O Iceberg da Dislexia

Elisa Braz Cota Fernandes
Instituto Letra & Número
Abril de 2026

Quando se fala em dislexia, muitas pessoas pensam apenas em dificuldades para ler e escrever. No entanto, os impactos desse transtorno podem ir muito além do desempenho escolar. Um estudo realizado com 205 crianças e adolescentes do Marrocos trouxe dados importantes sobre a relação entre dislexia e saúde mental.

A pesquisa comparou 56 estudantes com dislexia e 149 leitores típicos, revelando que os alunos disléxicos apresentavam níveis significativamente maiores de sofrimento emocional em diferentes áreas da vida.

Autoestima

Um dos achados mais marcantes do estudo foi a diferença nos níveis de autoestima. Enquanto apenas 16,7% do grupo sem dificuldades de leitura apresentou autoestima baixa ou muito baixa, entre os estudantes com dislexia esse índice chegou a 82,2%.

Esse impacto não apareceu apenas no contexto escolar. A baixa autoestima também esteve presente nas dimensões social, familiar e pessoal. Além disso, quanto mais severas eram as dificuldades de leitura, menor tendia a ser a autoestima da criança.

Esses dados reforçam algo observado na prática clínica e educacional: quando a criança se percebe constantemente em desvantagem em relação aos colegas, pode começar a acreditar que não é capaz.

Ansiedade 

O estudo também identificou índices expressivos de ansiedade. Entre os alunos com dislexia, 72,7% apresentavam sintomas classificados como severos a muito severos, número muito superior ao encontrado no grupo controle.

Isso pode estar relacionado à rotina escolar marcada por cobranças, medo de errar, dificuldades para acompanhar atividades e insegurança diante de situações de leitura em público, provas e avaliações.

Depressão 

Outro dado preocupante foi a presença de sintomas depressivos. Entre os estudantes com dislexia, 94% apresentaram níveis severos a muito severos desses sintomas.

A pesquisa também mostrou que crianças com quadros mais intensos de dislexia tendiam a apresentar mais sinais de ansiedade e depressão do que aquelas com dificuldades mais leves.

Quando experiências repetidas de fracasso se acumulam ao longo do tempo, é comum que surjam sentimentos de incapacidade, desmotivação e desesperança.

Quando os problemas se somam 

Os pesquisadores observaram ainda uma alta taxa de comorbidade, ou seja, a presença simultânea de diferentes dificuldades emocionais.

A combinação entre baixa autoestima, ansiedade intensa e depressão apareceu em 62,5% dos jovens com dislexia, enquanto no grupo sem dificuldades de leitura esse índice foi de apenas 5,63%.

Esse dado mostra que o sofrimento emocional frequentemente não ocorre de forma isolada, exigindo atenção ampla e integrada.

Um ponto essencial discutido pelos autores é que esse sofrimento não precisa ser entendido apenas como consequência direta da condição neurobiológica.

Muitas vezes, ele surge da forma como a criança é tratada no ambiente escolar e familiar: críticas constantes, comparações, rótulos como “preguiçosa” ou “desatenta”, falta de compreensão sobre suas dificuldades e ausência de apoio adequado.

Em outras palavras, não é somente a dificuldade de aprender que machuca: é também a experiência de não ser compreendido.

A importância da intervenção 

Os resultados reforçam a necessidade de olhar para a dislexia como uma questão de saúde pública. Crianças com dificuldades de aprendizagem precisam de suporte que vá além do reforço escolar.

Intervenções precoces e baseadas em evidências podem melhorar habilidades acadêmicas, como leitura, escrita e matemática, ao mesmo tempo em que favorecem autoestima, motivação e confiança.

A Biblioteca Mágica é uma abordagem de intervenção fundamentada em evidências, desenvolvida para favorecer o avanço de crianças com dificuldades de aprendizagem. Sua aplicação pode contribuir para melhores desfechos acadêmicos em áreas essenciais, como leitura, escrita e matemática, promovendo o desenvolvimento de habilidades fundamentais para o percurso escolar.

Além dos ganhos pedagógicos, a intervenção também pode impactar positivamente aspectos emocionais frequentemente associados às dificuldades escolares, como autoestima, motivação e confiança para aprender. Quando a criança passa a vivenciar experiências de progresso e competência, tende a construir uma relação mais saudável com a aprendizagem e com o ambiente escolar.

Dessa forma, a Biblioteca Mágica se apresenta como uma abordagem que integra desenvolvimento acadêmico e emocional, reconhecendo que aprender envolve não apenas habilidades cognitivas, mas também segurança emocional e engajamento.


Referência:

Ihbour, S., Anarghou, H., Boulhana, A., Najimi, M., & Chigr, F. (2021). Mental health among students with neurodevelopment disorders: case of dyslexic children and adolescents. Dement Neuropsychol, 15 (4), 533-540. https://doi.org/10.1590/1980-57642021dn15-040014.

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