Alfabetização, inteligência e desenvolvimento da literacia: fundamentos neuropsicológicos e socioculturais da Biblioteca Mágica

Vitor Geraldi Haase & Lia Constantino Criscoullo em diálogo com o ChatGPT: É preciso fazer as perguntas certas para encontrar boas respostas.
Outubro de 2026

INTRODUÇÃO

A alfabetização de crianças com deficiência intelectual constitui um problema educacional, neuropsicológico e ético de grande relevância. Embora a deficiência intelectual esteja associada a limitações no desenvolvimento de diversas habilidades cognitivas e acadêmicas, não existe fundamento para concluir, a partir do diagnóstico ou do quociente de inteligência (QI), que uma criança seja incapaz de adquirir o princípio alfabético. A literatura científica demonstra que uma proporção substancial de estudantes com deficiência intelectual desenvolve habilidades de decodificação e reconhecimento de palavras (Ratz & Lenhard, 2013; Sermier Dessemontet et al., 2019). A experiência clínica também indica que adolescentes que permaneceram analfabetos durante muitos anos de escolarização podem apresentar progressos surpreendentes quando recebem instrução fônica sistemática e individualizada.

Essas observações suscitam duas questões distintas. A primeira diz respeito às capacidades cognitivas necessárias para a aquisição inicial da leitura. A segunda refere-se aos processos envolvidos no desenvolvimento posterior da literacia, particularmente da fluência, da compreensão de textos, da realização de inferências e da utilização da linguagem escrita para adquirir conhecimentos e participar da cultura.

A distinção entre esses componentes é fundamental. A aquisição da decodificação alfabética depende fortemente de habilidades psicolinguísticas relativamente específicas, como consciência fonêmica, conhecimento das correspondências grafema-fonema, aprendizagem ortográfica e nomeação automatizada rápida (Caravolas et al., 2012; Nilsson et al., 2025). O desenvolvimento posterior da leitura, entretanto, envolve progressivamente um conjunto mais amplo de capacidades cognitivas, linguísticas, sociopragmáticas, discursivas e culturais. Entre elas encontram-se a inteligência geral, a memória de trabalho, as funções executivas, o vocabulário, o conhecimento sintático e semântico, a compreensão de narrativas, as habilidades conversacionais, a teoria da mente e o conhecimento cultural.

Essas capacidades não atuam isoladamente. Suas contribuições relativas variam conforme o componente da leitura, o estágio do desenvolvimento, as características da ortografia e as oportunidades educacionais. Consequentemente, uma concepção abrangente da literacia precisa integrar os mecanismos específicos de aprendizagem do código escrito às habilidades cognitivas e socioculturais que permitem compreender e utilizar a linguagem escrita.

Essa perspectiva constitui um dos fundamentos da Biblioteca Mágica, programa que procura articular o ensino explícito da alfabetização com o desenvolvimento da linguagem, da compreensão discursiva, das habilidades narrativas e do conhecimento cultural.

A ALFABETIZAÇÃO DE CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL

Uma das dificuldades persistentes na educação de crianças com deficiência intelectual é a tendência a confundir limitações cognitivas gerais com impossibilidade de adquirir habilidades acadêmicas específicas. Essa confusão pode contribuir para o estabelecimento de expectativas educacionais excessivamente reduzidas e para a ausência de oportunidades adequadas de aprendizagem.

A experiência clínica com crianças e adolescentes com deficiência intelectual revela situações particularmente preocupantes. Não é incomum encontrar jovens que chegam aos 15 ou 16 anos sem terem sido alfabetizados, apesar de terem frequentado a escola durante aproximadamente uma década. Em alguns desses casos, intervenções baseadas no método fônico, conduzidas por estudantes de graduação em Psicologia ou por familiares interessados, permitem que os adolescentes adquiram habilidades elementares de decodificação em dois ou três meses.

Naturalmente, essas observações clínicas não demonstram que todas as pessoas com deficiência intelectual possam alcançar os mesmos resultados ou que dois ou três meses representem um prazo generalizável. Entretanto, elas demonstram que, em determinados casos, a ausência prolongada de alfabetização não correspondia à impossibilidade de aprender. A aprendizagem ocorreu quando os estudantes tiveram acesso a procedimentos de ensino apropriados.

Essa constatação impõe a necessidade de distinguir diferentes situações educacionais. Uma criança pode apresentar dificuldades persistentes apesar de ter recebido ensino adequado. Outra pode ter recebido instrução, mas por meio de procedimentos incompatíveis com suas necessidades de aprendizagem. Uma terceira pode ter frequentado a escola regularmente sem ter recebido oportunidades suficientes de instrução explícita, sistemática e individualizada. Finalmente, uma escola pode presumir que a deficiência intelectual impede a alfabetização e deixar de estabelecer esse objetivo educacional.

Esta última possibilidade é especialmente preocupante, pois transforma uma expectativa de incapacidade em uma condição que contribui para produzir o fracasso. O adolescente permanece analfabeto, e sua falta de alfabetização passa a ser interpretada como confirmação da própria limitação intelectual que justificou a ausência de ensino.

O problema envolve, portanto, não apenas a qualidade da educação, mas também a validade das inferências diagnósticas. O desempenho escolar efetivamente observado não equivale necessariamente ao potencial de aprendizagem. A avaliação neuropsicológica deve procurar identificar os processos preservados, as dificuldades específicas e os procedimentos necessários para promover novas aquisições, em vez de utilizar o QI ou o diagnóstico sindrômico como critérios para limitar antecipadamente as oportunidades educacionais.

A experiência com pessoas com síndrome de Williams ilustra essa questão. Ao longo de muitos anos de atendimento, foi possível observar a frustração de famílias cujos filhos chegavam à adolescência sem saber ler. Em um grupo recente de WhatsApp reunindo adolescentes e adultos jovens com essa síndrome, observamos que uma parcela expressiva dos participantes precisava comunicar-se por mensagens de áudio devido às dificuldades de leitura.

A comunicação por áudio representa uma acomodação legítima e importante para promover a participação social. Entretanto, a necessidade dessa acomodação não demonstra que essas pessoas fossem incapazes de aprender a ler.

Na experiência clínica, crianças com síndrome de Williams frequentemente conseguem adquirir a decodificação alfabética mediante ensino apropriado. A compreensão de textos costuma apresentar dificuldades maiores, enquanto a aprendizagem dos conceitos aritméticos frequentemente constitui um desafio ainda mais significativo. Essa dissociação sugere que os diferentes componentes da aprendizagem acadêmica apresentam graus distintos de dependência das capacidades cognitivas gerais.

É necessário, portanto, distinguir a alfabetização, entendida como aquisição do princípio alfabético e desenvolvimento do reconhecimento de palavras; a compreensão leitora, que exige a construção de representações semânticas, a integração de informações e a realização de inferências; e a numeracia, que envolve a aquisição de conceitos quantitativos e de relações numéricas progressivamente mais complexas.

Essas aprendizagens não são equivalentes e não precisam evoluir no mesmo ritmo.

EVIDÊNCIAS EPIDEMIOLÓGICAS: O ESTUDO DE RATZ E LENHARD

Uma contribuição particularmente importante para essa discussão vem de um levantamento sobre as habilidades de leitura e escrita de estudantes com deficiência intelectual na Baviera, Alemanha (Ratz & Lenhard, 2013).

Os autores investigaram uma amostra representativa de 1.629 estudantes, com idades entre seis e 21 anos, matriculados em escolas especiais. Os professores classificaram o desempenho dos alunos em leitura e escrita segundo o modelo de seis estágios de Valtin, e os autores agruparam esses resultados nos três estágios de Frith: logográfico, alfabético e ortográfico (Frith, 1985; Valtin, 2000).

Os resultados mostraram uma distribuição bastante heterogênea das habilidades de leitura. Aproximadamente 29,3% dos estudantes não liam, 6,8% encontravam-se no estágio logográfico, 31,9% haviam alcançado o estágio alfabético e 32% apresentavam habilidades correspondentes ao estágio ortográfico.

Portanto, 63,9% dos participantes haviam alcançado pelo menos o nível alfabético de leitura.

A distribuição segundo a gravidade da deficiência intelectual foi especialmente informativa. Entre os estudantes classificados com deficiência intelectual leve, 94,8% encontravam-se nos níveis alfabético ou ortográfico. Entre aqueles classificados com deficiência intelectual moderada, a proporção alcançava 75,7%. Mesmo entre estudantes com deficiência intelectual grave, aproximadamente 21,1% haviam alcançado esses níveis. Entre os participantes classificados com deficiência intelectual profunda, praticamente não foram identificadas habilidades de leitura alfabética (Figura 1).

Figura 1. Níveis de leitura na amostra total e proporção de estudantes que alcançaram os níveis alfabético ou ortográfico, segundo a gravidade da deficiência intelectual. Fonte: elaborado com os dados de Ratz e Lenhard (2013).

Esses resultados demonstram que a aquisição da leitura alfabética não constitui um fenômeno excepcional entre estudantes com deficiência intelectual, inclusive moderada. Ao mesmo tempo, evidenciam a grande heterogeneidade dessa população e a influência da gravidade do comprometimento intelectual sobre os resultados escolares.

O estudo apresenta limitações importantes. As habilidades de leitura foram classificadas pelos professores, sem aplicação direta de uma bateria padronizada a todos os participantes. O delineamento foi transversal, de modo que as diferenças entre grupos etários não podem ser interpretadas como trajetórias individuais de desenvolvimento. Além disso, os autores não avaliaram diretamente a compreensão leitora nem investigaram a eficácia dos métodos de alfabetização utilizados. Os próprios autores registram que a consciência fonológica não foi medida e que praticamente todos os estudantes frequentavam escolas especiais, o que deixa de fora os contextos inclusivos.

Outro resultado merece atenção. A proporção de estudantes que não liam foi praticamente a mesma nas três faixas etárias: 30,4% entre seis e dez anos, 26,7% entre 11 e 15 anos e 30,0% aos 16 anos ou mais. Entre os que liam, os mais velhos estavam com mais frequência no estágio ortográfico, o que os autores interpretam como desempenho maior nas idades mais avançadas. A persistência de cerca de 30% de não leitores pode refletir limitações nas possibilidades de aprendizagem, mas também levanta a hipótese de que as oportunidades de ensino da leitura diminuam ou deixem de ser suficientemente intensivas durante a adolescência. O delineamento do estudo não permite distinguir essas explicações.

A síndrome de Williams esteve representada por apenas seis participantes, número insuficiente para conclusões específicas sobre esse diagnóstico.

Apesar dessas limitações, o trabalho demonstra que uma proporção considerável de estudantes com deficiência intelectual consegue adquirir habilidades alfabéticas. Os resultados não permitem determinar quantos outros estudantes poderiam ter alcançado níveis semelhantes mediante intervenções mais eficazes. Essa questão permanece aberta e possui grande importância clínica e educacional.

A EFICÁCIA DO ENSINO FÔNICO NA DEFICIÊNCIA INTELECTUAL

As evidências epidemiológicas sobre alfabetização na deficiência intelectual são complementadas por estudos de intervenção.

Uma metanálise sobre a eficácia da instrução fônica para o desenvolvimento da decodificação em estudantes com deficiência intelectual reuniu 14 estudos, com 297 participantes, e encontrou um efeito global elevado, com g = 1,42 (Sermier Dessemontet et al., 2019).

Os resultados sugeriram benefícios importantes da instrução fônica sistemática, embora os efeitos variassem conforme o delineamento experimental e as medidas utilizadas. Os estudos de caso único apresentaram efeitos bem maiores (g = 1,94) do que os estudos com grupos (g = 0,41), e os testes elaborados pelos pesquisadores mostraram efeitos maiores (g = 1,78) do que os testes padronizados (g = 0,40). A categoria profissional dos responsáveis pela intervenção, pesquisadores de um lado e professores e outros profissionais da escola de outro, não apareceu como moderadora significativa dos resultados.

Esse último achado é compatível com a possibilidade de realizar intervenções eficazes por meio de procedimentos estruturados, aplicados por profissionais ou colaboradores adequadamente preparados e supervisionados. Entretanto, não demonstra que qualquer pessoa sem treinamento possa obter resultados equivalentes aos de especialistas.

Uma revisão Cochrane que reuniu sete estudos com 352 participantes também encontrou efeitos favoráveis, de magnitude pequena a moderada, de intervenções de leitura inicial sobre consciência fonológica, leitura de palavras e decodificação (Reichow et al., 2019). A qualidade das evidências foi considerada baixa a moderada, e houve variabilidade importante na intensidade da instrução e na velocidade dos progressos.

Uma revisão posterior, dedicada a estudantes com deficiência intelectual moderada e grave, identificou 24 estudos publicados entre 2000 e 2022 e reforçou a importância de intervenções que ultrapassem o ensino restrito ao reconhecimento global de palavras (Williams, 2025). Os resultados sustentaram a inclusão de consciência fonêmica, instrução fônica e desenvolvimento da fluência.

Em conjunto, essas evidências oferecem sustentação à adoção de procedimentos explícitos e sistemáticos de alfabetização na deficiência intelectual. Elas não autorizam estabelecer um prognóstico uniforme para todos os estudantes, mas contrariam a suposição de que o comprometimento intelectual, por si só, inviabiliza a aquisição da leitura.

INTELIGÊNCIA E HABILIDADES ESPECÍFICAS NA AQUISIÇÃO DA LEITURA

A questão dos processos cognitivos responsáveis pela alfabetização foi investigada de maneira particularmente interessante em um estudo longitudinal com crianças israelenses (Shatil & Share, 2003).

Os autores examinaram a hipótese de que o reconhecimento de palavras depende principalmente de mecanismos cognitivos específicos para o processamento da linguagem escrita, relativamente independentes das capacidades cognitivas gerais.

O estudo utilizou um delineamento longitudinal. Inicialmente, 349 crianças falantes de hebraico, com idade média de seis anos, foram avaliadas no final da educação infantil. Um ano depois, 313 participantes foram reavaliados ao término do primeiro ano escolar.

A bateria inicial compreendia aproximadamente 30 testes, distribuídos entre habilidades específicas da leitura e habilidades cognitivas gerais.

O primeiro conjunto incluía consciência fonológica, memória fonológica, processamento visual-ortográfico e conhecimentos iniciais sobre a escrita. O segundo incluía capacidade intelectual geral, raciocínio de ordem superior e habilidades de linguagem oral.

O estudo foi realizado com crianças que aprendiam a ler em hebraico vocalizado, uma ortografia altamente regular, com correspondências consistentes entre grafemas e fonemas. Essa característica favorece a investigação dos mecanismos de aprendizagem da decodificação, embora limite a generalização direta dos resultados para sistemas ortográficos com características diferentes.

O principal resultado revelou uma dissociação expressiva entre reconhecimento de palavras e compreensão leitora.

Os preditores específicos explicaram aproximadamente 33% da variância no reconhecimento de palavras ao final do primeiro ano escolar, enquanto os preditores gerais explicaram apenas 5%. Para a compreensão leitora, entretanto, os dois conjuntos apresentaram capacidade preditiva substancial: 51% da variância foi explicada pelos preditores específicos e 44% pelos preditores gerais (Figura 2).

Esses percentuais correspondem a modelos estatísticos distintos e não devem ser somados.

Figura 2. Variância do reconhecimento de palavras e da compreensão leitora explicada pelos preditores específicos da leitura e pelos preditores gerais, em R² ajustado. Fonte: elaborado com os dados de Shatil e Share (2003).

Os resultados demonstram que o reconhecimento inicial de palavras e a compreensão leitora apresentam antecedentes cognitivos parcialmente diferentes. A aquisição do código escrito depende fortemente de processos relacionados à análise e à aprendizagem das correspondências entre unidades gráficas e fonológicas, enquanto a compreensão exige também habilidades cognitivas e linguísticas mais amplas.

É importante ressaltar que os 44% da variância da compreensão explicados pelos preditores gerais não correspondem exclusivamente ao QI. Esse conjunto incluía medidas de raciocínio e linguagem oral. Além disso, o bloco de capacidade intelectual geral foi operacionalizado com medidas de Raven e Peabody, e não por meio de uma avaliação abrangente da inteligência.

Consequentemente, o estudo sustenta a importância relativamente limitada das medidas de capacidade geral na predição da leitura inicial de palavras, mas não demonstra que todas as dimensões da inteligência sejam irrelevantes para a alfabetização.

A CONSCIÊNCIA FONÊMICA NÃO ATUA ISOLADAMENTE

Um aspecto especialmente interessante desse estudo é que a consciência fonológica não apresentou a maior contribuição independente para o reconhecimento de palavras (Shatil & Share, 2003).

Na análise dos blocos de preditores, a consciência fonológica explicou aproximadamente 11% da variância quando considerada isoladamente, mas sua contribuição independente caiu para cerca de 2% depois do controle dos demais blocos, deixando de alcançar significância estatística.

A memória fonológica explicou 16% da variância isoladamente e manteve uma contribuição independente de aproximadamente 6%. O processamento visual-ortográfico explicou 11% isoladamente e também apresentou contribuição independente de cerca de 6%. Os conhecimentos iniciais sobre a escrita explicaram 19% isoladamente e conservaram uma contribuição independente de 11%. As medidas de capacidade intelectual geral explicaram somente 2% isoladamente e não apresentaram contribuição independente após o controle dos outros preditores.

Os melhores preditores individuais foram uma tarefa de aprendizagem de correspondências novas entre símbolos e sílabas e a nomeação de letras. Mesmo depois de controlada toda a bateria, essa tarefa de aprendizagem ainda explicou 6% da variância do reconhecimento de palavras, tanto quanto o conjunto das tarefas de memória fonológica.

Esses resultados sugerem que o mecanismo proximal mais importante para a alfabetização não corresponde necessariamente à consciência fonêmica considerada isoladamente, mas pode envolver a capacidade de aprender, armazenar, recuperar e utilizar correspondências entre unidades gráficas e fonológicas.

Essa interpretação é compatível com os procedimentos empregados na instrução fônica sistemática, que procura estabelecer correspondências grafema-fonema e promover sua utilização progressivamente automatizada na decodificação.

Entretanto, a ausência de contribuição independente da consciência fonológica exige cautela. A tarefa de segmentação fonêmica foi excluída porque se mostrou excessivamente difícil para os participantes. Outras medidas de consciência fonológica apresentaram confiabilidade apenas moderada ou relativamente baixa. Além disso, o compartilhamento de variância com a tarefa de aprendizagem de correspondências entre símbolos e sons pode ter reduzido sua contribuição exclusiva.

A estrutura do hebraico vocalizado também pode influenciar esses resultados. Sua regularidade ortográfica e o predomínio de estruturas silábicas relativamente simples podem facilitar a aprendizagem da decodificação sem exigir, no mesmo grau que outras ortografias, determinadas operações de manipulação fonêmica.

A consciência fonêmica deve, portanto, ser compreendida como um componente de um sistema mais amplo de aprendizagem do código escrito. Sua importância não significa que constitua o único mecanismo envolvido na alfabetização, nem que seu desempenho em testes metalinguísticos determine de maneira rígida o potencial de aprendizagem.

UMA AVALIAÇÃO CRÍTICA DA HIPÓTESE DE MODULARIDADE

Shatil e Share interpretaram seus resultados como evidência favorável à modularidade cognitiva do reconhecimento de palavras. Segundo essa perspectiva, os processos envolvidos na identificação inicial de palavras seriam relativamente específicos e encapsulados, funcionando de maneira parcialmente independente de sistemas cognitivos de ordem superior.

A dissociação observada entre os preditores específicos e gerais constitui uma contribuição empírica importante. Entretanto, ela não demonstra necessariamente modularidade no sentido forte, que supõe processos encapsulados e de domínio específico (Fodor, 1983).

Algumas habilidades classificadas como específicas da leitura, como memória visual de sequências, segmentação de figuras e nomeação rápida, não são exclusivas do processamento da escrita. Trata-se de capacidades que podem participar de outras atividades cognitivas.

Além disso, o fato de um grupo de variáveis apresentar maior poder preditivo não demonstra que essas habilidades constituam módulos cognitivamente encapsulados ou funcionalmente independentes dos demais sistemas.

O delineamento longitudinal também foi relativamente curto, abrangendo apenas a transição entre o final da educação infantil e o término do primeiro ano escolar. Os resultados não demonstram que a mesma configuração de preditores permaneça estável ao longo dos anos.

Outra limitação importante é que o reconhecimento de palavras foi avaliado por meio da leitura de palavras reais, com e sem limite de tempo, sem uma medida específica de decodificação de pseudopalavras. Consequentemente, o desempenho poderia refletir tanto a recodificação fonológica quanto o reconhecimento de representações ortográficas previamente aprendidas.

Finalmente, a grande quantidade de medidas e o emprego de procedimentos exploratórios de regressão, incluindo análises stepwise, recomendam cautela na interpretação das contribuições independentes.

Uma investigação contemporânea poderia utilizar modelos de variáveis latentes, medidas repetidas de crescimento, validação cruzada e testes de transferência da decodificação para palavras não ensinadas e pseudopalavras.

Apesar dessas limitações, o estudo oferece evidência longitudinal importante de que o reconhecimento inicial de palavras depende mais fortemente de habilidades cognitivas proximais relacionadas à linguagem escrita do que das medidas gerais de capacidade intelectual utilizadas pelos autores.

Essa conclusão é particularmente relevante para a educação de crianças com deficiência intelectual.

EVIDÊNCIAS LONGITUDINAIS POSTERIORES

A pesquisa realizada depois desse estudo ampliou consideravelmente a compreensão dos preditores da alfabetização e do desenvolvimento posterior da leitura.

Um estudo longitudinal investigou a estabilidade de habilidades relacionadas à leitura e sua capacidade de predizer o desenvolvimento posterior, acompanhando 324 participantes avaliados em média aos dez anos e reavaliados cerca de cinco anos e meio depois, em média aos 16 anos (Hulslander et al., 2010).

Foram investigadas consciência fonêmica, decodificação fonológica, nomeação rápida e QI. Depois de controlar o desempenho inicial de leitura, o QI aos dez anos foi o único preditor significativo do desenvolvimento posterior da compreensão leitora aos 16 anos, explicando cerca de 13% da variância da compreensão final além do que já era explicado pela compreensão inicial.

O reconhecimento de palavras e a escrita apresentaram estabilidade longitudinal muito elevada, deixando pouca variância residual a ser explicada pelos demais preditores.

Esses resultados sugerem que o peso relativo das habilidades cognitivas gerais aumenta quando o desfecho investigado deixa de ser a aquisição inicial do código e passa a ser o desenvolvimento posterior da compreensão leitora.

É necessário, entretanto, considerar que o controle estatístico do desempenho inicial de leitura também remove parte da variância associada aos efeitos anteriores das habilidades fonológicas. A ausência de contribuição adicional dessas habilidades não demonstra que tenham perdido sua importância causal para o desenvolvimento.

Dois estudos investigaram os preditores da alfabetização em diferentes ortografias alfabéticas, incluindo inglês, espanhol, tcheco e eslovaco (Caravolas et al., 2012, 2013). Os estudos identificaram três preditores longitudinais particularmente importantes: consciência fonêmica, conhecimento das correspondências entre letras e sons e nomeação automatizada rápida.

Embora a velocidade de aquisição da leitura variasse entre ortografias, a importância desses preditores mostrou padrões semelhantes. A memória verbal de curto prazo não apresentou contribuição independente consistente.

Esses resultados sugerem que alguns mecanismos fundamentais da alfabetização são compartilhados entre sistemas alfabéticos, apesar das diferenças de consistência ortográfica.

Também qualificam a interpretação dos resultados de Shatil e Share. A contribuição relativamente pequena da consciência fonológica depois do controle de outros processos não pode ser generalizada para todas as ortografias transparentes.

Um estudo longitudinal norueguês, iniciado aos quatro anos de idade e estendido até os nove anos, identificou duas trajetórias principais de desenvolvimento da compreensão leitora (Hjetland et al., 2019).

Uma trajetória estava relacionada à aprendizagem do código escrito, incluindo consciência fonêmica, conhecimento de letras e nomeação rápida, que chegavam à compreensão por meio da decodificação. A outra estava relacionada ao desenvolvimento da linguagem oral, abrangendo vocabulário, gramática, compreensão oral e memória de trabalho verbal.

Essas trajetórias convergiam para a compreensão leitora, mas apresentavam características desenvolvimentais parcialmente diferentes. A trajetória da linguagem oral mostrou maior estabilidade, enquanto a trajetória associada à aprendizagem do código foi menos estável ao longo do desenvolvimento. O estudo também mostrou que a linguagem oral aos quatro anos estava fortemente relacionada às próprias habilidades do código e influenciava a decodificação de forma indireta (Hjetland et al., 2019).

Esse resultado sugere uma explicação mais específica para o aumento da associação entre inteligência e compreensão leitora nas idades posteriores. O fator proximal pode não ser o QI global, mas a proficiência linguística e a capacidade de construir, integrar e utilizar representações semânticas progressivamente complexas.

A MUDANÇA DOS PREDITORES AO LONGO DO DESENVOLVIMENTO

Outros trabalhos recentes sugerem que as habilidades envolvidas na identificação de palavras modificam sua importância relativa à medida que a leitura se desenvolve.

Um estudo longitudinal com 62 crianças aprendendo a ler em português europeu investigou a contribuição do conhecimento dos sons de grafemas complexos para a fluência de leitura entre o segundo e o terceiro ano escolar (Fernandes et al., 2024). Os resultados mostraram que esse conhecimento predizia o desenvolvimento da fluência mesmo depois de controlar inteligência não verbal, vocabulário, memória verbal e consciência fonêmica. Nesse modelo, a consciência fonêmica não apresentou contribuição adicional significativa.

O resultado reforça a necessidade de diferenciar a capacidade de analisar conscientemente os fonemas da fala e o conhecimento efetivo das correspondências entre grafemas e fonemas, incluindo padrões ortográficos mais complexos.

Outro estudo acompanhou 440 crianças falantes de hebraico desde a educação infantil, com avaliações posteriores no primeiro e no quarto ano escolar (Cohen-Mimran & Share, 2025).

No primeiro ano, a consciência fonológica apresentava uma contribuição muito mais importante do que o conhecimento morfolexical para a fluência de leitura. No quarto ano, entretanto, a contribuição da consciência fonológica diminuía consideravelmente, enquanto o conhecimento morfolexical adquiria maior importância, tanto para a leitura de palavras em escrita vocalizada quanto não vocalizada, com efeito particularmente forte na escrita não vocalizada, que é mais opaca.

Esse resultado sugere uma reorganização desenvolvimental dos processos responsáveis pela identificação de palavras. A aprendizagem inicial depende fortemente do processamento fonológico e das correspondências entre escrita e fala. Com o aumento da experiência, as representações ortográficas, lexicais e morfológicas passam a contribuir de maneira crescente para a fluência.

Um estudo que acompanhou 126 crianças canadenses entre o terceiro e o quinto ano escolar também investigou as contribuições da consciência fonológica, da nomeação rápida e da consciência morfológica para diferentes habilidades de leitura (Kirby et al., 2025).

Os resultados mostraram contribuições dos três conjuntos de habilidades para diferentes aspectos do desenvolvimento, destacando a importância da consciência morfológica para a compreensão leitora e da nomeação rápida para as medidas de velocidade de leitura.

Esses achados não significam que a consciência fonológica deixe de participar da leitura depois da alfabetização. Indicam que sua contribuição passa a coexistir com conhecimentos ortográficos, lexicais, morfológicos e semânticos cada vez mais elaborados.

Um estudo longitudinal brasileiro, que acompanhou 83 estudantes do primeiro ao terceiro ano, também identificou a contribuição da consciência fonológica e da nomeação automatizada rápida para leitura e escrita (Silva et al., 2025). A consciência fonêmica foi um preditor forte de leitura e escrita ao longo dos três anos. A nomeação rápida não alfanumérica se associou à leitura de palavras, enquanto a nomeação rápida alfanumérica ganhou influência com o tempo e predisse a compreensão de sentenças e a escrita nos anos seguintes.

Esses resultados são relevantes porque aproximam a discussão das características do português brasileiro e reforçam a necessidade de considerar separadamente decodificação, fluência e compreensão.

INTELIGÊNCIA, CONSCIÊNCIA FONOLÓGICA E LEITURA NA DEFICIÊNCIA INTELECTUAL

As investigações realizadas especificamente com estudantes com deficiência intelectual são particularmente importantes para verificar até que ponto os resultados obtidos na população geral podem ser generalizados.

Um estudo longitudinal acompanhou 129 crianças com deficiência intelectual leve ou moderada, inicialmente entre seis e oito anos de idade (Sermier Dessemontet & de Chambrier, 2015). Os pesquisadores avaliaram habilidades fonológicas e conhecimentos sobre letras e sons, acompanhando o desenvolvimento da leitura durante os dois anos escolares seguintes.

Os resultados mostraram que a consciência fonológica e o conhecimento das correspondências entre letras e sons prediziam progressos em leitura de palavras e pseudopalavras, mesmo depois do controle de QI, idade, vocabulário expressivo, linguagem oral e modalidade de escolarização.

Essas habilidades também apresentaram capacidade preditiva para o desenvolvimento da compreensão leitora.

O estudo oferece evidência importante de que os preditores específicos da aprendizagem alfabética continuam relevantes dentro de uma população caracterizada por limitações intelectuais gerais.

Uma metanálise posterior, publicada eletronicamente em 2025, reuniu 26 estudos, 27 amostras e 1.137 participantes com deficiência intelectual (Nilsson et al., 2025).

Os resultados mostraram que a decodificação apresentava correlação de aproximadamente 0,52 com consciência fonológica, 0,46 com memória fonológica, −0,44 com nomeação rápida, 0,34 com vocabulário e 0,30 com QI (Figura 3).

A associação entre consciência fonológica e decodificação foi, portanto, mais forte do que a associação entre QI e decodificação.

Figura 3. Correlações médias entre habilidades cognitivas e linguísticas e a decodificação em pessoas com deficiência intelectual. Fonte: elaborado com os dados de Nilsson et al. (2025).

A Figura 3 permite visualizar dois aspectos desse padrão. O primeiro é que as habilidades fonológicas, isto é, consciência fonológica, memória fonológica e nomeação rápida, são as que mais se associam à decodificação. O segundo é que o vocabulário, que reflete em parte o conhecimento de mundo, e o QI apresentam associações menores, mas longe de nulas. Correlações entre 0,30 e 0,34 correspondem a cerca de 9% a 12% de variância compartilhada, uma contribuição modesta, porém real. O padrão é compatível com a ideia de que o ensino fônico deve estar no centro da alfabetização e, ao mesmo tempo, de que a aprendizagem do código se apoia em um repertório cognitivo, linguístico e cultural mais amplo.

Para a compreensão leitora, as correlações observadas foram aproximadamente 0,63 com decodificação, 0,51 com vocabulário, 0,43 com compreensão oral e 0,32 com QI.

Esses resultados são especialmente informativos. A consciência fonológica apresenta maior associação com a decodificação do que a inteligência geral, enquanto a compreensão leitora está fortemente associada à própria decodificação e às habilidades linguísticas. Da decodificação para a compreensão, a correlação com o vocabulário sobe de 0,34 para 0,51, enquanto a correlação com o QI praticamente não muda (0,30 e 0,32).

Esses coeficientes precisam ser lidos com cautela. São correlações bivariadas provenientes de estudos heterogêneos e não representam efeitos causais nem contribuições independentes obtidas em um único modelo longitudinal. Também não demonstram, por si sós, a eficácia de um método de ensino. Essa evidência vem dos estudos de intervenção discutidos anteriormente (Reichow et al., 2019; Sermier Dessemontet et al., 2019). Além disso, nas amostras de pessoas com deficiência intelectual a variação do QI é restrita pelo próprio critério diagnóstico, o que tende a reduzir as correlações com o QI. Por isso, a distância entre 0,52 e 0,30 deve ser lida como uma diferença de grau na força das associações. A metanálise também identificou limitações metodológicas e heterogeneidade entre estudos.

Apesar dessas ressalvas, os resultados são consistentes com a hipótese de que os mecanismos específicos da alfabetização possuem relevância própria, que não pode ser reduzida à inteligência geral.

Estudos de intervenção realizados com crianças com deficiência intelectual que necessitam de comunicação aumentativa e alternativa também oferecem evidências importantes.

Um estudo de casos múltiplos acompanhou sete crianças com deficiência intelectual, de seis a dez anos, que dependiam de comunicação aumentativa e alternativa, com linha de base, pós-teste, seguimento e avaliação da manutenção. A intervenção foi conduzida por professores na própria escola, e o ensino explícito e sistemático permitiu desenvolver habilidades de consciência fonológica e decodificação (Ulriksen et al., 2024).

Um estudo recente investigou 71 crianças com deficiência intelectual leve ou moderada, incluindo participantes que utilizavam recursos de comunicação aumentativa e alternativa. O estudo identificou contribuições da memória auditiva, do conhecimento grafema-fonema, da consciência fonológica e de uma medida de atenção visual para a competência inicial de leitura (Sarimski & Zentel, 2026).

Depois do controle dessas habilidades, a presença de linguagem oral não explicou variância adicional.

Embora esse último trabalho tenha delineamento transversal e inclua uma amostra relativamente pequena de usuários de comunicação alternativa, seus resultados reforçam a necessidade de não inferir incapacidade para alfabetização a partir das limitações comunicativas observadas.

QI, ALFABETIZAÇÃO E COMPREENSÃO LEITORA: UMA HIPÓTESE DESENVOLVIMENTAL

As evidências examinadas permitem formular uma hipótese sobre as mudanças na importância relativa dos diferentes processos cognitivos ao longo do desenvolvimento da literacia.

A aquisição inicial do princípio alfabético depende fortemente da consciência fonêmica, do conhecimento das correspondências grafema-fonema, da aprendizagem de relações entre símbolos e sons e da capacidade de utilizar essas relações para decodificar palavras novas.

À medida que a leitura se desenvolve, a automatização da decodificação passa a depender também da formação de representações ortográficas estáveis, da nomeação automatizada rápida, do reconhecimento de unidades maiores e da experiência acumulada com palavras escritas.

O reconhecimento lexical avançado envolve progressivamente conhecimentos ortográficos, lexicais e morfológicos. A compreensão de sentenças exige adicionalmente vocabulário, conhecimentos sintáticos e integração semântica. A compreensão de narrativas e textos expositivos depende de conhecimento prévio, capacidade inferencial, construção da coerência global, monitoramento da compreensão e representação das relações entre acontecimentos, personagens, causas e intenções.

Nesse processo, as habilidades cognitivas e linguísticas gerais tendem a apresentar maior contribuição, particularmente para o desenvolvimento da compreensão leitora (Figura 4).

Figura 4. Síntese interpretativa da literatura discutida neste texto sobre o papel do QI em cada etapa da leitura. Não corresponde a resultados de um único estudo.

Entretanto, é necessário distinguir o QI enquanto variável psicométrica das capacidades psicológicas responsáveis diretamente pela compreensão. O QI representa um indicador global de desempenho cognitivo, mas não constitui, por si só, uma explicação dos mecanismos utilizados para compreender textos.

É possível que a associação crescente entre QI e compreensão leitora reflita a importância de capacidades parcialmente representadas nos testes de inteligência, especialmente compreensão verbal, raciocínio, aprendizagem de conhecimentos, integração conceitual e capacidade inferencial.

A relação também pode ser recíproca. A leitura amplia o vocabulário, o conhecimento semântico, a familiaridade com estruturas discursivas e as oportunidades de aprendizagem. Portanto, as associações entre inteligência e leitura em idades posteriores podem refletir tanto a influência das capacidades cognitivas sobre a compreensão quanto os efeitos cumulativos da experiência de leitura sobre o próprio desenvolvimento cognitivo.

Essa hipótese é compatível com os chamados efeitos Mateus, segundo os quais diferenças iniciais no desenvolvimento da leitura podem produzir consequências cumulativas sobre o acesso à informação, a aprendizagem e as habilidades cognitivas (Stanovich, 1986).

A questão fundamental passa a ser compreender como as contribuições dos processos específicos e da inteligência geral se reorganizam durante o desenvolvimento.

ALFABETIZAÇÃO E LITERACIA: TRÊS DIMENSÕES COMPLEMENTARES

A distinção entre alfabetização inicial e desenvolvimento posterior da leitura oferece uma oportunidade para formular uma concepção mais abrangente da literacia.

Podemos reconhecer três grandes conjuntos de habilidades que interagem desde o início, embora suas contribuições relativas se modifiquem ao longo do desenvolvimento.

O primeiro conjunto compreende os processos psicolinguísticos específicos envolvidos na aprendizagem do código escrito. Entre eles estão a consciência fonêmica, o conhecimento das correspondências grafema-fonema, a aprendizagem ortográfica, a nomeação rápida e a automatização do reconhecimento de palavras. Esses processos apresentam importância particularmente grande durante a alfabetização inicial e continuam contribuindo para o desenvolvimento da fluência.

O segundo conjunto compreende os processos cognitivos e linguísticos gerais, como inteligência, memória de trabalho, funções executivas, vocabulário, sintaxe, conhecimento semântico e capacidade inferencial. Sua importância torna-se especialmente evidente quando a leitura passa a exigir integração de informações, compreensão de textos complexos e aquisição de novos conhecimentos.

O terceiro conjunto compreende processos sociocognitivos, sociopragmáticos, discursivos e culturais. Entre eles encontram-se as habilidades conversacionais, a compreensão pragmática da linguagem, o processamento discursivo, a compreensão de narrativas, a teoria da mente, o conhecimento cultural e a participação em práticas sociais de leitura.

Essas capacidades permitem que a leitura se transforme em instrumento de comunicação, aprendizagem, imaginação e participação cultural.

É importante reconhecer que as três dimensões não correspondem a etapas sucessivas rigidamente separadas. A criança pode desenvolver habilidades conversacionais, compreensão narrativa e conhecimento cultural antes de aprender a decodificar palavras. Essas aquisições contribuem para a compreensão posterior da linguagem escrita.

Da mesma forma, a alfabetização amplia as oportunidades de adquirir novos conhecimentos linguísticos e culturais, criando relações recíprocas entre os componentes da literacia.

OS FUNDAMENTOS SOCIOCOGNITIVOS E CULTURAIS DA BIBLIOTECA MÁGICA

A proposta da Biblioteca Mágica parte da premissa de que a literacia não consiste apenas em extrair informações de símbolos gráficos. Ela envolve a participação em práticas culturais nas quais as pessoas compartilham atenção, intenções, conhecimentos e interpretações.

Essa perspectiva aproxima a neuropsicologia da leitura das contribuições de Michael Tomasello para a compreensão do desenvolvimento sociocognitivo humano (Tomasello, 1999, 2019).

A linguagem e as atividades simbólicas desenvolvem-se em contextos de interação social, atenção conjunta, agência compartilhada e transmissão cultural. Desde cedo, a criança participa de atividades comunicativas nas quais os adultos procuram orientar sua atenção, compartilhar conhecimentos e atribuir significados aos acontecimentos.

As interações conversacionais constituem oportunidades fundamentais para aprender a coordenar perspectivas, acompanhar intenções comunicativas, compreender pressupostos compartilhados e organizar informações em sequências discursivas.

As narrativas ampliam essas oportunidades. Ao escutar histórias, a criança precisa acompanhar personagens e acontecimentos, estabelecer relações temporais e causais, interpretar intenções e emoções e integrar informações que não estão imediatamente disponíveis na situação perceptiva.

A compreensão narrativa envolve, portanto, a coordenação de múltiplos processos cognitivos e sociocognitivos. Entre eles encontram-se o conhecimento de esquemas narrativos, a organização da macroestrutura textual, a realização de inferências, a representação de estados mentais e a utilização de conhecimentos sobre o mundo social.

A leitura amplia enormemente o alcance dessas experiências. Por meio da linguagem escrita, a criança passa a ter acesso a acontecimentos, conhecimentos, personagens e perspectivas que ultrapassam o ambiente físico e social imediato.

A literacia pode, assim, ser compreendida como uma tecnologia cultural que expande as possibilidades de participação em formas de comunicação e cognição compartilhada.

Essa concepção permite articular a aprendizagem do código alfabético à aquisição de competências discursivas e sociocognitivas.

A Biblioteca Mágica procura promover essas duas dimensões. Por um lado, oferece procedimentos explícitos para desenvolver as habilidades necessárias à alfabetização. Por outro, utiliza histórias, personagens, conversações, narrativas e conhecimentos culturais para ampliar as competências que sustentam a compreensão e a utilização significativa da linguagem escrita.

A proposta também atribui importância à ensinagem, entendida como uma atividade de construção compartilhada do conhecimento. A aprendizagem não depende apenas da exposição aos materiais, mas da participação em interações nas quais adultos e crianças compartilham objetivos, atenção, interpretações e procedimentos.

Nesse contexto, o professor, o terapeuta ou o mentor não se limita a apresentar estímulos e avaliar respostas. Ele procura identificar o que a criança já compreende, quais relações ainda precisa construir e quais formas de apoio podem favorecer novas aquisições.

O ensino explícito do princípio alfabético e o desenvolvimento das competências sociocognitivas são componentes complementares de um programa de literacia.

A IMPORTÂNCIA DAS HABILIDADES CONVERSACIONAIS E DISCURSIVAS

Uma implicação importante desse modelo é a necessidade de conferir maior atenção às habilidades conversacionais e discursivas, que frequentemente recebem menos destaque nos programas tradicionais de alfabetização.

A compreensão de textos pressupõe o conhecimento das convenções utilizadas para organizar e interpretar discursos. O leitor precisa identificar o assunto, acompanhar as referências aos participantes, reconhecer relações entre proposições, integrar informações explícitas e implícitas e construir uma representação coerente do conteúdo.

Nas narrativas, essas operações envolvem reconhecer o cenário, o acontecimento desencadeador, o problema, as respostas internas dos personagens, seus planos, suas tentativas de ação, as consequências e os desfechos.

A criança também precisa compreender relações entre intenções, crenças, emoções e comportamentos. A teoria da mente contribui para interpretar conflitos entre personagens, situações de engano, mal-entendidos e acontecimentos cujo significado depende da diferença entre perspectivas.

As habilidades conversacionais fornecem importantes oportunidades de aprendizagem desses processos. Durante as conversas, as crianças aprendem a acompanhar tópicos, respeitar relações de relevância, interpretar implicaturas, solicitar esclarecimentos, explicar acontecimentos e considerar o conhecimento compartilhado entre interlocutores.

A participação em conversas elaborativas sobre histórias e experiências pessoais também contribui para o desenvolvimento da organização narrativa e do raciocínio autobiográfico.

Essas habilidades constituem recursos importantes para a compreensão da linguagem escrita, embora não sejam suficientes, isoladamente, para produzir a alfabetização.

Consequentemente, a Biblioteca Mágica procura ampliar o repertório de experiências discursivas da criança por meio de atividades de leitura compartilhada, conversação, reconstrução de histórias, formulação de hipóteses, interpretação de personagens e discussão de acontecimentos.

A ficção oferece uma oportunidade particularmente importante para desenvolver esses processos. Por meio das narrativas, a criança pode conhecer situações que ultrapassam sua experiência imediata, examinar perspectivas alternativas, simular acontecimentos e ampliar seu conhecimento sobre relações sociais e culturais.

A compreensão de textos literários não depende apenas da capacidade de decodificar palavras. Ela exige conhecimentos linguísticos, esquemas narrativos, inferências e familiaridade com situações humanas que frequentemente não fazem parte da experiência cotidiana do leitor.

Por essa razão, o desenvolvimento do conhecimento cultural constitui uma dimensão essencial da intervenção.

O CONHECIMENTO CULTURAL COMO COMPONENTE DA LITERACIA

O conhecimento cultural desempenha um papel fundamental na compreensão de textos. O leitor interpreta as informações novas a partir dos conhecimentos que já possui sobre objetos, acontecimentos, práticas sociais, instituições e relações humanas.

Uma criança que dispõe de repertório cultural restrito pode decodificar corretamente todas as palavras de um texto e, ainda assim, encontrar dificuldades importantes para compreender seu significado.

A compreensão de uma história sobre navegação, por exemplo, depende parcialmente de conhecimentos sobre barcos, viagens marítimas, tempestades, mapas e relações entre tripulantes. Um relato histórico exige informações sobre épocas, instituições, costumes e acontecimentos. Uma narrativa de aventura pode pressupor conhecimentos sobre lealdade, traição, autoridade, justiça, perigo e cooperação.

Esses conhecimentos oferecem os esquemas conceituais necessários para organizar as informações e gerar inferências.

A ampliação do repertório cultural contribui, portanto, para a compreensão leitora e, simultaneamente, para o desenvolvimento da linguagem oral, da imaginação e da participação social.

Essa perspectiva possui implicações especialmente importantes para crianças com deficiência intelectual ou provenientes de ambientes com oportunidades culturais limitadas. A instrução não deve restringir-se ao ensino de habilidades instrumentais ou conteúdos imediatamente funcionais. É necessário proporcionar acesso sistemático à literatura, às artes, à história, à ciência e a outras formas de conhecimento cultural.

A Biblioteca Mágica procura valorizar esse acesso, utilizando a ficção e outras produções culturais como instrumentos de desenvolvimento cognitivo e sociocognitivo.

A experiência com histórias também pode ampliar a motivação para a leitura. Quando a criança descobre que os textos oferecem acesso a personagens, acontecimentos e conhecimentos interessantes, a alfabetização deixa de representar apenas uma exigência escolar e passa a constituir um instrumento para alcançar objetivos pessoais e culturais.

Isso cria oportunidades para relações recíprocas entre motivação, prática de leitura, desenvolvimento da fluência e aquisição de conhecimentos.

O ENSINO DOS COMPONENTES DA LITERACIA DEVE COMEÇAR ANTES DA ALFABETIZAÇÃO ESTAR CONCLUÍDA

Uma consequência pedagógica fundamental dessa concepção é que o desenvolvimento da compreensão narrativa, da capacidade inferencial, do conhecimento cultural e das habilidades discursivas não precisa aguardar a conclusão da alfabetização.

Essas capacidades podem ser trabalhadas por meio da linguagem oral, da leitura compartilhada, da conversação e de outras atividades mediadas.

Uma criança que ainda não consegue decodificar um texto pode compreender histórias narradas oralmente, discutir as intenções dos personagens, reconstruir sequências de acontecimentos e participar de atividades de interpretação.

Da mesma forma, crianças com dificuldades importantes de linguagem expressiva podem participar de atividades de compreensão e aprendizagem mediante adaptações apropriadas, incluindo recursos de comunicação aumentativa e alternativa.

O ensino dos componentes da literacia pode, portanto, ocorrer em paralelo. Enquanto a instrução fônica desenvolve a decodificação, outras atividades promovem vocabulário, sintaxe, inferências, habilidades discursivas e conhecimento cultural.

A importância dessa abordagem torna-se ainda maior quando se considera que as crianças com maiores dificuldades de alfabetização podem apresentar um acesso reduzido à experiência de leitura independente. Se o desenvolvimento da compreensão e do conhecimento cultural depender exclusivamente da leitura autônoma, essas crianças correm o risco de acumular desvantagens progressivas.

O ensino mediado permite reduzir parcialmente esse risco, oferecendo oportunidades de aprendizagem cultural e discursiva enquanto as habilidades de decodificação estão sendo adquiridas.

POSSIBILIDADE DE ALFABETIZAÇÃO E EXTENSÃO DO DESENVOLVIMENTO POSTERIOR

A experiência clínica com crianças e adolescentes com deficiência intelectual recomenda distinguir duas questões frequentemente confundidas.

A primeira refere-se à possibilidade de adquirir o princípio alfabético e desenvolver habilidades de decodificação. As evidências disponíveis demonstram que muitas pessoas com deficiência intelectual podem alcançar esse objetivo, embora existam diferenças importantes na velocidade de aprendizagem, na quantidade de instrução necessária e nos níveis de desempenho atingidos.

A segunda questão refere-se à extensão do desenvolvimento posterior da literacia. Até que ponto a criança poderá compreender textos complexos, realizar inferências, adquirir conhecimentos por meio da leitura e utilizar autonomamente a linguagem escrita?

Essa segunda questão depende de um conjunto mais amplo de capacidades cognitivas, linguísticas, discursivas e culturais, além das oportunidades de ensino e participação social.

O primeiro erro educacional consiste em utilizar as limitações relacionadas à compreensão e ao desenvolvimento posterior da literacia para justificar a ausência de ensino do princípio alfabético.

O segundo erro consiste em considerar a alfabetização mecânica como objetivo suficiente, deixando de promover as competências necessárias para que a criança possa compreender e usufruir da linguagem escrita.

A proposta da Biblioteca Mágica procura evitar ambos os erros.

A deficiência intelectual pode influenciar a velocidade, a extensão e a complexidade das aprendizagens. Entretanto, essas limitações não autorizam presumir incapacidade para alfabetização com base exclusivamente no diagnóstico ou no QI.

Também não é adequado prometer alfabetização plena a todos os estudantes independentemente de suas características. O prognóstico deve ser construído a partir de avaliações individualizadas e, sobretudo, das respostas observadas durante oportunidades adequadas de ensino.

A resposta à intervenção oferece informações sobre o potencial de aprendizagem que uma medida estática de inteligência não consegue fornecer isoladamente.

IMPLICAÇÕES PARA A AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA E A PESQUISA CLÍNICA

Uma agenda de pesquisa particularmente relevante consiste em investigar sistematicamente a aprendizagem da leitura em adolescentes com deficiência intelectual que permaneceram analfabetos durante muitos anos de escolarização.

A experiência clínica sugere que alguns desses adolescentes conseguem adquirir habilidades de decodificação em períodos relativamente curtos, quando recebem instrução fônica sistemática. A documentação desses resultados poderia contribuir para esclarecer os mecanismos responsáveis pela aprendizagem e avaliar criticamente a adequação das oportunidades educacionais anteriormente oferecidas.

Um estudo prospectivo poderia começar pela avaliação do QI verbal e não verbal, da consciência fonêmica, do conhecimento das letras, da memória fonológica, da nomeação automatizada rápida e da aprendizagem de correspondências novas entre símbolos e sons.

A avaliação inicial também deveria incluir medidas de leitura de palavras e pseudopalavras, compreensão oral, vocabulário, conhecimentos sobre a escrita e habilidades discursivas.

Durante a intervenção, seria importante registrar o número de sessões, a duração da instrução, os procedimentos empregados e a evolução do desempenho em tarefas de decodificação.

A utilização de palavras não ensinadas e pseudopalavras permitiria avaliar a generalização do princípio alfabético, distinguindo-a da simples memorização de itens treinados.

Avaliações posteriores poderiam acompanhar a manutenção das aprendizagens, o desenvolvimento da fluência, a compreensão de sentenças, a compreensão narrativa e o uso funcional da leitura.

Uma série de casos com medidas repetidas e sondagens de generalização já representaria uma contribuição relevante. Delineamentos de linha de base múltipla entre participantes poderiam fortalecer as inferências sobre os efeitos da intervenção.

A hipótese principal seria que as habilidades fonológicas e de aprendizagem grafema-fonema apresentam contribuição importante para a taxa de aquisição da decodificação, independentemente do QI, enquanto a inteligência geral e as habilidades linguísticas apresentam contribuições relativamente maiores para o desenvolvimento posterior da compreensão leitora.

Uma hipótese complementar seria que a qualidade e a intensidade do ensino moderam as relações entre capacidade intelectual, habilidades específicas e resultados de aprendizagem.

Essa formulação desloca a investigação de uma perspectiva exclusivamente prognóstica para outra que considera a modificabilidade do desempenho em função das condições de instrução.

A pergunta central deixa de ser apenas quanto uma criança pode aprender em razão de suas características cognitivas e passa a incluir o que acontece quando ela recebe procedimentos de ensino apropriados.

IMPLICAÇÕES EDUCACIONAIS E ÉTICAS

As evidências discutidas possuem consequências importantes para a educação de estudantes com e sem deficiência intelectual.

A alfabetização deve constituir um objetivo explícito, sistemático e continuamente avaliado. O fracasso em adquirir a leitura não deve ser aceito como uma consequência inevitável da deficiência intelectual sem que tenham sido oferecidas oportunidades adequadas de aprendizagem.

A progressão escolar, por si só, não demonstra desenvolvimento das habilidades acadêmicas. É necessário acompanhar efetivamente aquilo que os estudantes aprendem, identificar dificuldades e modificar os procedimentos quando os resultados são insuficientes.

A ausência de alfabetização em adolescentes que frequentaram a escola durante muitos anos merece investigação cuidadosa. Em alguns casos, poderá refletir limitações individuais importantes. Em outros, poderá indicar inadequação dos procedimentos pedagógicos, intensidade insuficiente da instrução ou expectativas educacionais excessivamente reduzidas.

Quando uma habilidade estava ao alcance do estudante, mas não foi ensinada adequadamente, o problema ultrapassa os limites da neuropsicologia individual e assume uma dimensão institucional e ética.

Essa questão não se restringe à deficiência intelectual. O princípio de que as oportunidades de aprendizagem devem ser avaliadas e aperfeiçoadas a partir das respostas dos estudantes aplica-se a todas as crianças.

A escola precisa distinguir frequência, participação e progressão administrativa da aprendizagem efetivamente alcançada.

Ao mesmo tempo, a promoção da literacia não pode limitar-se à aquisição das habilidades instrumentais de leitura. É necessário oferecer oportunidades de desenvolvimento linguístico, discursivo, sociocognitivo e cultural, de modo que os estudantes possam utilizar a linguagem escrita para compreender o mundo e participar da vida social.

CONCLUSÃO

A literatura científica e a experiência clínica convergem para uma conclusão importante: o QI não constitui um indicador suficiente para determinar a possibilidade de alfabetização. A aquisição inicial da leitura depende fortemente de habilidades relacionadas ao processamento fonológico, à aprendizagem das correspondências grafema-fonema e à formação de representações ortográficas. Essas habilidades apresentam relativa especificidade, embora não sejam independentes dos demais processos cognitivos.

Ao longo do desenvolvimento, a leitura passa a depender de um conjunto progressivamente mais amplo de capacidades. O reconhecimento de palavras torna-se automatizado, os conhecimentos lexicais e morfológicos se expandem e a compreensão de textos exige integração semântica, inferências, conhecimentos prévios e monitoramento da coerência.

Nesse contexto, a associação entre QI e leitura pode tornar-se mais evidente, especialmente em medidas de compreensão. Entretanto, o QI representa apenas um indicador global de capacidades que precisam ser investigadas em seus mecanismos psicológicos específicos.

A compreensão leitora depende da linguagem, do conhecimento cultural e de habilidades sociocognitivas e discursivas que não podem ser reduzidas à inteligência geral.

Essas considerações sustentam uma concepção abrangente da literacia, segundo a qual a alfabetização e o desenvolvimento posterior da leitura dependem da interação entre processos psicolinguísticos específicos, habilidades cognitivas e linguísticas gerais e competências sociopragmáticas, discursivas e culturais.

A Biblioteca Mágica procura integrar essas dimensões em uma proposta de intervenção que combina ensino explícito do princípio alfabético com experiências de leitura compartilhada, conversação, compreensão narrativa, desenvolvimento inferencial e ampliação do conhecimento cultural.

A alfabetização e a compreensão não devem ser tratadas como objetivos concorrentes ou etapas rigidamente separadas. Enquanto a criança aprende a decodificar, ela também pode desenvolver capacidades de interpretar histórias, compreender estados mentais, adquirir conhecimentos e participar de práticas culturais.

Para as crianças com deficiência intelectual, essa perspectiva possui implicações particularmente importantes. As limitações cognitivas gerais podem influenciar a velocidade e a extensão das aprendizagens, mas não justificam a exclusão antecipada das oportunidades de alfabetização. O ensino precisa identificar aquilo que cada criança pode aprender e oferecer os procedimentos necessários para promover esse desenvolvimento.

A alfabetização abre as portas da cultura escrita. O desenvolvimento da literacia permite à criança atravessá-las, participar da cultura e ampliar progressivamente seus horizontes cognitivos e sociais.

Nesse sentido, aprender a ler não significa apenas dominar uma tecnologia simbólica. Significa adquirir um novo instrumento de participação na experiência cultural acumulada pela humanidade.

REFERÊNCIAS

Caravolas, M., Lervåg, A., Mousikou, P., Efrim, C., Litavský, M., Onochie-Quintanilla, E., Salas, N., Schöffelová, M., Defior, S., Mikulajová, M., Seidlová-Málková, G., & Hulme, C. (2012). Common patterns of prediction of literacy development in different alphabetic orthographies. Psychological Science, 23(6), 678–686. https://doi.org/10.1177/0956797611434536

Caravolas, M., Lervåg, A., Defior, S., Seidlová Málková, G., & Hulme, C. (2013). Different patterns, but equivalent predictors, of growth in reading in consistent and inconsistent orthographies. Psychological Science, 24(8), 1398–1407. https://doi.org/10.1177/0956797612473122

Cohen-Mimran, R., & Share, D. L. (2025). The phonology–morphology seesaw: Morpho-lexical knowledge replaces phonological awareness as the key predictor of word reading fluency by Grade 4. Reading Research Quarterly, 60(3), e70020. https://doi.org/10.1002/rrq.70020

Fernandes, S., Querido, L., & Verhaeghe, A. (2024). Learning to read in an intermediate depth orthography: The longitudinal role of grapheme sounding on different types of reading fluency. Behavioral Sciences, 14(5), 396. https://doi.org/10.3390/bs14050396

Fodor, J. A. (1983). The modularity of mind. MIT Press.

Frith, U. (1985). Beneath the surface of developmental dyslexia: Are comparisons between developmental and acquired disorders meaningful? In K. E. Patterson, J. C. Marshall, & M. Coltheart (Eds.), Surface dyslexia: Neuropsychological and cognitive studies of phonological reading (pp. 301–330). Lawrence Erlbaum.

Hjetland, H. N., Lervåg, A., Lyster, S.-A. H., Hagtvet, B. E., Hulme, C., & Melby-Lervåg, M. (2019). Pathways to reading comprehension: A longitudinal study from 4 to 9 years of age. Journal of Educational Psychology, 111(5), 751–763. https://doi.org/10.1037/edu0000321

Hulslander, J., Olson, R. K., Willcutt, E. G., & Wadsworth, S. J. (2010). Longitudinal stability of reading-related skills and their prediction of reading development. Scientific Studies of Reading, 14(2), 111–136. https://doi.org/10.1080/10888431003604058

Kirby, J. R., Deacon, S. H., Georgiou, G., Geier, K., Chan, J., & Parrila, R. (2025). Effects of morphological awareness, naming speed, and phonological awareness on reading skills from Grade 3 to Grade 5. Journal of Experimental Child Psychology, 253, 106188. https://doi.org/10.1016/j.jecp.2024.106188

Nilsson, K., Elwér, Å., Messer, D., & Danielsson, H. (2025). Cognitive and language abilities associated with reading in intellectual disability: A systematic review and meta-analysis. Remedial and Special Education. Publicação online antecipada. https://doi.org/10.1177/07419325251328644

Ratz, C., & Lenhard, W. (2013). Reading skills among students with intellectual disabilities. Research in Developmental Disabilities, 34, 1740–1748. https://doi.org/10.1016/j.ridd.2013.01.021

Reichow, B., Lemons, C. J., Maggin, D. M., & Hill, D. R. (2019). Beginning reading interventions for children and adolescents with intellectual disability. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2019(12), CD011359. https://doi.org/10.1002/14651858.CD011359.pub2

Sarimski, R., & Zentel, P. (2026). Predictors of foundational reading competence in speaking and non-speaking children with intellectual disabilities. Research in Developmental Disabilities, 176, 105351. https://doi.org/10.1016/j.ridd.2026.105351

Sermier Dessemontet, R., & de Chambrier, A.-F. (2015). The role of phonological awareness and letter-sound knowledge in the reading development of children with intellectual disabilities. Research in Developmental Disabilities, 41–42, 1–12. https://doi.org/10.1016/j.ridd.2015.04.001

Sermier Dessemontet, R., Martinet, C., de Chambrier, A.-F., Martini-Willemin, B.-M., & Audrin, C. (2019). A meta-analysis on the effectiveness of phonics instruction for teaching decoding skills to students with intellectual disability. Educational Research Review, 26, 52–70. https://doi.org/10.1016/j.edurev.2019.01.001

Shatil, E., & Share, D. L. (2003). Cognitive antecedents of early reading ability: A test of the modularity hypothesis. Journal of Experimental Child Psychology, 86(1), 1–31. https://doi.org/10.1016/S0022-0965(03)00106-1

Silva, P. B., Cardoso, A. D., Serpa, A. L. O., Engel de Abreu, P., & Macedo, E. C. (2025). Effects of phonological awareness and rapid automatized naming on reading and spelling in Brazilian children: A longitudinal study. Reading Psychology, 46(8). https://doi.org/10.1080/02702711.2025.2501576

Stanovich, K. E. (1986). Matthew effects in reading: Some consequences of individual differences in the acquisition of literacy. Reading Research Quarterly, 21(4), 360–407.

Tomasello, M. (1999). The cultural origins of human cognition. Harvard University Press.

Tomasello, M. (2019). Becoming human: A theory of ontogeny. Belknap Press of Harvard University Press.

Ulriksen, L. B., Bilet-Mossige, M., Cogo-Moreira, H., Øien, R. A., & Nordahl-Hansen, A. (2024). Reading instruction for students with intellectual disabilities who require augmentative and alternative communication: A multiple single case study with baseline, posttest, follow-up, and maintenance. Research in Developmental Disabilities, 151, 104790. https://doi.org/10.1016/j.ridd.2024.104790

Valtin, R. (2000). Ein Entwicklungsmodell des Rechtschreiblernens. In R. Valtin (Ed.), Rechtschreiben lernen in den Klassen 1–6: Grundlagen und didaktische Hilfen (pp. 17–22). Grundschulverband.

Williams, A. N. (2025). A review of reading interventions for students with moderate and severe intellectual disabilities. The Journal of Special Education, 59(1). https://doi.org/10.1177/00224669241268622

Anterior
Anterior

Amizades e relacionamentos amorosos de adultos com autismo

Próximo
Próximo

A VINGANÇA DO CASMURRÃO