O DESENVOLVIMENTO DO SELF NARRATIVO NO AUTISMO

Vitor Geraldi Haase
Instituto Letra & Número
Julho de 2025

Obs. O presente texto consiste de um resumo e algumas reflexões sobre o artigo “Narrative identity differences in autism”, de Allé e cols. (2025).

O self narrativo refere-se à capacidade de construir uma história de vida coerente que explique como nos tornamos quem somos, integrando eventos autobiográficos em uma narrativa estruturada que confere sentido, continuidade e identidade ao longo do tempo (McAdams, 2015; Conway, 2005). 

A construção do self narrativo envolve tanto o raciocínio autobiográfico, responsável por selecionar, organizar e interpretar experiências pessoais, quanto mecanismos sociocognitivos que permitem articular eventos dentro de expectativas culturais de biografia (Habermas & Bluck, 2000; Habermas & de Silveira, 2008).

Indivíduos autistas podem apresentar diferenças qualitativas e quantitativas no desenvolvimento do self narrativo. O estudo pioneiro de Allé et al. (2025) examinou adultos autistas e não autistas por meio da metodologia das histórias de vida desenvolvida por Habermas e colaboradores, analisando a coerência narrativa local (em nível de eventos individuais) e global (em toda a narrativa). Embora não tenham sido observadas diferenças nos indicadores locais de coerência temporal, causal-motivacional e temática, o grupo com autismo apresentou menor coerência global, sobretudo na dimensão causal-motivacional — sugerindo dificuldade em articular como eventos biográficos motivaram mudanças de personalidade ou valores ao longo do tempo. Esse comprometimento parece refletir processos autobiográficos menos capazes de explicar a evolução identitária, com dificuldades para elaborar pontos de virada ou para integrar memórias autodefinidoras ao self atual.

O estudo de Allé et al. (2025) evidenciou também que indivíduos autistas percebem tanto eventos originais quanto recordados como mais negativos, relatam menos conexões entre eventos e consequências e apresentam menores considerações retrospectivas e prospectivas em seus relatos. Tais padrões narrativos podem estar associados a um senso de coerência subjetivo mais frágil, menor clareza do autoconceito e maior rigidez cognitiva, que dificulta a integração de mudanças naturais ao longo da vida. Quando grandes rupturas ocorrem, a rigidez pode até servir como um amortecedor para manter a continuidade do self, mas ao custo de limitar a atualização dinâmica da identidade.

As dificuldades com a coerência global do self narrativo no autismo são consistentes com estudos prévios que apontam um foco mais marcante em detalhes perceptuais e factuais em memórias autobiográficas no autismo, em detrimento de sua integração social e emocional (Crane et al., 2010; Tanweer et al., 2010). A partir do modelo da “weak central coherence” (Frith & Happé, 1994), sugere-se que indivíduos autistas tendem a privilegiar fragmentos locais — muitas vezes auto-referenciais — em detrimento do significado global que costura experiências em uma trajetória identitária coesa. Assim, memórias pessoais podem ter alta centralidade individual sem necessariamente articular lições, mudanças ou papéis sociais que solidificem o self narrativo (Coutelle et al., 2020).

A literatura sugere ainda que enquanto indivíduos neurotípicos integram de forma mais espontânea eventos relacionais — envolvendo amigos, família, professores — em suas histórias de vida, atribuindo-lhes um papel central na construção do self, pessoas autistas tendem a relatar memórias com menor profundidade relacional e menor elaboração emocional (Crane et al., 2010). Isso se manifesta em narrativas nas quais fragmentos auto-referenciais (características próprias, conquistas individuais, rotinas) são predominantes, ao passo que fragmentos que destacam como vínculos sociais moldaram quem são surgem com menor frequência ou riqueza.

Portanto, uma hipótese plausível, derivada desse corpo de evidências, é que o self narrativo no autismo tendem a integrar proporcionalmente mais fragmentos auto-referenciais (focados no self isolado) do que fragmentos relacionais (que situam o self em redes interpessoais) (Figura 1). 

Figura 1 - O self narrativo pode ser construído tanto a partir de fragmentos mnemônicos auto-referenciais quanto relacionais. Uma hipótese plausível é que indivíduos autistas se utilizem mais de fragmentos auto-referenciais.

As dificuldades com a integração global do self narrativo de forma coerente podem estar relacionadas com a menor coerência causal-motivacional global quanto com o menor impacto de experiências sociais na definição da identidade ao longo do tempo. A Tabela 1 sumariza a hipótese diferencial da construção do self a partir de fragmentos auto-referenciais e relacionais.

Tabela 1 - Modelo hipotético da construção do self narrativo em indivíduos autistas e neurotípicos

As dificuldades com a coerência global no self narrativo de indivíduos autistas têm implicações importantes para intervenções clínicas e educacionais: pode ser necessário fomentar explicitamente a exploração de narrativas relacionais e o raciocínio autobiográfico social para apoiar o desenvolvimento de um self narrativo mais integrado, flexível e adaptado a mudanças ao longo da vida. Além disso, destaca-se a importância de cautela com abordagens terapêuticas que exijam alto grau de insight autobiográfico ou reorganização narrativa complexa, dada a possível vulnerabilidade do self narrativo no autismo.

REFERÊNCIAS

Allé, M. C., et al. (2025). Narrative identity differences in autism. Scientific Reports, 15(1), 16990.

Conway, M. A. (2005). Memory and the self. Journal of Memory and Language, 53(4), 594-628.

Coutelle, R., Goltzene, M. A., Bizet, E., Schoenberger, M., Berna, F., & Danion, J. M. (2020). Self-concept clarity and autobiographical memory functions in adults with autism spectrum disorder without intellectual deficiency. Journal of autism and developmental disorders, 50, 3874-3882.

Crane, L., Goddard, L., & Pring, L. (2010). Self-defining and everyday autobiographical memories in adults with autism spectrum disorders. Journal of Autism and Developmental Disorders, 40(3), 383-391.

Frith, U., & Happé, F. (1994). Autism: Beyond “theory of mind”. Cognition, 50(1-3), 115-132.

Habermas, T. & Bluck, S. (2000). Getting a life: The emergence of the life story in adolescence. Psychological Bulletin, 126(5), 748–769.

Habermas, T. & de Silveira, C. (2008). The development of global coherence in life narratives across adolescence: Temporal, causal, and thematic aspects. Developmental Psychology, 44(3), 707–721.

McAdams, D. (2015). The art and science of personality development. New York: Guilford.

Tanweer, T., Rathbone, C. J., & Souchay, C. (2010). Autobiographical memory, autonoetic consciousness, and identity in Asperger syndrome. Neuropsychologia, 48(4), 900-908.

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