A VINGANÇA DO CASMURRÃO

Há muito tempo que eu implico com as figuras decorativas que as alunas gostam de colocar nas apresentações. O povo fica enfeitando posts do Instagram e apresentações de PowerPoint com figuras que não têm nada a ver com o conteúdo apresentado. Até posso ser um casmurrão por implicar com isso, mas tenho meus motivos. 

Ontem, no seminário do Instituto Letra & Número a Elisa apresentou um artigo que foi a minha vingança (Vicente et al., 2022). Os autores revisaram o conteúdo de resolução de problemas narrativos de livros didáticos de matemática da Espanha e Cingapura. Os resultados mostraram que nem na Espanha ou Singapura as atividades cobrem toda a gama de estrutura semântica dos problemas. Apenas os problemas mais fáceis são trabalhados. Essa é uma lacuna importante de conhecimento: a trajetória de desenvolvimento da habilidade de resolver problemas narrativos de acordo com sua estrutura semântica permanece, em grande parte, desconhecida. 

A minha vingança, entretanto, veio da análise das figuras. Os autores classificaram as figuras em decorativas (irrelevantes para a aritmética), informativas (sumarizam de modo visual os enunciados) e organizacionais (fornecem pistas quanto à estrutura semântica ou esquema subjacente, relevante para  resolução do problema). A maioria das figuras em Singapura informativa e organizacional. A maioria das figuras da Espanha é meramente decorativa. Se eu quero ver uma coisa bonita, eu olho um livro de artes plásticas. Não corro atrás de beleza visual em um livro de matemática. Sou um chato. 

Ficou tão fácil fazer figuras informativas e organizacionais com o ChatGPT. É só pedir e ele faz figuras relevantes para o conteúdo que se está querendo discutir.

Referência

Vicente, S., Verschaffel, L., Sánchez, R., & Múñez, D. (2022). Arithmetic word problem solving. Analysis of Singaporean and Spanish textbooks. Educational Studies in Mathematics, 111(3), 375-397.


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