Amizades e relacionamentos amorosos de adultos com autismo
Bianca Olímpio Vilela
Outubro de 2026
1. Amizades em adolescentes e jovens adultos autistas
A literatura sobre o desenvolvimento de amizades em pessoas autistas destaca a importância de diferenciar a aquisição de habilidades sociais da formação e manutenção de vínculos de amizade. Embora competências como iniciar conversas, reconhecer interesses compartilhados, compreender a reciprocidade e resolver conflitos possam facilitar as interações, seu desenvolvimento não garante, por si só, o estabelecimento de amizades satisfatórias e duradouras.
Entre as intervenções investigadas, destaca-se o Program for the Education and Enrichment of Relational Skills (PEERS), voltado ao ensino explícito de habilidades relacionadas à formação e manutenção de amizades. Ensaios clínicos com adolescentes e jovens adultos autistas identificaram melhorias no conhecimento social, na comunicação e na frequência de interações com pares, além de alguns resultados favoráveis relacionados à solidão. Entretanto, os efeitos sobre a qualidade e a estabilidade das amizades ainda são menos conhecidos (Laugeson et al., 2009; Gantman et al., 2012; Chien et al., 2023).
Esses achados sugerem que o desenvolvimento das amizades depende tanto das competências individuais quanto das oportunidades concretas de convivência. A participação em grupos com interesses semelhantes, atividades colaborativas e experiências regulares com outras pessoas pode favorecer o surgimento de vínculos espontâneos. Nesse contexto, o apoio familiar pode facilitar o acesso às experiências sociais, respeitando as preferências, a autonomia e o interesse da própria pessoa autista.
2. Relacionamentos amorosos e conjugais em adultos autistas
As pesquisas sobre relacionamentos amorosos em adultos autistas demonstram a importância de não confundir dificuldades de comunicação e interação social com ausência de interesse afetivo ou romântico. Em um estudo com 229 adultos autistas, Strunz et al. (2017) identificaram que aproximadamente 73% dos participantes já haviam vivenciado experiências amorosas, enquanto apenas 7% relataram não desejar um relacionamento. Esses percentuais, entretanto, dizem respeito à amostra investigada e não podem ser generalizados a toda a população autista.
A formação de relacionamentos amorosos envolve competências como reconhecer sinais de interesse, comunicar atração, realizar convites, compreender limites interpessoais e lidar com a rejeição. Por sua vez, a manutenção de vínculos íntimos envolve processos mais complexos, incluindo comunicação afetiva, negociação de expectativas, respeito à autonomia, resolução de conflitos e construção de projetos compartilhados.
A revisão sistemática de Yew et al. (2021) e os estudos posteriores destacam que a qualidade desses relacionamentos não depende exclusivamente das características da pessoa autista, mas também da compreensão mútua, da responsividade e do apoio oferecido pelo parceiro.
Intervenções como o PEERS para jovens adultos e o programa Ready for Love apresentaram resultados favoráveis em determinadas habilidades sociais e conhecimentos relacionados ao namoro. Contudo, ainda são limitadas as evidências de que essas intervenções promovam diretamente a formação ou a manutenção de relacionamentos conjugais satisfatórios e duradouros.
3. Como as amizades podem contribuir para os relacionamentos conjugais
Sob uma perspectiva desenvolvimental, as amizades íntimas podem constituir oportunidades importantes para a aprendizagem de competências interpessoais que também participam da construção de relacionamentos amorosos e conjugais. A convivência entre amigos permite compartilhar experiências pessoais, reconhecer necessidades diferentes das próprias, estabelecer relações de confiança, negociar limites e compromissos e resolver divergências.
As pesquisas longitudinais de Connolly, Furman e Konarski (2000) e os trabalhos de Furman e Shomaker (2008) identificaram associações entre experiências com pares, características das amizades e relacionamentos românticos posteriores. Esses resultados sugerem uma continuidade entre diferentes formas de relacionamento íntimo, embora amizades e relações amorosas apresentem características e exigências específicas.
A amizade também pode oferecer experiências de construção de objetivos compartilhados. Ao organizar uma atividade, realizar um projeto ou resolver um problema com outra pessoa, os indivíduos precisam considerar preferências distintas e coordenar decisões. Essas experiências apresentam semelhanças com processos envolvidos na vida conjugal, embora esta envolva outros compromissos e responsabilidades.
No contexto do autismo, essa compreensão oferece uma possibilidade relevante para o aconselhamento familiar: favorecer a construção de amizades significativas pode ampliar as oportunidades de vivenciar reciprocidade, intimidade emocional e negociação interpessoal, sem que o estabelecimento de relacionamentos amorosos seja considerado uma obrigação ou o objetivo final das amizades.
É necessário ressaltar, porém, que a relação causal entre desenvolver amizades íntimas e alcançar relacionamentos conjugais satisfatórios ainda não foi demonstrada especificamente na população autista. Trata-se de uma hipótese fundamentada na literatura desenvolvimental, que necessita de investigação empírica adicional.
Referências
Chien, Y.-L., Tsai, W.-C., Chen, W.-H., Yang, C.-L., Gau, S. S.-F., Soong, W.-T., Laugeson, E., & Chiu, Y.-N. (2023). Effectiveness, durability, and clinical correlates of the PEERS social skills intervention in young adults with autism spectrum disorder: The first evidence outside North America. Psychological Medicine, 53(3), 966–976. https://doi.org/10.1017/S0033291721002385
Connolly, J., Furman, W., & Konarski, R. (2000). The role of peers in the emergence of heterosexual romantic relationships in adolescence. Child Development, 71(5), 1395–1408. https://doi.org/10.1111/1467-8624.00235
Furman, W., & Shomaker, L. B. (2008). Patterns of interaction in adolescent romantic relationships: Distinct features and links to other close relationships. Journal of Adolescence, 31(6), 771–788. https://doi.org/10.1016/j.adolescence.2007.10.007
Gantman, A., Kapp, S. K., Orenski, K., & Laugeson, E. A. (2012). Social skills training for young adults with high-functioning autism spectrum disorders: A randomized controlled pilot study. Journal of Autism and Developmental Disorders, 42(6), 1094–1103. https://doi.org/10.1007/s10803-011-1350-6
Laugeson, E. A., Frankel, F., Mogil, C., & Dillon, A. R. (2009). Parent-assisted social skills training to improve friendships in teens with autism spectrum disorders. Journal of Autism and Developmental Disorders, 39(4), 596–606. https://doi.org/10.1007/s10803-008-0664-5
Strunz, S., Schermuck, C., Ballerstein, S., Ahlers, C. J., Dziobek, I., & Roepke, S. (2017). Romantic relationships and relationship satisfaction among adults with Asperger syndrome and high-functioning autism. Journal of Clinical Psychology, 73(1), 113–125. https://doi.org/10.1002/jclp.22319
Yew, R. Y., Samuel, P., Hooley, M., Mesibov, G. B., & Stokes, M. A. (2021). A systematic review of romantic relationship initiation and maintenance factors in autism. Personal Relationships, 28(4), 777–802. https://doi.org/10.1111/pere.12397