Figura 2. Variância do reconhecimento de palavras e da compreensão leitora explicada pelos preditores específicos da leitura e pelos preditores gerais, em R² ajustado. Fonte: elaborado com os dados de Shatil e Share (2003).
Os resultados demonstram que o reconhecimento inicial de palavras e a compreensão leitora apresentam antecedentes cognitivos parcialmente diferentes. A aquisição do código escrito depende fortemente de processos relacionados à análise e à aprendizagem das correspondências entre unidades gráficas e fonológicas, enquanto a compreensão exige também habilidades cognitivas e linguísticas mais amplas.
É importante ressaltar que os 44% da variância da compreensão explicados pelos preditores gerais não correspondem exclusivamente ao QI. Esse conjunto incluía medidas de raciocínio e linguagem oral. Além disso, o bloco de capacidade intelectual geral foi operacionalizado com medidas de Raven e Peabody, e não por meio de uma avaliação abrangente da inteligência.
Consequentemente, o estudo sustenta a importância relativamente limitada das medidas de capacidade geral na predição da leitura inicial de palavras, mas não demonstra que todas as dimensões da inteligência sejam irrelevantes para a alfabetização.
A CONSCIÊNCIA FONÊMICA NÃO ATUA ISOLADAMENTE
Um aspecto especialmente interessante desse estudo é que a consciência fonológica não apresentou a maior contribuição independente para o reconhecimento de palavras (Shatil & Share, 2003).
Na análise dos blocos de preditores, a consciência fonológica explicou aproximadamente 11% da variância quando considerada isoladamente, mas sua contribuição independente caiu para cerca de 2% depois do controle dos demais blocos, deixando de alcançar significância estatística.
A memória fonológica explicou 16% da variância isoladamente e manteve uma contribuição independente de aproximadamente 6%. O processamento visual-ortográfico explicou 11% isoladamente e também apresentou contribuição independente de cerca de 6%. Os conhecimentos iniciais sobre a escrita explicaram 19% isoladamente e conservaram uma contribuição independente de 11%. As medidas de capacidade intelectual geral explicaram somente 2% isoladamente e não apresentaram contribuição independente após o controle dos outros preditores.
Os melhores preditores individuais foram uma tarefa de aprendizagem de correspondências novas entre símbolos e sílabas e a nomeação de letras. Mesmo depois de controlada toda a bateria, essa tarefa de aprendizagem ainda explicou 6% da variância do reconhecimento de palavras, tanto quanto o conjunto das tarefas de memória fonológica.
Esses resultados sugerem que o mecanismo proximal mais importante para a alfabetização não corresponde necessariamente à consciência fonêmica considerada isoladamente, mas pode envolver a capacidade de aprender, armazenar, recuperar e utilizar correspondências entre unidades gráficas e fonológicas.
Essa interpretação é compatível com os procedimentos empregados na instrução fônica sistemática, que procura estabelecer correspondências grafema-fonema e promover sua utilização progressivamente automatizada na decodificação.
Entretanto, a ausência de contribuição independente da consciência fonológica exige cautela. A tarefa de segmentação fonêmica foi excluída porque se mostrou excessivamente difícil para os participantes. Outras medidas de consciência fonológica apresentaram confiabilidade apenas moderada ou relativamente baixa. Além disso, o compartilhamento de variância com a tarefa de aprendizagem de correspondências entre símbolos e sons pode ter reduzido sua contribuição exclusiva.
A estrutura do hebraico vocalizado também pode influenciar esses resultados. Sua regularidade ortográfica e o predomínio de estruturas silábicas relativamente simples podem facilitar a aprendizagem da decodificação sem exigir, no mesmo grau que outras ortografias, determinadas operações de manipulação fonêmica.
A consciência fonêmica deve, portanto, ser compreendida como um componente de um sistema mais amplo de aprendizagem do código escrito. Sua importância não significa que constitua o único mecanismo envolvido na alfabetização, nem que seu desempenho em testes metalinguísticos determine de maneira rígida o potencial de aprendizagem.
UMA AVALIAÇÃO CRÍTICA DA HIPÓTESE DE MODULARIDADE
Shatil e Share interpretaram seus resultados como evidência favorável à modularidade cognitiva do reconhecimento de palavras. Segundo essa perspectiva, os processos envolvidos na identificação inicial de palavras seriam relativamente específicos e encapsulados, funcionando de maneira parcialmente independente de sistemas cognitivos de ordem superior.
A dissociação observada entre os preditores específicos e gerais constitui uma contribuição empírica importante. Entretanto, ela não demonstra necessariamente modularidade no sentido forte, que supõe processos encapsulados e de domínio específico (Fodor, 1983).
Algumas habilidades classificadas como específicas da leitura, como memória visual de sequências, segmentação de figuras e nomeação rápida, não são exclusivas do processamento da escrita. Trata-se de capacidades que podem participar de outras atividades cognitivas.
Além disso, o fato de um grupo de variáveis apresentar maior poder preditivo não demonstra que essas habilidades constituam módulos cognitivamente encapsulados ou funcionalmente independentes dos demais sistemas.
O delineamento longitudinal também foi relativamente curto, abrangendo apenas a transição entre o final da educação infantil e o término do primeiro ano escolar. Os resultados não demonstram que a mesma configuração de preditores permaneça estável ao longo dos anos.
Outra limitação importante é que o reconhecimento de palavras foi avaliado por meio da leitura de palavras reais, com e sem limite de tempo, sem uma medida específica de decodificação de pseudopalavras. Consequentemente, o desempenho poderia refletir tanto a recodificação fonológica quanto o reconhecimento de representações ortográficas previamente aprendidas.
Finalmente, a grande quantidade de medidas e o emprego de procedimentos exploratórios de regressão, incluindo análises stepwise, recomendam cautela na interpretação das contribuições independentes.
Uma investigação contemporânea poderia utilizar modelos de variáveis latentes, medidas repetidas de crescimento, validação cruzada e testes de transferência da decodificação para palavras não ensinadas e pseudopalavras.
Apesar dessas limitações, o estudo oferece evidência longitudinal importante de que o reconhecimento inicial de palavras depende mais fortemente de habilidades cognitivas proximais relacionadas à linguagem escrita do que das medidas gerais de capacidade intelectual utilizadas pelos autores.
Essa conclusão é particularmente relevante para a educação de crianças com deficiência intelectual.
EVIDÊNCIAS LONGITUDINAIS POSTERIORES
A pesquisa realizada depois desse estudo ampliou consideravelmente a compreensão dos preditores da alfabetização e do desenvolvimento posterior da leitura.
Um estudo longitudinal investigou a estabilidade de habilidades relacionadas à leitura e sua capacidade de predizer o desenvolvimento posterior, acompanhando 324 participantes avaliados em média aos dez anos e reavaliados cerca de cinco anos e meio depois, em média aos 16 anos (Hulslander et al., 2010).
Foram investigadas consciência fonêmica, decodificação fonológica, nomeação rápida e QI. Depois de controlar o desempenho inicial de leitura, o QI aos dez anos foi o único preditor significativo do desenvolvimento posterior da compreensão leitora aos 16 anos, explicando cerca de 13% da variância da compreensão final além do que já era explicado pela compreensão inicial.
O reconhecimento de palavras e a escrita apresentaram estabilidade longitudinal muito elevada, deixando pouca variância residual a ser explicada pelos demais preditores.
Esses resultados sugerem que o peso relativo das habilidades cognitivas gerais aumenta quando o desfecho investigado deixa de ser a aquisição inicial do código e passa a ser o desenvolvimento posterior da compreensão leitora.
É necessário, entretanto, considerar que o controle estatístico do desempenho inicial de leitura também remove parte da variância associada aos efeitos anteriores das habilidades fonológicas. A ausência de contribuição adicional dessas habilidades não demonstra que tenham perdido sua importância causal para o desenvolvimento.
Dois estudos investigaram os preditores da alfabetização em diferentes ortografias alfabéticas, incluindo inglês, espanhol, tcheco e eslovaco (Caravolas et al., 2012, 2013). Os estudos identificaram três preditores longitudinais particularmente importantes: consciência fonêmica, conhecimento das correspondências entre letras e sons e nomeação automatizada rápida.
Embora a velocidade de aquisição da leitura variasse entre ortografias, a importância desses preditores mostrou padrões semelhantes. A memória verbal de curto prazo não apresentou contribuição independente consistente.
Esses resultados sugerem que alguns mecanismos fundamentais da alfabetização são compartilhados entre sistemas alfabéticos, apesar das diferenças de consistência ortográfica.
Também qualificam a interpretação dos resultados de Shatil e Share. A contribuição relativamente pequena da consciência fonológica depois do controle de outros processos não pode ser generalizada para todas as ortografias transparentes.
Um estudo longitudinal norueguês, iniciado aos quatro anos de idade e estendido até os nove anos, identificou duas trajetórias principais de desenvolvimento da compreensão leitora (Hjetland et al., 2019).
Uma trajetória estava relacionada à aprendizagem do código escrito, incluindo consciência fonêmica, conhecimento de letras e nomeação rápida, que chegavam à compreensão por meio da decodificação. A outra estava relacionada ao desenvolvimento da linguagem oral, abrangendo vocabulário, gramática, compreensão oral e memória de trabalho verbal.
Essas trajetórias convergiam para a compreensão leitora, mas apresentavam características desenvolvimentais parcialmente diferentes. A trajetória da linguagem oral mostrou maior estabilidade, enquanto a trajetória associada à aprendizagem do código foi menos estável ao longo do desenvolvimento. O estudo também mostrou que a linguagem oral aos quatro anos estava fortemente relacionada às próprias habilidades do código e influenciava a decodificação de forma indireta (Hjetland et al., 2019).
Esse resultado sugere uma explicação mais específica para o aumento da associação entre inteligência e compreensão leitora nas idades posteriores. O fator proximal pode não ser o QI global, mas a proficiência linguística e a capacidade de construir, integrar e utilizar representações semânticas progressivamente complexas.
A MUDANÇA DOS PREDITORES AO LONGO DO DESENVOLVIMENTO
Outros trabalhos recentes sugerem que as habilidades envolvidas na identificação de palavras modificam sua importância relativa à medida que a leitura se desenvolve.
Um estudo longitudinal com 62 crianças aprendendo a ler em português europeu investigou a contribuição do conhecimento dos sons de grafemas complexos para a fluência de leitura entre o segundo e o terceiro ano escolar (Fernandes et al., 2024). Os resultados mostraram que esse conhecimento predizia o desenvolvimento da fluência mesmo depois de controlar inteligência não verbal, vocabulário, memória verbal e consciência fonêmica. Nesse modelo, a consciência fonêmica não apresentou contribuição adicional significativa.
O resultado reforça a necessidade de diferenciar a capacidade de analisar conscientemente os fonemas da fala e o conhecimento efetivo das correspondências entre grafemas e fonemas, incluindo padrões ortográficos mais complexos.
Outro estudo acompanhou 440 crianças falantes de hebraico desde a educação infantil, com avaliações posteriores no primeiro e no quarto ano escolar (Cohen-Mimran & Share, 2025).
No primeiro ano, a consciência fonológica apresentava uma contribuição muito mais importante do que o conhecimento morfolexical para a fluência de leitura. No quarto ano, entretanto, a contribuição da consciência fonológica diminuía consideravelmente, enquanto o conhecimento morfolexical adquiria maior importância, tanto para a leitura de palavras em escrita vocalizada quanto não vocalizada, com efeito particularmente forte na escrita não vocalizada, que é mais opaca.
Esse resultado sugere uma reorganização desenvolvimental dos processos responsáveis pela identificação de palavras. A aprendizagem inicial depende fortemente do processamento fonológico e das correspondências entre escrita e fala. Com o aumento da experiência, as representações ortográficas, lexicais e morfológicas passam a contribuir de maneira crescente para a fluência.
Um estudo que acompanhou 126 crianças canadenses entre o terceiro e o quinto ano escolar também investigou as contribuições da consciência fonológica, da nomeação rápida e da consciência morfológica para diferentes habilidades de leitura (Kirby et al., 2025).
Os resultados mostraram contribuições dos três conjuntos de habilidades para diferentes aspectos do desenvolvimento, destacando a importância da consciência morfológica para a compreensão leitora e da nomeação rápida para as medidas de velocidade de leitura.
Esses achados não significam que a consciência fonológica deixe de participar da leitura depois da alfabetização. Indicam que sua contribuição passa a coexistir com conhecimentos ortográficos, lexicais, morfológicos e semânticos cada vez mais elaborados.
Um estudo longitudinal brasileiro, que acompanhou 83 estudantes do primeiro ao terceiro ano, também identificou a contribuição da consciência fonológica e da nomeação automatizada rápida para leitura e escrita (Silva et al., 2025). A consciência fonêmica foi um preditor forte de leitura e escrita ao longo dos três anos. A nomeação rápida não alfanumérica se associou à leitura de palavras, enquanto a nomeação rápida alfanumérica ganhou influência com o tempo e predisse a compreensão de sentenças e a escrita nos anos seguintes.
Esses resultados são relevantes porque aproximam a discussão das características do português brasileiro e reforçam a necessidade de considerar separadamente decodificação, fluência e compreensão.
INTELIGÊNCIA, CONSCIÊNCIA FONOLÓGICA E LEITURA NA DEFICIÊNCIA INTELECTUAL
As investigações realizadas especificamente com estudantes com deficiência intelectual são particularmente importantes para verificar até que ponto os resultados obtidos na população geral podem ser generalizados.
Um estudo longitudinal acompanhou 129 crianças com deficiência intelectual leve ou moderada, inicialmente entre seis e oito anos de idade (Sermier Dessemontet & de Chambrier, 2015). Os pesquisadores avaliaram habilidades fonológicas e conhecimentos sobre letras e sons, acompanhando o desenvolvimento da leitura durante os dois anos escolares seguintes.
Os resultados mostraram que a consciência fonológica e o conhecimento das correspondências entre letras e sons prediziam progressos em leitura de palavras e pseudopalavras, mesmo depois do controle de QI, idade, vocabulário expressivo, linguagem oral e modalidade de escolarização.
Essas habilidades também apresentaram capacidade preditiva para o desenvolvimento da compreensão leitora.
O estudo oferece evidência importante de que os preditores específicos da aprendizagem alfabética continuam relevantes dentro de uma população caracterizada por limitações intelectuais gerais.
Uma metanálise posterior, publicada eletronicamente em 2025, reuniu 26 estudos, 27 amostras e 1.137 participantes com deficiência intelectual (Nilsson et al., 2025).
Os resultados mostraram que a decodificação apresentava correlação de aproximadamente 0,52 com consciência fonológica, 0,46 com memória fonológica, −0,44 com nomeação rápida, 0,34 com vocabulário e 0,30 com QI (Figura 3).
A associação entre consciência fonológica e decodificação foi, portanto, mais forte do que a associação entre QI e decodificação.