O que são Protonarrativas e como elas ajudam o bebê a organizar e compreender o mundo?

Bianca Olímpio Vilela
Maio de 2026

Existe um momento muito específico na brincadeira de “cadê-achou” em que o bebê parece prender a respiração por um instante. O adulto esconde o rosto, faz uma pequena pausa e, antes mesmo do reaparecimento, o corpo da criança já demonstra expectativa. O sorriso começa a surgir antecipadamente. Em poucos segundos, aconteceu uma sequência completa: aproximação, suspense, resolução e compartilhamento emocional.

Durante muito tempo, cenas como essa foram vistas apenas como interações afetivas simples do cotidiano. Nos últimos anos, porém, alguns pesquisadores do desenvolvimento infantil passaram a olhar para essas trocas de maneira mais cuidadosa. O que começou a chamar atenção é que muitas interações entre bebês e cuidadores parecem possuir uma organização temporal muito semelhante à estrutura de pequenas narrativas, mesmo antes do aparecimento da linguagem verbal (McGowan et al., 2026). Essas experiências têm sido chamadas de protonarrativas ou narrativas corporificadas. A ideia central é que o bebê participa, desde muito cedo, de sequências organizadas de atenção, emoção, movimento e reciprocidade. Ainda não existem palavras, mas já existe ritmo, antecipação, expectativa compartilhada e resolução emocional.

Um estudo recente que acompanhou interações entre mães e bebês aos 4, 7 e 10 meses observou justamente esse fenômeno (McGowan et al., 2026). Ao analisar brincadeiras, trocas de olhar, vocalizações e movimentos corporais, os pesquisadores perceberam que muitas dessas interações seguiam uma organização recorrente. Primeiro surgia um momento de contato e atenção compartilhada. Em seguida, a excitação emocional aumentava progressivamente até alcançar um pico de intensidade, seguido por um retorno gradual à calma. Em vários momentos, a interação lembrava a estrutura de uma pequena cena narrativa construída conjuntamente entre adulto e bebê.

Outro aspecto interessante apareceu ao longo do desenvolvimento. Conforme os bebês cresciam, essas sequências tornavam-se mais complexas e alcançavam com mais frequência momentos claros de clímax e resolução. Curiosamente, as interações também ficavam mais curtas. Os autores interpretam esse dado não como perda de interesse, mas como um sinal de maturidade na capacidade de engajamento social. Aos poucos, os bebês parecem se tornar mais ágeis para entrar, sustentar e encerrar esses ciclos interativos (McGowan et al., 2026).

As experiências que alcançavam resolução ou momentos mais intensos de reciprocidade estavam fortemente associadas a períodos maiores de afeto positivo tanto nos bebês quanto nas mães. Em outras palavras, não se tratava apenas de comunicação. Existia também um efeito importante de co-regulação emocional acontecendo dentro dessas trocas.

Esse ponto aparece de forma ainda mais ampla em uma revisão recente sobre narratividade incorporada no desenvolvimento infantil (McGowan & Delafield-Butt, 2022). Os autores defendem que o bebê aprende primeiro no corpo e na relação. Muito antes de organizar histórias verbalmente, a criança já começa a construir expectativas sobre o funcionamento das interações humanas através do ritmo, das pausas, da alternância de turnos, das expressões faciais, das vocalizações e dos movimentos compartilhados.

Talvez por isso brincadeiras repetitivas, músicas infantis e pequenas rotinas sociais tenham um efeito tão potente no desenvolvimento inicial. Muitas delas possuem uma estrutura bastante previsível: algo começa, cresce em intensidade, alcança um momento esperado e depois retorna ao equilíbrio. O bebê passa a antecipar emocionalmente essas sequências e, pouco a pouco, organiza uma percepção mais coerente do mundo social.

Os pesquisadores também sugerem que essas experiências possuem bases neurofisiológicas profundas (McGowan & Delafield-Butt, 2022). A co-regulação entre bebê e cuidador envolve sistemas relacionados ao tronco cerebral e ao sistema nervoso autônomo, responsáveis pela integração entre percepção, movimento, excitação fisiológica e estados afetivos. Isso ajuda a compreender por que certas interações parecem acalmar, organizar ou desregular o bebê corporalmente.

As implicações desse tipo de pesquisa são bastante amplas. No autismo, por exemplo, alguns autores levantam a hipótese de que dificuldades muito precoces de sincronização corporal e reciprocidade rítmica possam participar das alterações posteriores de comunicação e interação social (McGowan & Delafield-Butt, 2022). Em vez de pensar apenas em linguagem verbal, essa perspectiva chama atenção para aspectos como ritmo compartilhado, musicalidade da interação, coordenação corporal e previsibilidade social.

Na educação infantil e nas intervenções clínicas, essa compreensão também modifica a forma de pensar o desenvolvimento. Atividades passam a fazer mais sentido quando organizadas como experiências completas, com introdução, desenvolvimento, envolvimento emocional e fechamento. Muitas crianças pequenas parecem se beneficiar especialmente de experiências que possuem continuidade, previsibilidade e resolução clara.

Talvez uma das contribuições mais interessantes dessas pesquisas seja justamente ampliar a ideia de narrativa. Antes de existir como linguagem, a narrativa já aparece como experiência vivida no corpo e na relação com o outro. No início da vida, contar histórias parece ter menos relação com palavras e muito mais com a possibilidade de compartilhar ritmos, expectativas, emoções e sentidos dentro de uma interação humana.

Referências:

McGowan, T., Væver, M., Krogh, M. T., Harder, S., & Delafield‐Butt, J. (2026). Narrative Development in Infant− Mother Interaction. Annals of the New York Academy of Sciences, 1555(1), e70192.

McGowan, T., & Delafield-Butt, J. (2022). Narrative as co-regulation: A review of embodied narrative in infant development. Infant Behavior and Development, 68, 101747.

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