ACOMODAÇÕES EM FAMÍLIAS DE CRIANÇAS COM TRANSTORNOS DO NEURODESENVOLVIMENTO
Vitor Geraldi Haase
Instituto Letra & Número
Agosto de 2025
As acomodações realizadas por famílias de crianças com transtornos do desenvolvimento constituem um fenômeno complexo, que pode ser compreendido a partir de diferentes perspectivas teóricas e empíricas. Na teoria ecocultural, as acomodações são concebidas como mecanismos que permitem a implementação e a manutenção de uma rotina de vida significativa para todos os membros da família (Bernheimer & Weisner, 2007). Nessa abordagem, elas representam respostas funcionais às demandas cotidianas, integradas a um sistema de valores, objetivos e prioridades familiares. Por outro lado, no campo da psicopatologia, especialmente nos estudos sobre transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e autismo, acomodações também são discutidas como estratégias, muitas vezes ineficientes, de coping voltadas à redução de sintomas de ansiedade, rigidez comportamental ou hiper-reatividade sensorial (Dai & Carter, 2023; Feldman et al., 2019).
Acomodações e rotina significativa
Estudos com famílias de crianças com deficiência intelectual (DI) indicam que, diante do nascimento de uma criança com atrasos no desenvolvimento, os cuidadores realizam ajustes adicionais em sua rotina diária para preservar o funcionamento familiar. Essas modificações abrangem desde mudanças internas, como redistribuição da carga de trabalho doméstica, redefinição de papéis conjugais e ajustes de segurança no ambiente doméstico, até alterações externas, como reorganização do uso de serviços comunitários, mudanças nos padrões de interação social e busca ativa de fontes de informação (Diamond & Kontos, 2004; Bernheimer & Weisner, 2007). Evidências sugerem que tais acomodações não são intrinsecamente positivas ou negativas — sua valência depende das consequências geradas e do contexto sociocultural em que ocorrem (Bernheimer & Weisner, 2007).
A intensidade e a frequência das acomodações são moldadas por múltiplos fatores. Em um estudo longitudinal com 80 famílias, Gallimore et al. (1996) observaram que características da criança, como competência cognitiva, habilidades sociais e dificuldades de comunicação, prediziam diferentes tipos de acomodações ao longo do tempo. Por exemplo, dificuldades de comunicação aos três anos estavam associadas a maior uso de acomodações externas aos sete anos, enquanto problemas comportamentais aos sete anos previam aumento de acomodações internas aos onze (Keogh et al., 2000).
Acomodações como coping e manejo sintomas de restrição/rigidez do repertório de comportamentos e interesses e hiper-reatividade sensorial
No caso de crianças com autismo, as acomodações frequentemente visam lidar com sintomas de hiper-reatividade sensorial. Isso pode incluir modificações no ambiente físico, como redução do nível de ruído ou uso de abafadores, ou mudanças nas atividades familiares para evitar estímulos desencadeadores (Dai & Carter, 2023). Embora essas estratégias possam oferecer alívio imediato, estudos em análise do comportamento indicam que evitar sistematicamente os estímulos pode reforçar negativamente a sensibilidade, perpetuando o problema. Alternativamente, a dessensibilização por exposição graduada é apontada como uma abordagem mais eficaz para promover adaptação funcional à ecologia da criança.
Evidências empíricas em famílias de crianças com autismo
Pesquisas recentes têm caracterizado a natureza e o impacto das acomodações em famílias de crianças com autismo. Dai e Carter (2023), em um estudo misto com 171 mães, identificaram que a maioria das famílias realizava de uma a seis acomodações distribuídas em domínios como atividades sociais, rotinas domésticas, emprego, finanças, práticas religiosas e contato com familiares. As justificativas variaram desde o manejo de comportamentos disruptivos até a necessidade de ajustar agendas devido a terapias intensivas. A redução da participação social, tanto da criança quanto dos pais, foi recorrente, e em muitos casos, as acomodações estavam associadas a aumento do estresse familiar.
Feldman et al. (2019) mostraram que mais de 60% dos cuidadores realizavam acomodações para lidar com comportamentos restritivos, repetitivos e de hiper-reatividade (RRBI), muitas vezes de forma diária. Esses comportamentos incluíam desde ações motoras repetitivas e busca sensorial (RRBI de ordem inferior) até a necessidade de uniformidade, rituais e interesses restritos (RRBI de ordem superior). A frequência das acomodações correlacionou-se positivamente com a gravidade dos sintomas (r = 0,64 a 0,74) e negativamente com a adaptação psicossocial da criança (r = 0,25 a 0,40).
De forma semelhante, Koller et al. (2022) identificaram que o nível de acomodações para RRBIs estava relacionado a maior ocorrência de comportamentos disruptivos, enquanto Shiloh et al. (2023) aprofundaram a compreensão qualitativa do fenômeno, revelando como as adaptações podem abranger mudanças nos hábitos de lazer, trabalho e estrutura familiar. Relatos parentais destacaram tanto o peso emocional dessas práticas — muitas vezes acompanhadas de estresse, frustração e sentimentos de culpa — quanto as dificuldades de manter controle absoluto sobre os gatilhos ambientais.
Considerações finais
A literatura revisada evidencia que as acomodações familiares em contextos de transtornos do desenvolvimento constituem um fenômeno multifacetado, influenciado por fatores individuais da criança, recursos familiares, valores culturais e contextos socioeconômicos. Enquanto a teoria ecocultural as enquadra como ferramentas de sustentação de uma rotina significativa, abordagens clínicas ressaltam seus potenciais efeitos de manutenção de sintomas. Há consenso, contudo, de que tais acomodações moldam profundamente a vida familiar, demandando um equilíbrio entre o atendimento às necessidades da criança e a preservação do bem-estar coletivo. Pesquisas futuras devem explorar intervenções que auxiliem famílias a implementar acomodações adaptativas, capazes de promover tanto a qualidade de vida quanto o desenvolvimento funcional da criança.
Referências
Bernheimer, L. P., & Weisner, T. S. (2007). ‘Let me just tell you what I do all day...’: The family story at the center of intervention research and practice. Infants & Young Children, 20(3), 192–201.
Dai, Y. G., & Carter, A. S. (2023). Family accommodations in autism spectrum disorder: Prevalence and correlates. Journal of Autism and Developmental Disorders, 53(5), 2025–2039.
Diamond, K. E., & Kontos, S. (2004). Families and young children with disabilities: Intervention and adaptation. Early Education and Development, 15(2), 147–166.
Feldman, C., et al. (2019). Family accommodation in autism spectrum disorder. Autism, 23(5), 1235–1246.
Gallimore, R., Coots, J. J., Weisner, T. S., Garnier, H., & Guthrie, D. (1996). Family responses to young children with developmental delays. American Journal on Mental Retardation, 101(2), 215–232.
Keogh, B. K., Bernheimer, L. P., Gallimore, R., & Weisner, T. S. (2000). Child and family outcomes over time: A longitudinal study of children with developmental delays. American Journal on Mental Retardation, 105(6), 542–550.
Koller, J., et al. (2022). Parental accommodations and challenging behaviors in autism. Journal of Autism and Developmental Disorders, 52(4), 1610–1623.
Shiloh, S., et al. (2023). The lived experience of parental accommodations in autism spectrum disorder. Autism, 27(3), 715–727.