Elisa Braz Cota Fernandes Instituto Letra & Número Abril de 2026
É comum encontrar adultos e crianças que afirmam, com convicção: “Eu odeio matemática.” Em muitos casos, essa rejeição não nasce da natureza da disciplina, mas da forma como ela foi apresentada ao longo da escolarização. Décadas atrás, Jean Piaget já oferecia pistas importantes para compreender esse fenômeno.
Para Piaget, aprender não significa receber informações prontas nem repetir mecanicamente aquilo que outra pessoa ensinou. O conhecimento é construído ativamente pelo sujeito por meio de ações, experimentações, reorganizações mentais e descobertas progressivas (Piaget, 1952; Piaget, 1972). Quando aplicamos essa visão à matemática, surge uma conclusão importante: muitas pessoas não odeiam a matemática em si, mas odeiam a experiência de aprendê-la sem significado.
Durante muito tempo, o ensino da matemática foi fortemente baseado em:
memorização de tabuadas;
repetição de algoritmos;
aplicação mecânica de fórmulas;
exercícios padronizados;
valorização da resposta correta acima do raciocínio.
Esse modelo pode produzir desempenho imediato em algumas tarefas, mas frequentemente não gera compreensão duradoura. A criança pode decorar que 7 × 8 = 56 sem compreender relações multiplicativas, proporcionalidade ou composição numérica.
Piaget observou que saber repetir algo não é o mesmo que compreendê-lo. A criança pode recitar números, executar procedimentos e ainda assim não possuir as estruturas cognitivas necessárias para entender profundamente os conceitos envolvidos (Piaget & Szeminska, 1941).
Na perspectiva piagetiana, aprender matemática envolve construir formas de pensar. Isso significa que a criança precisa:
comparar quantidades;
ordenar elementos;
classificar objetos;
perceber padrões;
estabelecer correspondências;
testar hipóteses;
compreender transformações;
coordenar ações diretas e inversas.
Por que tanta gente sofre com matemática?
Quando a matemática é apresentada apenas como uma lista de regras abstratas, sem contexto e sem construção progressiva, muitos estudantes experimentam:
ansiedade;
medo de errar;
sensação de incapacidade;
bloqueio diante de problemas;
crença de que “não nasceram para isso”.
Em outras palavras: o sofrimento muitas vezes está menos ligado à matemática e mais ao método.
O que fazer diferente: aprender com significado
Se a matemática precisa ser construída, o ensino deve favorecer experiências que façam sentido. Isso inclui:
histórias e narrativas;
jogos;
desafios progressivos;
materiais manipuláveis;
problemas conectados ao cotidiano;
perguntas investigativas;
reflexão sobre a aprendizagem.
A Biblioteca Mágica nasce exatamente dessa compreensão.
Em vez de apresentar conceitos matemáticos como algo frio e mecânico, usamos narrativas envolventes para introduzir ideias como número, lógica, padrões, medidas, comparação e resolução de problemas. Nas histórias, a criança não memoriza primeiro para compreender depois. Ela compreende enquanto participa da aventura.
Talvez muitas pessoas nunca tenham odiado matemática. Talvez tenham odiado apenas a forma como a matemática lhes foi ensinada.
Referências
Piaget, J. (1952). The origins of intelligence in children. New York: International Universities Press.
Piaget, J. (1972). Desenvolvimento e aprendizagem. Studying teaching, 1-8.
Piaget, J., & Szeminska, A. (1941). La genèse du nombre chez l'enfant.