais vão lendo, eles precisam estimular a criança a fazer inferências sobre o texto a partir de uma série de perguntas;
Acesso a livros: Ter uma variedade de livros disponíveis em casa é essencial para promover a literacia. Os pais podem montar uma biblioteca pessoal para a criança com livros apropriados para sua idade e interesses;
Modelagem de comportamento de leitura: Os pais podem servir como modelos de comportamento de leitura, mostrando interesse pela leitura e mostrando como ela é valiosa e divertida. Ler regularmente por prazer na frente da criança pode incentivar hábitos de leitura positivos;
Conversas significativas: Envolver a criança em conversas significativas desde cedo pode ajudar a desenvolver suas habilidades de linguagem e comunicação. Os pais podem fazer perguntas abertas, ouvir ativamente as respostas da criança e incentivar a expressão de ideias e opiniões. As conversas significativas cumprem os mesmos objetivos da leitura dialogada;
Exploração de linguagem: Brincar com sons da fala, palavras e histórias pode ajudar a desenvolver a consciência fonêmica e o vocabulário da criança. Cantar músicas, recitar rimas e brincar com jogos de palavras são ótimas maneiras de explorar a linguagem de maneira divertida;
Escrita criativa: Encorajar a criança a praticar a escrita criativa, seja desenhando, escrevendo histórias ou até mesmo criando listas de compras ou cartas para familiares. Isso ajuda a criança a desenvolver suas habilidades de escrita e expressão;
Visitas a bibliotecas e livrarias: Levar a criança a bibliotecas locais e livrarias pode ser uma ótima maneira de estimular seu interesse pela leitura e oferecer acesso a uma variedade de livros. A criança precisa ser estimulada, conforme as possibilidades financeiras da família, a construir sua própria biblioteca;
Incorporação da leitura em atividades cotidianas: Os pais podem incorporar a leitura em atividades cotidianas, como receitas de cozinha, sinais de trânsito, embalagens de alimentos e placas de rua. Isso ajuda a criança a entender que a leitura é uma habilidade útil e relevante em muitos aspectos da vida. Se a leitura não exerce um papel funcional na vida cotidiana, fica mais difícil para a criança apreender sua importância.
Infelizmente nem todas as famílias promovem na mesma medida essas atividades de literacia. Muitas crenças chegam à escola sem essa experiência prévia. O desafio das professoras é compensar essa carência de estimulação prévia.
II - A AQUISIÇÃO DA LITERACIA DEPENDE DE DUAS HABILIDADES BÁSICAS
A teoria simples da leitura propõe que a aquisição da literacia depende de duas habilidades básicas: a habilidade de decodificar palavras e a habilidade de compreender o significado das palavras lidas. Os principais processos envolvidos na aprendizagem da leitura são:
Decodificação ou processamento fonológico: A habilidade de decodificar palavras envolve a capacidade de associar letras ou grupos de letras (grafemas) aos sons correspondentes (fonemas). Essa habilidade é crucial para reconhecer e pronunciar palavras escritas. O processamento fonológico é fundamental para a decodificação, pois envolve a manipulação e a compreensão dos sons da fala;
Compreensão ou processamento semântico: A habilidade de compreender o significado das palavras lidas é igualmente importante para a leitura eficaz, envolvendo a capacidade de atribuir significado às palavras individuais e às frases em contexto. A compreensão depende do conhecimento do vocabulário e da compreensão de conceitos, bem como compreensão da estrutura e organização do texto;
Interação entre decodificação e compreensão: A habilidade de decodificação e a habilidade de compreensão são interdependentes. Um bom leitor deve ser capaz de decodificar palavras com precisão para entender o texto. Por outro lado, a compreensão do significado das palavras lidas pode ajudar na decodificação, uma vez que o contexto pode fornecer pistas sobre o som e o significado das palavras desconhecidas.
Para se tornar uma leitora competente, a criança precisa desenvolver tanto as habilidades de decodificação quanto as habilidades de compreensão.
III - A ALFABETIZAÇÃO REQUER UMA SÉRIE DE HABILIDADES
A alfabetização é um processo complexo que requer uma série de habilidades por parte da criança, colocando sua capacidade de processamento de informação no limite. Algumas das habilidades sociais, motivacionais, cognitivas, linguísticas e perceptomotoras que ajudam a preparar uma criança para a alfabetização são:
Habilidades sociais: A alfabetização da capacidade de cooperação (trabalhar em grupo, compartilhar ideias e respeitar as opiniões dos outros); empatia (entender e compartilhar os sentimentos dos outros, o que pode facilitar a comunicação e a interação social) e resolução de conflitos (resolver disputas de forma construtiva e negociar com os outros);
Habilidades motivacionais: A alfabetização depende da curiosidade (desejo de explorar e descobrir novas informações), postergação da recompensa (capacidade de abrir mão de uma gratificação menor e imediata em favor de uma gratificação maior porém mais abstrata e projetada no futuro), autodeterminação (capacidade de definir metas pessoais e estar motivado para alcançá-las), resiliência (capacidade de enfrentar desafios e superar obstáculos durante o processo de aprendizagem);
Habilidades cognitivas: A alfabetização depende da capacidade de memória de trabalho (reter e manipular informações temporariamente na mente, o que é importante para tarefas como seguir instruções e resolver problemas), pensamento crítico (analisar, avaliar e sintetizar informações para chegar a conclusões fundamentadas), metacognição (consciência e controle dos próprios processos de pensamento, o que ajuda na autorregulação do aprendizado). A alfabetização depende menos da inteligência do que da compreensão leitora. Mais de 90% das crianças com deficiência intelectual leve e moderada são alfabetizáveis;
Habilidades linguísticas: A alfabetização depende da capacidade de consciência fonêmica (entender e manipular os sons da fala, incluindo a capacidade de segmentar palavras em seus sons constituintes), vocabulário (conhecimento das palavras e seus significados, o que é essencial para a compreensão da leitura e da escrita), fluência verbal (expressar ideias de forma clara e coesa, tanto verbalmente quanto por escrito);
Habilidades perceptomotoras: A alfabetização depende da coordenação motora grossa (habilidade de manter a postura), coordenação motora fina (habilidade de controlar os movimentos precisos dos músculos das mãos e dos dedos, necessários para segurar lápis e manipular objetos ao escrever e desenhar), percepção visual (capacidade de interpretar e compreender informações visuais, o que é crucial para reconhecer e identificar letras, palavras e padrões gráficos).
Estas habilidades interagem e se complementam no processo de alfabetização. Estimular o desenvolvimento equilibrado dessas habilidades pode ajudar a criança a se tornar um leitor e escritor competente.
IV - A ALFABETIZAÇÃO DEPENDE DE HABILIDADES LINGUÍSTICAS ESPECÍFICAS
As habilidades linguísticas que influenciam o sucesso na alfabetização em uma ortografia alfabética podem ser sistematizadas da seguinte maneira:
Consciência fonêmica: A capacidade de entender e manipular os sons individuais da fala é um forte preditor da alfabetização. Crianças com boa consciência fonêmica tendem a ter um desempenho melhor na aprendizagem das relações entre letras e sons;
Conhecimento do alfabeto e dos sons das letras: Familiaridade com o alfabeto e habilidade para reconhecer e nomear as letras (grafemas) e os sons (fonemas) correspondentes são importantes para a alfabetização inicial;
Vocabulário: Um vocabulário mais amplo está associado a melhores habilidades de leitura, pois permite que as crianças entendam mais palavras quando estão lendo;
Fluência em decodificação: A capacidade de decodificar palavras com precisão e fluência é essencial para a alfabetização. Quanto mais rapidamente uma criança pode decodificar palavras, mais facilmente ela pode ler textos;
Conhecimento do mundo: A exposição a uma variedade de experiências e conhecimentos do mundo ao redor da criança pode facilitar a compreensão do texto durante a leitura.
V - A CONSCIÊNCIA FONÊMICA É UM CORRELATO IMPORTANTE DA ALFABETIZAÇÃO
A consciência fonêmica é a habilidade de entender e manipular os sons individuais (fonemas) que compõem as palavras faladas. Envolve a capacidade de identificar, isolar e manipular os sons da fala, como segmentar uma palavra em seus sons constituintes, trocar sons para criar novas palavras (por exemplo, substituir o som /p/ em "pato" pelo som /m/ para formar "mato") e identificar sons iniciais, médios ou finais em palavras. Existem várias maneiras de avaliar a consciência fonêmica, incluindo:
Segmentação de fonemas: Pedir à criança para separar uma palavra em seus sons individuais. Por exemplo, para a palavra "sapo", a criança teria que dividir em "/s/-/a/-/p/-/o/";
Manipulação de fonemas: Pedir à criança para adicionar, remover ou trocar sons em palavras para criar novas palavras. Por exemplo, pedir para a criança transformar "pato" em "gato";
Identificação de fonemas iniciais, médios e finais: Pedir à criança para identificar o som que aparece no início, no meio ou no final de uma palavra. Por exemplo, perguntar qual som está no início de "casa".
A consciência fonêmica é crucial para a alfabetização em uma ortografia alfabética por várias razões:
Princípio alfabético: O princípio alfabético se baseia no conceito de que as letras representam os sons das palavras. Uma ortografia alfabética, como o português, se baseia nos sons da linguagem, principalmente nas fonemas, para criar os caracteres gráficos usados na escrita. A partir de um repertório finito de letras e grafemas (conjuntos de letras) é possível representar todos os fonemas da linguagem, codificando e decodificando a estrutura sonora de todas as palavras conhecidas e desconhecidas;
Decodificação de palavras: Compreender os sons individuais em palavras ajuda as crianças a decodificar (ler) palavras, especialmente quando encontram palavras desconhecidas;
Codificação de palavras: Ao escrever, as crianças precisam representar os sons das palavras com letras. A consciência fonêmica ajuda a criança a segmentar palavras em seus sons componentes e a escolher as letras correspondentes;
Compreensão da estrutura da língua: Desenvolver a consciência fonêmica também ajuda as crianças a entender a estrutura da língua e como as palavras são formadas. A consciência fonêmica e o domínio do princípio alfabético ajudam a criança a compreender que a língua é organizada de forma componencial. Ou seja, a língua é organizada de forma hierárquica: a partir de um conjunto finito de unidades básicas (letras, sílabas, morfemas etc.) é possível montar um repertório infinito de enunciados.
VI - A APRENDIZAGEM DA LEITURA EM UMA ORTOGRAFIA ALFABÉTICA É UM PROCESSO GRADUAL E SISTEMÁTICO
As crianças aprendem a ler em uma ortografia alfabética através de um processo gradual e sistemático que envolve a compreensão dos princípios básicos da relação entre letras e sons. O processo pode ser tedioso, requerendo uma boa dose de esforço e trabalho continuado por diversos anos. A abordagem fônica é mais eficaz à alfabetização porque faz uso estratégico do princípio alfabético constituinte da ortografia portuguesa. O processo de aquisição da literacia pode ser assim sistematizado:
Consciência Fonêmica: Antes de aprender a ler, as crianças precisam desenvolver a consciência fonêmica, que é a capacidade de entender e manipular os sons da fala. Isso inclui habilidades como segmentação de palavras em sons individuais, identificação de sons iniciais, médios e finais em palavras, e manipulação de sons para formar novas palavras;
Conexão letra-som: As crianças aprendem que as letras do alfabeto representam sons da fala. Eles aprendem a associar cada letra ou combinação de letras (grafemas) com seus sons correspondentes (fonemas). Isso é conhecido como princípio alfabético;
Decodificação: Decodificação é o processo de mapeamento de letras para sons para ler palavras. As crianças aprendem a usar suas habilidades de consciência fonêmica e conhecimento das relações letra-som para decodificar palavras. Eles começam com palavras simples e progressivamente aprendem padrões mais complexos de letras e sons;
Reconhecimento de palavras: À medida que as crianças ganham mais experiência com a leitura, elas começam a reconhecer palavras de forma rápida e automática. Isso é conhecido como leitura de vista, leitura de palavras inteiras ou leitura lexical. O reconhecimento de palavras é importante para a fluência na leitura;
Compreensão da leitura: Além de decodificar palavras, as crianças também precisam entender o que estão lendo. Isso envolve compreender o significado das palavras individuais, entender a estrutura das frases e entender o significado geral do texto;
Prática e experiência: A prática é fundamental para o desenvolvimento da leitura. As crianças precisam de muitas oportunidades para ler textos variados e significativos, tanto em sala de aula quanto em casa. A exposição a uma ampla variedade de textos ajuda a expandir o vocabulário e a compreensão da leitura;
Instrução sistemática: Em ambientes de aprendizagem formal, é importante fornecer instrução sistemática em fonética, ortografia e compreensão da leitura. Isso pode incluir atividades como aulas de fonética, prática de decodificação, atividades de compreensão de leitura e discussões sobre o significado dos textos. Algumas crianças se alfabetizam espontaneamente. A maioria das crianças necessita de instrução explícita. A instrução explícita é especialmente importante para as crianças que apresentam dificuldades de alfabetização, quer seja por algum transtorno do neurodesenvolvimento ou por um história de pouca estimulação e experiência prévia com literacia familiar.
Ao longo desse processo, é essencial que os educadores forneçam apoio e instrução adaptados às necessidades individuais das crianças, garantindo que elas recebam a orientação e o suporte necessários para desenvolver habilidades sólidas de leitura.
VII - A CONSCIÊNCIA FONÊMICA PODE SER ESTIMULADA
Quando uma criança apresenta dificuldades com a alfabetização, estimular a consciência fonêmica pode ser uma estratégia eficaz para ajudá-la a desenvolver as habilidades necessárias para ler e escrever com sucesso. Algumas maneiras de estimular a consciência fonêmica em crianças com dificuldades de alfabetização são:
Atividades de segmentação auditiva: Peça à criança para ouvir uma palavra e dividir em seus sons individuais. Por exemplo, peça para segmentar a palavra "sapo" em "/s/-/a/-/p/-/o/";
Jogos de bater palmas e contar: Faça jogos onde a criança bate palmas ou conta os sons em palavras. Por exemplo, eles podem bater palmas duas vezes para "casa" (ca-sa);
Rimas e aliterações: Explore rimas e aliterações em palavras. Por exemplo, peça à criança para encontrar palavras que rimem com "gato" ou que comecem com o mesmo som que "macaco";
Manipulação de fonemas: Peça à criança para trocar, adicionar ou remover sons em palavras para criar novas palavras. Por exemplo, transformar "pato" em "gato" mudando o som inicial;
Jogos de correspondência letra-som: Use jogos ou atividades onde a criança associa letras a sons. Isso pode envolver cartões com letras e imagens correspondentes ou jogos de tabuleiro com perguntas sobre letras e sons.
Canções e rimas: Use canções e rimas que enfatizem sons e fonemas. Músicas como “Aquarela”, “Abecedário da Xuxa”, "A Dona Aranha" ou "O Sapo Não Lava o Pé" podem ajudar a criança a ouvir e identificar sons de palavras. O site “Canta para Mim” do MEC disponibiliza uma série de canções infantis interpretadas por Toquinho;
Leitura dirigida: Durante a leitura em voz alta, aponte para as palavras e destaque os sons que elas fazem. Isso ajuda a criança a fazer conexões entre letras e sons. O “Dedinho mágico” é uma estratégia extremamente eficiente, a qual consistem em apontar com o dedo para as letras, sílabas e palavras;
Atividades manipulativas: Use materiais manipulativos, como blocos de letras ou ímãs de geladeira, para construir palavras e explorar os sons que elas fazem.
É importante adaptar as atividades de acordo com as necessidades individuais da criança e fornecer apoio adicional sempre que necessário. Além disso, o envolvimento dos pais e educadores é essencial para criar um ambiente de aprendizagem que promova o desenvolvimento da consciência fonêmica e outras habilidades relevantes para a alfabetização.
VIII - A COMPREENSÃO LEITORA É UMA HABILIDADE COMPLEXA
A compreensão leitora é uma habilidade bem mais complexa do que a decodificação de palavras isoladas. A maioria das crianças adquire fluência em leitura de palavras isoladas após cerca de três a quatro anos de árduo trabalho. A interpretação de textos é uma tarefa para a vida toda. As habilidades cognitivas gerais (inteligência) são mais importantes para a compreensão leitora do que para a alfabetização. As habilidades preditoras da compreensão leitora podem ser assim sistematizadas:
Atenção e memória de trabalho: Para compreender um texto a criança precisa manter a atenção concentrada no mesmo, armazenando temporariamente a informação na memória de trabalho. Se a informação não for retida na memória de trabalho, os diferentes componentes do texto não poderão ser integrados;
Vocabulário: Um vocabulário amplo está fortemente associado à compreensão leitora. Quanto mais palavras uma criança conhece, mais facilmente ela pode entender o que lê. O vocabulário reflete o conhecimento de mundo da criança. Se o número de palavras desconhecidas se restringir a apenas uma pequena fração do texto, a leitura pode ser usada para expandir o vocabulário. Se o número de palavras desconhecidas for muito grande, o texto se torna incompreensível;
Fluência na leitura: A fluência na leitura, incluindo velocidade e precisão na decodificação de palavras, está relacionada à compreensão do texto. Quando uma criança não precisa se esforçar para decodificar as palavras, ela pode se concentrar mais na compreensão do significado do texto;
Conhecimento de estratégias de compreensão: As habilidades de compreensão leitora são influenciadas pela capacidade da criança de usar estratégias eficazes para compreender o texto, como fazer inferências, identificar ideias principais e fazer conexões entre informações no texto. As estratégias de compreensão são muito influenciadas pela inteligência verbal;
Gramática narrativa: As narrativas constituem o genêro textual básico, dos quais todos os demais derivam. Uma narrativa pode ser analisada em uma série de categorias (personagem, situação inicial, evento inicial, reação da pesonagem, plano, ação, situação final). As diferentes categorias da gramática narrativa se organizam de forma diversificada dependendo da complexidade do texto, podendo ser omitidas ou replicadas. Em textos mais complexos, as linhas narrativas podem ser organizadas de forma paralela ou hierárquica. A capacidade de identificar e de compor as categorias da gramática narrativa constituem um importante preditor da compreensão leitora
Metacognição e monitoração: A interpretação de textos exige uma atitude metacognitiva. A criança precisa monitorar constantemente a compreensão, perguntando-se se está conseguindo acompanhar o texto, se precisa alguma informação adicional, se precisa reler algum trecho etc.;
Experiência de leitura: Quanto mais uma criança lê, mais habilidades de compreensão ela desenvolve. A prática regular da leitura é um dos melhores preditores de habilidades de compreensão leitora.
Os diversos fatores implicados na compreensão frequentemente se entrelaçam e se reforçam mutuamente no processo de desenvolvimento da leitura.
IX - A FLUÊNCIA NA LEITURA DE PALAVRAS ISOLADAS É IMPORTANTE PARA A COMPREENSÃO
Apesar de ser considerada uma atividade maçante, que requer muito esforço e que não é intuitivamente significativa para a criança, a fluência na leitura de palavras isoladas é um pré-requisito fundamental para o desenvolvimento da compreensão leitora por várias razões:
Automatização: Quando uma criança se torna fluente na leitura de palavras isoladas, ela é capaz de reconhecer e decodificar palavras de forma rápida e automática. Isso libera recursos cognitivos escassos de processamento na memória de trabalho para se concentrar na compreensão do significado do texto, em vez de se concentrar na decodificação das palavras;
Velocidade de Processamento: A fluência na leitura de palavras isoladas está associada a uma maior velocidade de processamento durante a leitura. Quanto mais rapidamente uma criança consegue ler palavras, mais rapidamente ela pode processar o texto como um todo e, assim, manter o fluxo da narrativa;
Entonação e Expressão: A fluência na leitura de palavras isoladas geralmente se traduz em uma leitura mais expressiva, com melhor entonação e ritmo. Isso contribui para uma experiência de leitura mais envolvente e ajuda na compreensão do significado do texto;
Reconhecimento de Padrões: Ao se tornarem fluentes na leitura de palavras isoladas, as crianças desenvolvem uma compreensão mais profunda dos padrões fonéticos e ortográficos da língua. Isso facilita a identificação de palavras desconhecidas e ajuda na construção do vocabulário;
Autoconfiança: A fluência na leitura de palavras isoladas pode aumentar a autoconfiança da criança como leitora, sua autoeficácia. Quando uma criança é capaz de ler com fluência e sem hesitação, ela se sente mais competente e motivada a se envolver em atividades de leitura mais desafiadoras.
A fluência na leitura de palavras isoladas é um componente fundamental da habilidade geral de leitura e está intrinsecamente ligada à compreensão leitora. Ao desenvolver fluência na leitura de palavras, as crianças estão construindo uma base sólida que lhes permite acessar e compreender uma ampla variedade de textos.
X - A AQUISIÇÃO DA FLUÊNCIA DE LEITURA É UM PROCESSO ÁRDUO E DEMORADO
O desenvolvimento da fluência na leitura varia de criança para criança e é influenciado por uma variedade de fatores, incluindo habilidades prévias, ambiente de aprendizado e práticas de ensino. No entanto, geralmente, espera-se que as crianças adquiram fluência na leitura de palavras durante os três a quatro primeiros anos do ensino fundamental.
Os alunos começam a aprender a ler no jardim de infância ou no primeiro ano do ensino fundamental, geralmente aos 5 ou 6 anos de idade. Durante esses primeiros anos, eles são expostos a atividades de leitura que visam desenvolver habilidades de decodificação e reconhecimento de palavras.
Idealmente, até o final do primeiro ano ou início do segundo ano do ensino fundamental (por volta dos 7 ou 8 anos de idade), espera-se que a maioria das crianças adquira fluência na leitura de palavras simples e familiares. Isso significa que elas são capazes de reconhecer e ler palavras com precisão e rapidez, sem hesitação excessiva.
No entanto, é importante notar que o desenvolvimento da fluência na leitura é um processo contínuo e gradual. Algumas crianças podem adquirir fluência mais rapidamente do que outras, enquanto outras podem precisar de mais tempo e apoio adicional. Além disso, o conceito de fluência na leitura vai além da simples habilidade de decodificar palavras; também inclui compreensão, expressão oral e entonação adequada durante a leitura em voz alta.
Portanto, embora seja razoável esperar que as crianças do ensino fundamental adquiram fluência na leitura de palavras durante os primeiros anos escolares, o processo de desenvolvimento da leitura continua ao longo de toda a escolaridade e além. O apoio contínuo dos educadores e a prática regular da leitura são fundamentais para promover o desenvolvimento da fluência e habilidades de leitura em geral.
CARTILHA RECOMENDADA
Capovilla, F. C. & Seabra, A. G. (2018). Alfabetização: Método fônico. São Paulo: Memnon.
LEITURAS RECOMENDADAS
Benedetti, K. S. & Haase, V. G. (2022). Fundamentos pedagógicos da BNCC e seus equívocos para a alfabetização e ensino da língua portuguesa: uma análise do ponto de vista cognitivo e da prática docente. In V. G. Haase, H. A. T. Simplício & K. S. Benedetti, (eds.) Pedagogia do sucesso. Volume 1. Diferenças individuais, família, currículo e intervenções (pp. 159-237). Belo Horizonte: Ampla.
Benedetti, K. S. (2022). Método e currículo na alfabetização: qual a importância e o papel de cada um? In V. G. Haase, H. A. T. Simplício & K. S. Benedetti, (eds.) Pedagogia do sucesso. Volume 1. Diferenças individuais, família, currículo e intervenções (pp. 239-264). Belo Horizonte: Ampla.
Haase, V. G. & Benedetti, K. S. (2022). A sabedoria narrativa como alicerce de uma pedagogia do sucesso. In V. G. Haase, H. A. T. Simplício & K. S. Benedetti, (eds.) Pedagogia do sucesso. Volume 1. Diferenças individuais, família, currículo e intervenções (pp. 335-381). Belo Horizonte: Ampla.
Haase, V. G., Carvalho, A. & Carvalho, M. R. S. (2022). Diferenças individuais e aprendizagem escolar: o exemplo da dislexia. In V. G. Haase, H. A. T. Simplício & K. S. Benedetti, (eds.) Pedagogia do sucesso. Volume 1. Diferenças individuais, família, currículo e intervenções (pp. 23-65). Belo Horizonte: Ampla.
Salles, J. F. & Corso, H. V. (2022). Compreensão leitora: Como a ciência cognitiva pode contribuir para diminuir o analfabetismo funcional. In V. G. Haase, H. A. T. Simplício & K. S. Benedetti, (eds.) Pedagogia do sucesso. Volume 1. Diferenças individuais, família, currículo e intervenções (pp. 319-333). Belo Horizonte: Ampla.
Silva, E. O., Lopes-Silva, J. B. & Haase, V. G. (2022). A aprendizagem escolar começa em casa? Pais como protagonistas no processo de ensinoaprendizagem da matemática e leitura. In V. G. Haase, H. A. T. Simplício & K. S. Benedetti, (eds.) Pedagogia do sucesso. Volume 1. Diferenças individuais, família, currículo e intervenções (pp. 93-106). Belo Horizonte: Ampla.
Vitor Geraldi Haase
Médico no Instituto Letra & Número: Neuropsicologia do Desenvolvimento (desde 2022).
Professor titular (aposentado) do Departamento de Psicologia da UFMG (1995-2022).
Doutor em psicologia médica pela Universidade de Munique (1999).
Mestre em linguística aplicada pela PUCRS (1990).
Neurologista assistente no Hospital São Lucas da PUCRS (1985-1990).
Residência médica em neurologia e neuropediatria pela UFCSPA (1984).
Médico pela UFRGS (1981).
Instituto Letra & Número
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