A CATEDRAL NEUROPSICOLÓGICA 

Autor:

Vitor Geraldi Haase

O diagnóstico e aconselhamento neuropsicológicos vão muito além de uma avaliação cumulativa, a qual situa o desempenho do cliente na curva normal. O diagnóstico neuropsicológico precisa de uma avaliação formativa, que indique os caminhos do desenvolvimento a ser trilhados pelo cliente, incorporando os resultados do diagnóstico à biografia da pessoa.

Diagnóstico sem aconselhamento é má prática. O neuropsicólogo precisa estar dotado de alto grau de teoria da mente de segundo grau, prevendo o impacto dos resultados para a experiência subjetiva do cliente. Esse tipo de abordagem ao diagnóstico e intervenção exige a construção de uma catedral neuropsicológica na cabeça do profissional. É como se fosse uma Catedral de Brasília com sete pilares, os quais são descritos a seguir.


Epidemiologia clínica

O neuropsicólogo precisa conhecer a epidemiologia clínica das doenças neurológicas e dos transtornos psiquiátricos. Precisa ter um amplo conhecimento sobre a definição, sintomas, critérios diagnósticos, fisiopatologia, prevalência, incidência, história natural, impacto biopsicossocial, história natural, resposta ao tratamento etc. das diversas condições de saúde com as quais trabalha.

Fenomenologia

O neuropsicólogo precisa ter um bom conhecimento da fenomenologia dos sintomas neuropsicológicos e psiquiátricos. Precisa ter capacidade de reconstruir a experiência subjetiva do paciente. Isso requer uma boa dose de teoria da mente de primeiro grau para ler a mente alheia. Antigamente, se falava em transferência e contratransferência. O diagnóstico é feito pela contratransferência. Ou seja, por aquilo que o clínico sente ao ouvir o paciente. Mas o clínico precisa ouvir a história do paciente e saber reconstruí-la de forma narrativa para que faça sentido. O diagnóstico jamais é feito por uma checklist de sintomas. As listas de sintomas constituem apenas critérios que se pretendem objetivos. O diagnóstico é feito quando o clínico experiencia o drama do cliente. Sem drama não tem sintoma. Sem drama tudo se esvazia de significado e se reduz a escores de testes ou de exames laboratoriais.

Desenvolvimento

O neuropsicólogo precisa ter uma ideia clara do que é normativo e do que não é normativo conforme a fase da vida na qual o cliente se encontra. Isso pode ser feito, por exemplo, considerando a medida em que o cliente está tendo sucesso nas tarefas do desenvolvimento de Havighurst. Ou considerando os estágios do desenvolvimento psicossocial de Erikson. Eu me formei na escola de Erikson.


Correlação estrutura-função

A correlação anátomo-clínica ou estrutura-função é o método da neuropsicologia. Não existe neuropsicologia sem localizacionismo, sem diagnóstico topográfico, sem correlação estrutura-função. O exercício da neuropsicologia consiste em inferir sobre a integridade anátomo-funcional de sistemas neurais a partir da observação sistemática do comportamento. O diagnóstico topográfico pode ser feito macroscopicamente usando um sistema de três eixos (látero-lateral, ântero-posterior, vertical) ou cinco dimensões (látero-lateral, ântero-posterior, vertical, dorsal-ventral, medial-lateral) de localização cerebral. O diagnóstico topográfico também pode ser feito no nível genético-molecular ou, ainda, através de modelos cognitivos.

Cognição

As medidas neuropsicológicas são, por natureza, indiretas. Elas não capturam diretamente os processos mentais, mas se fundamentam em uma rede nomológica — um conjunto articulado de inferências sobre a estrutura funcional de um determinado construto psicológico. Essa rede é construída gradualmente, com base em sucessivos estudos experimentais que, ao longo do tempo, modelam as relações entre os diversos componentes envolvidos.

Com base nesses modelos teóricos, os pesquisadores partem para a operacionalização dos construtos, ou seja, desenvolvem observações comportamentais – os conhecidos itens e testes – que devem refletir, de maneira homóloga, as relações descritas nos modelos cognitivos.

Assim, quando um neuropsicólogo “testa” a atenção, por exemplo, ele não está medindo esse processo como quem mede a altura ou o comprimento de um objeto. O que está em jogo é a testagem de hipóteses: busca-se verificar se o comportamento do paciente guarda homologia com um modelo cognitivo previamente estabelecido. O resultado, portanto, só ganha sentido quando interpretado à luz desse modelo. Se o profissional ignora o modelo ou não compreende sua lógica, então não está realmente medindo coisa alguma. 


Estatística e psicometria

O uso de testes padronizados e normalizados só faz sentido se o clínico possuir um sólido conhecimento de estatística e psicometria. Como não existem testes padronizados e normalizados para todos os construtos que precisam ser avaliados, ou para todas hipóteses que precisam ser testadas, os clínicos, frequentemente, precisam ser criativos. Mas a criatividade não é irrestrita. Muitas vezes, instrumentos ad hoc precisam ser desenvolvidos para testar uma hipótese. Mas o clínico precisa ter um bom conhecimento de psicometria e da metodologia de teste de hipóteses, de controle de variáveis para trabalhar dessa forma. Na psicologia comportamental e neuropsicologia, existe uma longa tradição de avaliação idiográfica, ou seja, de teste de hipóteses em experimentos com n = 1. O que garante o sucesso da empreitada é o controle de variáveis. Independentemente de haver testes padronizados e normatizados ou não, todo trabalho clínico deve ser conduzido como um teste de hipóteses. O diagnóstico é sempre diagnóstico diferencial. Hipóteses são formuladas pela história clínica e testes são conduzidos. As hipóteses cujos testes foram falsificados são eliminadas. As que não puderem ser falsificadas são retidas. Em neuropsicologia, as medidas são indiretas, constituem testes de hipóteses. Não há como “medir” nada sem saber a hipótese (construto) que está sendo testada. A iniciação científica e a pós graduação em senso estrito contribuem para desenvolver as habilidades de teste de hipótese. Infelizmente, muitas vezes os profissionais parecem esquecer o que aprenderam.


Psicoterapia

A interpretação cognitiva, fenomenológica e sociocultural é imprescindível. O perfil de funcionamento biopsicossocial precisa ser integrado à fenomenologia dos sintomas, ou seja, à forma como o sofrimento se manifesta na experiência subjetiva do paciente. Sem fenomenologia, não há clínica. 

Vivenciar sintomas é, por si só, uma experiência angustiante. Envolve mais do que simples desconforto: mobiliza emoções profundas e desestabiliza a percepção de si. Nesse contexto, uma biografia neuropsicológica pode oferecer à pessoa um sentido para sua vivência, permitindo que ela compreenda sua trajetória à luz de seus desafios e construa expectativas mais realistas sobre o próprio funcionamento.

As narrativas têm um papel organizador fundamental: elas estruturam a experiência emocional e, ao conduzir à resolução de um arco narrativo, geram reforço emocional positivo, muitas vezes com efeitos terapêuticos espontâneos. Não há, portanto, uma linha divisória clara entre avaliação e intervenção — toda avaliação já é, em alguma medida, uma forma de intervir.

Afinal, estamos lidando com vidas humanas. Tudo o que dizemos — ou deixamos de dizer — tem impacto. Reconhecer isso exige empatia cognitiva, ou seja, teoria da mente de segunda ordem: a capacidade de considerar como o outro interpreta o que pensamos sobre ele. Essa habilidade tem limites, mas funciona. É parte do que sustenta a continuidade da humanidade — e da neuropsicologia.

Sem fenomenologia, narrativa e teoria da mente de segunda ordem, a neuropsicologia perde seu rumo. São esses os alicerces que a conectam à experiência humana e à possibilidade de cuidado verdadeiro.

Como construir a catedral

Se você quiser rezar na Catedral de Brasília e maravilhar-se com os anjos esvoaçando sob os vitrais do teto, precisa viajar até lá. Se você quiser orar na catedral da neuropsicologia precisa construí-la na sua própria cabeça. 

A complexidade da catedral neuropsicológica torna sua construção uma tarefa complexa, uma jornada heróica (https://institutoletraenumero.squarespace.com/press/success-story-shirley-lk2ek-3xmwx-ebjnl-drna9). 

A formação em neuropsicologia é pós graduada e interdisciplinar. Um mentor com experiência na área ajuda e muito. Mas o mentor vai até certo ponto. A partir de uma determinada etapa a jornada heróica é solitária. Mas o mentor pode dar uma boa luz.

Se você teve paciência de ler esse textão até o final, o Programa de Mentoria de Excelência em Neuropsicologia do Instituto Letra & Número pode ser bem interessante. Você pode obter mais informações pelo WhatsApp (31) 7105-0316.

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