Quando ensinadas, as crianças aprendem aritmética.

No dia 30 de junho de 2025, a psicóloga Elisa Braz Cota trouxe para o podcast da Biblioteca Mágica uma discussão provocadora: crianças com dificuldades de aprendizagem aprendem aritmética quando são ensinadas. O ponto de partida foi uma meta-análise de Charitaki e colegas (2021), que investigou os efeitos da instrução formal em matemática para esse grupo específico de estudantes. A íntegra da conversa está disponível neste link.

O que a pesquisa analisou?

A equipe de Charitaki revisou 20 estudos focados em crianças com dificuldades de aprendizagem da aritmética no início da vida escolar — especificamente, na transição entre a educação infantil e o ensino fundamental. Essas crianças estavam enquadradas no Nível 2 dos Modelos de Resposta à Intervenção (RTI), ou seja, suas dificuldades não se resolveram com o ensino regular em sala de aula e elas passaram a receber apoio mais intensivo, em pequenos grupos.

As intervenções analisadas trabalharam, isoladamente ou em combinação, diferentes domínios da aritmética, como:

  • Comparações de magnitude

  • Sequências numéricas

  • Adição e subtração

  • Valor posicional

Já as estratégias didáticas incluíram:

  • CRA (uso de representações Concretas, Representacionais e Abstratas)

  • Manipulativos (materiais concretos)

  • Feedback corretivo

  • Instrução explícita

  • Representações visuais

Os resultados: um recado direto para educadores

De forma geral, as intervenções geraram efeitos imediatos moderados, com magnitudes entre 0,50 e 0,60 desvios-padrão — o que está acima do ponto de corte considerado eficaz (0,40). Os efeitos foram consistentes entre as diferentes estratégias e domínios, com uma única exceção: o valor posicional, que apresentou um efeito mais discreto (g = 0,40).

Outro achado interessante: intervenções curtas, com até nove sessões, mostraram-se mais eficazes do que aquelas mais longas.

Esses dados reforçam a ideia proposta por Lehtinen et al. (2017) de que o ensino da aritmética, especialmente para crianças com dificuldades, se beneficia de um modelo de prática deliberada voltado para o desenvolvimento de perícia.

E o que ainda precisa avançar?

A revisão também revelou ausências importantes na literatura:

  1. Todos os estudos utilizaram estratégias explícitas. Nenhum analisou aprendizagem por descoberta ou atividades colaborativas.

  2. Foram avaliados apenas os efeitos imediatos, sem considerar manutenção ou generalização do aprendizado.

  3. Faltou articulação com modelos de trajetória de desenvolvimento da aritmética, como os propostos por Freitas et al. (2021) e Fritz et al. (2013), e ausência de discussões sobre os conceitos numérico-aritméticos fundamentais.

O caso do valor posicional é ilustrativo: esse é um conceito que exige uma compreensão mais avançada do número, o que sugere que intervenções eficazes neste domínio precisam considerar a sequência de desenvolvimento conceitual.

Outro ponto em aberto: ainda não está claro se habilidades como a comparação de magnitudes ajudam na aprendizagem de outros domínios da aritmética. Apesar do interesse na área, os resultados seguem inconclusivos.

Em resumo:

Mesmo com dificuldades, as crianças aprendem aritmética quando são ensinadas com estratégias estruturadas e baseadas em instrução. O desafio está em avançar o currículo com mais intencionalidade, respeitando as trajetórias de aprendizagem e integrando o ensino de conceitos, não apenas procedimentos.

REFERÊNCIAS

Charitaki, G., Tzivinikou, S., Stefanou, G., & Soulis, S. G. (2021). A meta-analytic synthesis of early numeracy interventions for low-performing young children. SN Social Sciences, 1(5), 105.

Freitas, F. R. de, Teixeira, L. B., Dias, J. G. R., Sbicigo, J. B., & Haase, V. G. (ano). Evidências de validade de conteúdo, critério e convergente da Tarefa de Problemas Aritméticos Narrativos (TPAN). In: Gomides, M. R. A., Lopes-Silva, J. B., Moura, R., Salles, J. F. & Haase, V. G. (2021). PRONUM3RO. Bateria de Avaliação do Processamento Numérico e Cálculo. São Paulo: Vetor.

Fritz, A., Ehlert, A., & Balzer, L. (2013). Development of mathematical concepts as basis for an elaborated mathematical understanding. South African Journal of Childhood Education, 3(1), 38-67.

Lehtinen, E., Hannula-Sormunen, M., McMullen, J., & Gruber, H. (2017). Cultivating mathematical skills: From drill-and-practice to deliberate practice. ZDM, 49, 625-636.


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