Bianca Olímpio Vilela Instituto Letra & Número Abril de 2026
Existe mais aprendizado nas histórias do que parece. Quando pensamos em histórias infantis, é comum associá-las ao entretenimento ou ao desenvolvimento da linguagem. No entanto, existe um outro tipo de aprendizagem acontecendo nesse contexto, que diz respeito à forma como as crianças passam a compreender o comportamento das pessoas.
As histórias são, o tempo todo, sobre personagens agindo. Mais do que isso, elas mostram por que esses personagens agem da forma como agem. Segundo Jerome Bruner (1990), a narrativa é uma das formas mais básicas de construção de sentido humano. As pessoas utilizam histórias para compreender as ações dos outros, atribuindo aos personagens estados internos como pensamentos, crenças, desejos e emoções. Esse processo envolve o uso do que chamamos de teoria da mente.
Se a narrativa funciona dessa forma, é esperado que as histórias às quais as crianças são expostas também estejam repletas desses elementos. Nesse sentido, a literatura infantil pode funcionar como um contexto importante para o desenvolvimento dessa forma de compreensão do comportamento.
O estudo de Cassidy et al. (1998) investigou exatamente essa questão. Os autores buscaram compreender quais conteúdos relacionados à teoria da mente aparecem nos livros que as crianças pequenas realmente leem no dia a dia. Para isso, pais de 47 crianças entre 3 e 6 anos registraram todos os livros lidos ao longo de uma semana. Ao final, 317 livros puderam ser analisados.
Os resultados mostraram que 78% dos livros continham referências a estados internos, como pensar, sentir e desejar. Além disso, 34% dos livros incluíam situações de falsas crenças, e 43% traziam descrições de personalidade. Esses dados indicam que a maioria dos livros aos quais as crianças são expostas já apresenta conteúdos diretamente relacionados à compreensão de estados mentais.
Esse achado é relevante porque compreender o comportamento humano não depende apenas do que é visível. Para entender por que uma pessoa age de determinada maneira, é necessário considerar o que ela sabe, pensa, sente ou acredita. A teoria da mente diz respeito exatamente a essa capacidade de reconhecer que diferentes pessoas possuem estados mentais próprios e que esses estados influenciam suas ações.
As histórias tornam esse processo explícito. Personagens frequentemente agem com base no que acreditam, mesmo quando essas crenças não correspondem à realidade. Esse é o caso das chamadas falsas crenças, que aparecem com frequência na literatura infantil. Em muitas narrativas, o comportamento do personagem só pode ser compreendido quando se considera a informação que ele possui, e não a realidade objetiva da situação.
Outro ponto importante é que a presença desses conteúdos não varia de acordo com a idade das crianças. O estudo mostrou que crianças mais novas já estão expostas a esse tipo de material de forma semelhante às mais velhas. Isso indica que, mesmo antes de dominarem plenamente esses conceitos, as crianças já entram em contato com eles de maneira consistente (Cassidy et al., 1998).
Esse dado sugere que as histórias fazem parte do próprio processo de construção da teoria da mente. Ao acompanhar narrativas, a criança tem a oportunidade de observar diferentes perspectivas, perceber conflitos de informação e relacionar estados mentais ao comportamento. Esse tipo de experiência permite que a criança vá além da observação direta das ações e comece a considerar os processos internos envolvidos.
A literatura infantil, portanto, constitui um contexto privilegiado para esse tipo de aprendizagem. Diferentemente de muitas situações do cotidiano, nas histórias as relações entre pensamentos, crenças e ações aparecem de forma organizada e acessível. Isso facilita a reflexão sobre como esses elementos se articulam.
A pesquisa sobre teoria da mente também indica que o desenvolvimento dessa habilidade está associado a fatores como interação social, linguagem e experiências de brincadeira simbólica. Nesse contexto, a exposição à literatura infantil pode ser compreendida como mais uma experiência relevante, que contribui para ampliar o repertório da criança.
Uma característica importante da leitura é que, ao contrário de outros fatores, ela pode ser intencionalmente promovida. Isso abre espaço para pensar na literatura não apenas como um recurso pedagógico voltado para a linguagem, mas também como um meio de favorecer a compreensão do comportamento humano.
Em síntese, as histórias não ensinam apenas enredos ou palavras. Elas ensinam uma forma de interpretar o comportamento das pessoas. Ao entrar em contato com narrativas, a criança começa a construir a ideia de que as ações não dependem apenas do que acontece, mas também do que cada pessoa pensa, sente ou acredita.
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Referências:Bruner, J. (1990). Acts of meaning: Four lectures on mind and culture (Vol. 3). Harvard university press.Cassidy, K. W., Ball, L. V., Rourke, M. T., Werner, R. S., Feeny, N., Chu, J. Y., ... & Perkins, A. (1998). Theory of mind concepts in children's literature. Applied psycholinguistics, 19(3), 463-470.