A CLÍNICA MANDA

Vitor Geraldi Haase
Instituto Letra & Número
Abril de 2026

Outro dia, entrevistei os pais de um menino de nove anos com diagnóstico de autismo. Gente boa, claramente dedicada, mas cansada. Muito cansada. Tinham passado por tudo quanto é tipo de intervenção. Terapias caras, protocolos sofisticados, profissionais bem recomendados. Cada um com sua teoria, sua técnica, sua promessa. Nada muito integrado. Nada muito convincente.

Em certo momento, comecei a perguntar sobre o que já havia sido feito. Fui ouvindo. Lá pelas tantas, me contaram de um “treinamento de flexibilidade cognitiva”.

Perguntei como funcionava. Disseram que os terapeutas tentavam tirar o menino do hiperfoco, engajá-lo em outras atividades, variar estímulos.

Fiquei pensando, mas não falei nada. Às vezes, o melhor que o clínico pode fazer é escutar até o fim.

“Treinar flexibilidade cognitiva” parece uma boa idéia, já que os autistas costumam ser rígidos. Parece sofisticada. Dá uma sensação de precisão técnica. Mas, quando a gente cai na real, a coisa muda de figura. Tirar uma criança do que ela gosta não é, necessariamente, torná-la mais flexível. Pode apenas torná-la mais frustrada.

Mas isso ainda era só o aquecimento. Depois me falaram de um treinamento em teoria da mente. Esse foi mais eficiente — pelo menos à primeira vista. O menino aprendeu. Aprendeu mesmo. Ficou sabendo explicar o que os outros pensam, o que sentem, como funcionam as crenças. Virou um especialista, um pequeno professor de teoria da mente.

O problema apareceu em casa. Na hora das refeições, passou a levantar o dedo para pedir a palavra. Os pais me contaram isso meio sem saber se riam ou se se preocupavam.

Ali estava todo o ensinamento condensado e aplicado.  A teoria tinha sido aprendida. Mas a vida tinha sido transformada em protocolo. O menino não estava entendendo melhor as pessoas. Estava aplicando uma regra.

Esse tipo de coisa acontece mais do que deveria. É grande a tentação de pegar um conceito válido — flexibilidade cognitiva, teoria da mente — e transformar em algo treinável, como se fosse uma habilidade isolada, destacada do resto da mente. Como se fosse possível ensinar, diretamente, aquilo que na verdade emerge de um sistema inteiro funcionando.

No papel, faz sentido. Na prática, nem sempre. O curioso é que, muitas vezes, essas intervenções ensinam justamente o contrário do que pretendem. Em vez de tornar o comportamento mais adaptativo, acabam tornando-o mais rígido. Mais formal. Mais artificial. O menino aprendeu a falar sobre o mundo, mas não necessariamente a viver no mundo.

E isso não aparece em artigos, nem em relatórios. Aparece na mesa de jantar. Um dedo levantado, esperando autorização para falar. Nessas horas, a gente entende rápido onde está o problema. Porque, no fim das contas, a clínica é quem manda. E a teoria apenas serve (ou não).

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