AUTOCONTROLE NA PSICOLOGIA E PEDAGOGIA DE BRONSON ALCOTT

Vitor Geraldi Haase (com ajuda do ChatGPT)
Abril de 2026

INTRODUÇÃO

Amos Bronson Alcott (1799-1888), o pai de Louisa May Alcott (1832-1888), a autora de Mulherzinhas e Homenzinhos, foi um homem extraordinário. Ele pertenceu ao círculo de transcendentalistas de Massachusetts, era amissímo de Ralph Waldo Emerson e viveu muitos anos na cidade de Concor, sendo vizinho de Emerson, Thoreau, Hawthorne e outras figuras importantes da intelectualidade americana da primeira metade do século XIX.

Alcott foi o pedagogo da turma dos transcendentalistas, desenvolvendo uma filosofia educacional libertária, baseada no diálogo socrático, na valorização da individualidade, pensamento e imaginação da criança, na restrição às regras ao mínimo sensível, no desenvolvimento do caráter sob um pano de fundo de aversão à punição física e valorização da tradição cultural ocidental. Em muitos aspectos, Alcott foi um precursor da filosofia construtivista em educação, mas Alcott tinha profundo respeito e não desprezo pela herança ocidental.  A grande diferença é que Alcott não prezava a transmissão do conhecimento como objetivo principal, mas sim como veículo para a formação moral e navegação social.

Durante alguns anos, Alcott dirigiu a Temple School, um estabelecimento educacional em Boston, no qual procurou colocar suas idéias na prática. Entretanto, Alcott era um idealista, um homem pouco prático e o experimento educacional fracassou, não resistindo às controvérsias. Uma primeira controvérsia diz respeito ao fato de que ele era abolicionista e aceitou uma aluna negra, mas a gota d´água foi a publicação de “Conversations with children on the Gospels” (Alcott, 1836).

O livro resultou das conversações entre Alcott e as crianças, as quais foram registradas por Elizabeth Peabody (1804–1894), uma colaboradora sua. Segundo Emerson, Alcott era muito bom de papo, mas quando se punha a escrever era um desastre. As Conversações ilustram o método socático de Alcott e causaram controvérsia porque ele estava mais interessado em ouvir a opinião das crianças e estimulá-las a pensar do que em defender a ortodoxia. O livro foi muito criticado e os pais retiraram os meninos da escola, a qual precisou fechar. 

As idéias educacionais de Alcott inspiraram sua filha Louisa na elaboração da sua tetralogia de romances sobre Mulherzinhas e Homenzinhos, bem como em outras outras obras.

O presente texto é assim organizado. Inicialmente é transcrito o Capítulo XX das Conversações. (Os diálogos de Alcot com as crianças são apresentados em quadros). As duas seções são seguintes são as respostas do ChatGPT quando às controvérsias que cercaram a filosofia educacional de Alcott e sua atualidade psicológica e pedagógica.


CAPÍTULO XX - AUTOCONTROLE

Alcott trabalha a questão do autocontrole no Capítulo XX (Alcott, 1836) a partir do episódio das tentações de Jesus no deserto. Alcott começa a aula pergunta para as crianças se estão dispostas a pensar.

Sr. Alcott. Conseguem pensar hoje?
(Todos levantaram as mãos.)
Sobre o que foi a conversa da última vez?
Charles. As tentações de Jesus.
Sr. Alcott. Retomaremos o assunto hoje.
O Sr. Alcott releu…


A seguir, Alcott lê para as crianças uma síntese do episódio da Tentação de Jesus a partir dos três evangelhos que contam a história (Mateus iv. 1–11.  Marcos i. 12, 13.  Lucas iv. 1–13).


A Tentação de Jesus

E Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi conduzido pelo Espírito ao deserto. E imediatamente o Espírito o impeliu para o deserto, para ser tentado pelo diabo. E ali esteve no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Durante quarenta dias foi tentado pelo diabo. E nesses dias não comeu nada. E depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.

Então o tentador aproximou-se dele e disse: Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem pão. Manda que esta pedra se torne pão.

Mas Jesus respondeu: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.

Então o diabo o levou à cidade santa e o colocou sobre o pináculo do templo, e lhe disse: Se és o Filho de Deus, lançate daqui abaixo. Pois está escrito: Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, para que te guardem, e eles te sustentarão nas mãos, para que não tropeces em pedra alguma.

Jesus respondeu: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.

Novamente o diabo o levou a um monte muito alto e lhe mostrou todos os reinos do mundo e sua glória, num momento de tempo. E o diabo lhe disse: Todas estas coisas te darei, todo este poder e a glória deles; pois me foram entregues, e douos a quem quero. Portanto, se me adorares, se te prostrares e me adorares, tudo será teu.

Então Jesus respondeu: Retirate, Satanás, pois está escrito:

Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás.

Então o diabo o deixou, e quando o diabo terminou toda a tentação, afastouse dele por algum tempo.

E ele estava entre as feras, e os anjos o serviam. E eis que os anjos vieram e o serviram.



Seguem-se os diálogos sobre cada uma das tentações de Cristo.

Ideia de Tentação

Sr. Alcott. Qual é o significado da palavra tentar?

Charles. Quando coisas que não são suas são colocadas diante de você, elas o tentam.

Frederic. Se você quer fazer algo errado e quase não consegue evitar, então está sendo tentado.

Augustine. Não é necessário ter um desejo mau. Jesus foi tentado e nunca teve um desejo mau. Ele queria algo para comer, e isso não era errado.

George K. Se alguém encoraja um desejo mau em você, você está sendo tentado.

Joseph. Se alguém o incita a fazer o mal, ele o tenta.

Emma. Querer fazer o mal é uma tentação.

Ellen. Quando alguém tenta persuadilo de que aquilo que você sabe ser errado é certo, você é tentado.

Nathan. Penso que, se alguém lhe diz para fazer algo que você considera errado, e você o faz, então está sendo tentado.

George K. Seus apetites o tentam a fazer o mal.

Charles. Um bêbado é tentado dessa maneira.

Samuel R. E um bêbado tenta os outros.

Franklin. Depois que você já comeu o suficiente, e algo bom chega à mesa, você é tentado a comer demais.

Martha. Dois meninos podem entrar numa confeitaria, e um persuadir o outro a comprar algo, esperando que ele lhe dê um pouco.

Francis. Uma vez entrei numa mercearia com um menino, e ele pegou algumas passas de um pequeno barril, saiu, e depois eu não o vi mais.

Sr. Alcott. Você contou ao dono?

Frank A. Não; fiquei envergonhado por ele.

George K. Já vi um menino ser tentado a fazer o mal porque riram dele por fazer o que era certo.




Vaidade

Sr. Alcott. Essa é talvez a segunda tentação, que vem do amor ao elogio, do desejo de que os outros gostem de nós. As outras tentações mencionadas eram mais do corpo, como a primeira tentação de Jesus. Conseguem pensar em tentações que vêm da mente?

Frederic. A mente tenta a pessoa a se exibir.

Sr. Alcott. Quantos já foram tentados a fazer isso nesta sala de aula, enquanto conversavam?

(Josias e outros seis levantaram as mãos.)

Quando você foi tentado a fazer isso, Josias?

Josias. Quando cheguei aqui pela primeira vez, não recentemente.

Sr. Alcott. Quem sempre fala por amor à verdade, e não por exibição?

(Todos os outros se levantaram.)

Sr. Alcott. O que mais tenta a partir da mente?

Emma. Opiniões erradas.

Ellen. Maus sentimentos levam ao assassinato.

Edward J. Uma pessoa consegue levar outra a fazer o mal.

Sr. Alcott. O sofrimento é uma tentação para reclamar?

(Eles levantaram as mãos.)

Charles. Os senhores de escravos às vezes são tentados pelo poder que têm sobre seus escravos.

Outro. O dinheiro é uma tentação.




Subordinação de Si

Sr. Alcott. O que domina todas essas tentações?

George K. A consciência.

Sr. Alcott. Já existiu alguém em quem a consciência determinasse que corpo, mente e alma não fizessem o mal?

Emma. Sim; Jesus venceu todas as tentações.

Sr. Alcott. Ele venceu o mundo.

Emma. O mundo significa tentações.

Charles. O mundo significa coisas externas.

Sr. Alcott. O mundo significa tudo aquilo que tenta o espírito a afastar-se de sua própria lei. Vocês acham que o espírito puro pode ser tentado?

Os mais velhos. Jesus foi tentado.

Augustine. Ainda não decidimos se é Satanás ou nós mesmos que tentamos.

Sr. Alcott. O desejo, a facilidade de ceder, é Satanás.




Emblema dos Apetites e das Paixões

Sr. Alcott. O deserto pode ser emblema de quê?

Charles. Solidão.

Sr. Alcott. E as feras que estavam lá?

Charles. Paixões e apetites.

Sr. Alcott. É muito comum representar paixões por meio de animais; dizemos que alguém tem um coração de tigre; João chamou os governantes judeus de víboras.

Emma. Dizemos “inofensivo como uma pomba” — “manso como um cordeiro”.

Sr. Alcott. Algumas pessoas pensam que a criação animal foi feita para nos ensinar a tendência das diversas paixões. Em todas as nações existem fábulas nas quais as paixões são representadas umas contra as outras por meio de emblemas animais. Jesus foi para a solidão talvez para meditar sobre as paixões e pensar como cada uma delas tenta o espírito.

Registrador. E por qual princípio cada uma deve ser regulada.




Suporte Espiritual

Sr. Alcott. O que significa “jejuar e depois ter fome”?

Charles. A mente dele estava inicialmente tão excitada que não sentia fome.

Sr. Alcott. Sua mente estava tão tranquila, tão sustentada por Deus, que ele não precisava de alimento. Eu nunca quero comer quando estou mais silenciosamente feliz. Quando alguém sente paciência, pode esperar pelo que deseja sem fazer coisas extraordinárias. Não pareceria impaciência em Jesus transformar pedras em pão? Não pareceria desconfiança em Deus?

Charles. Quando algo parece faltar exteriormente, devemos duvidar de nós mesmos, não de Deus.




Ambição Mundana

Sr. Alcott. Qual foi a terceira tentação?

Charles. Suborno. O diabo lhe ofereceu o mundo inteiro.

Sr. Alcott. Qual paixão foi dirigida?

Charles. Avareza.

Augustine. Eu tenho desejo por dinheiro.

Sr. Alcott. Ele foi tentado a trocar seu reino celestial por um terrestre?

Charles. Governar os corpos dos homens, não seus espíritos.

Sr. Alcott. O gênio de Jesus o qualificava para ser o maior dos monarcas e o mais rico dos homens.

Frederic. Mas ele não teria um poder verdadeiro que durasse e sempre aumentasse.

Charles. Mas se tivesse sido um monarca poderia ter feito muito bem.

Sr. Alcott. Ah! essa tem sido uma tentação para muitos: buscar poder — mais poder do que podem usar bem. É melhor não entrar em tentação com o pretexto de fazer o bem. Suponhamos que o Sr. Webster dissesse: vou agradar o povo para que me façam presidente, e compensarei o mal que faço agora governando bem depois — isso seria sábio e correto?

Emma. Não; porque ele poderia perder o desejo de fazer o bem se fizesse o mal agora.




Integridade Espiritual

Sr. Alcott. Mas suponhamos que ele diga: não; usarei todo o meu gênio para ilustrar o que é verdadeiro, e deixarei ao acaso tornarme presidente — o que acham?

Todos. Isso estaria certo.

Sr. Alcott. Se um homem faz coisas boas para se tornar popular, ele serve ao Senhor?

John B. Não.

Charles. Servimos ao Senhor quando fazemos o bem por causa da consciência.




Aspiração pelo Perfeito

Sr. Alcott. O que ele quis dizer com “Retirate de diante de mim”?

Emma. Significa que não devemos servir por riquezas ou honras.

Sr. Alcott. Devemos agir segundo nossa Ideia do Perfeito e dizer: afastate de mim, Apetite; afastate de mim, Paixão; afastate de mim, Ambição. Talvez esse “alto monte” representasse a ambição.

Emma. Minha professora da escola dominical disse que havia uma tradição entre os judeus de que o Messias viria das nuvens do céu; e que a tentação de lançarse do pináculo do templo veio disso. Se ele tivesse feito isso, teria agradado os preconceitos deles e teria sido recebido com honras como seu Messias.

Sr. Alcott. Jesus alguma vez fez milagres para exibição ou pregou para mostrar sua eloquência?

Todos. Não.

Sr. Alcott. Assim, Jesus foi tentado em toda a sua natureza. Mas devemos encerrar por agora a conversa sobre essa passagem, embora ainda não tenhamos explorado sua profundidade. Há significados inesgotáveis nela; pois representa aquela luta pelo domínio de si mesmo que a alma está sempre travando quando permanece fiel à Lei Divina da Perfeição, que a consciência proclama em todas as faculdades e funções do nosso ser.

Jesus subordinou o Corpo, a Natureza e a Vida a essa lei. Ele venceu e colocou todas as coisas corporais sob seus pés. E assim também devemos nos esforçar para fazer.

Todo dever consiste em esforçarse pelo Perfeito.




COMENTÁRIO

Lendo o Capitulo XX nas Conversações de Alcott, eu me lembre da minha avó, Melitta Krûger Geraldi um dos seus provérbios prediletos. A Melitta vinha de uma família muito pobre com muitos filhos. Sua mãe, Mercedes, era professora e ficou viuva. João, o seu pai, era agrimensor nas colónias novas do  Alto Uruguai e foi asassinado, deixando a família em situação difícil. Não me lembro exatamente quantos irmãos eram, mas eram muitos. Melitta cuidava do serviço doméstico. Depois de cuidar da cozinha, na hora do almoço, ela se esticava em um banco e tirava um cochilo para restaurar as energias. 

A vida de Melitta foi servir: servir ao marido, aos filhos e aos netos. Eu fui um dos netos privilegiados. Tive a honra de ser cuidado pela Melitta durante os anos de juventude nos quais morei com a Melitta. Ela se esmerava por fazer tudo com perfeição e, ainda por cima, tinha como passatempo diversos tipos de artesanato, com os quais estava sempre envolvida. Quando a Melitta estava muito cansada, ela pronunciava um dos seus ditados prediletos: “O corpo não se governa”.

Ah, se houvesse transplante de juízo! Eu teria aprendido a lição da Melitta mais precocemente e teria aprendido a me autogovernar mais cedo. O provérbio da Melitta me parece típico da ética, dita protestante, que surgiu no Norte da Itália e países protestantes, a qual foi transplantada na América do Norte pelos puritanos.

A CONTROVÉRSIA

ChatGPT

A história das Conversações (Alcott, 1836)  é realmente fascinante, porque nasce de um experimento educacional radical realizado nos Estados Unidos na década de 1830. O autor, Amos Bronson Alcott (1799–1888), era um professor e pensador educacional ligado ao círculo transcendentalista de Concord, Massachusetts — o mesmo ambiente intelectual de Ralph Waldo Emerson, Henry David Thoreau e Margaret Fuller. Ele era também o pai da escritora Louisa May Alcott, autora de Little Women.

A Temple School em Boston

Em 1834, Alcott fundou em Boston uma pequena escola experimental chamada Temple School. O nome vinha do fato de que ela ficava instalada em um antigo templo maçônico. A escola reunia um pequeno grupo de crianças — principalmente de famílias liberais e intelectuais — e tinha um objetivo ambicioso: educar não apenas a mente, mas a consciência moral da criança.

O método de Alcott era muito diferente do ensino tradicional da época. Em vez de aulas baseadas em memorização e disciplina rígida, ele fazia conversas filosóficas com as crianças. Ele acreditava que as crianças possuíam uma intuição moral natural e que o papel do professor era ajudálas a descobrir a verdade dentro de si mesmas, através do diálogo.

Essas conversas eram registradas por uma colaboradora da escola, Elizabeth Peabody, que anotava os diálogos quase como uma transcrição. Mais tarde, ela publicou esses registros no livro Record of a School (1835). O texto que você trouxe faz parte dessa tradição de registros de aula.

Conversar com crianças sobre o Evangelho

Um dos exercícios centrais da escola era ler episódios do Evangelho — como a tentação de Jesus no deserto — e discutilos com as crianças. O que torna isso extraordinário é que Alcott não fazia uma catequese tradicional. Ele não dizia às crianças qual era a interpretação correta. Em vez disso, ele perguntava:

 O que significa “tentação”?

 De onde vêm as tentações?

 Elas vêm do corpo ou da mente?

 O que pode vencê-las?

As crianças respondiam, discutiam, discordavam. O professor apenas guiava o pensamento. Para a época, isso era revolucionário. Na maioria das escolas americanas do início do século XIX, as crianças simplesmente decoravam textos religiosos. Alcott, ao contrário, tratava as crianças como interlocutores filosóficos.

 O escândalo

O método causou enorme controvérsia. Quando Record of a School foi publicado, muitos leitores ficaram chocados por vários motivos: 1) As crianças falavam livremente sobre temas religiosos. Isso parecia irreverente para muitos; 2) Alcott discutia temas morais delicados, como tentação, pecado, ambição e consciência; 3) Ele sugeria que a consciência interior era a verdadeira autoridade moral, o que parecia perigoso para uma sociedade muito protestante e disciplinar. Alguns críticos acusaram Alcott de blasfêmia.


 O colapso da escola

A situação piorou quando Alcott tomou uma decisão ainda mais radical: ele admitiu na escola uma menina negra. Boston na década de 1830 era oficialmente antiescravista, mas profundamente racista. Vários pais retiraram imediatamente seus filhos da escola. A Temple School acabou fechando poucos anos depois.


A importância histórica

Apesar do fracasso imediato, o experimento de Alcott acabou se tornando muito importante na história da educação. Ele antecipou ideias que só se tornariam comuns muitas décadas depois, como: 1) aprendizagem dialógica. 2)  educação moral baseada em reflexão. 3) respeito pela inteligência da criança; 4)  desenvolvimento da consciência individual; 5) ensino através de perguntas, não de imposições. Em muitos aspectos, ele foi um precursor do construtivismo.


O espírito do texto

Quando se lê esse diálogo hoje, percebese algo extraordinário: Alcott está tentando ensinar às crianças uma ideia central do transcendentalismo — a de que a consciência humana participa de uma lei moral universal. Por isso a conversa termina com aquela frase belíssima: “Todo dever consiste em esforçarse pelo Perfeito.” Não se trata de obedecer regras externas, mas de ordenar o corpo, as paixões e a ambição à consciência moral.



Influência sobre Louisa May Alcott

Louisa May Alcott cresceu nesse ambiente. Muitas das ideias educacionais do pai aparecem mais tarde nos livros dela. A escola Plumfield, em Little Men, é basicamente uma versão literária das ideias pedagógicas de Bronson Alcott: uma escola onde as crianças são educadas com liberdade, conversa moral e confiança na formação do caráter.



PSICOLOGIA DO AUTOCONTROLE

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O texto de Bronson Alcott sobre autocontrole é surpreendentemente moderno em vários aspectos, embora esteja formulado em uma linguagem moral e religiosa típica do transcendentalismo do século XIX. Quando comparado com o que hoje sabemos em psicologia, neurociência e ciência do desenvolvimento, ele revela uma combinação interessante de intuições muito avançadas e formulações metafóricas próprias da época. 

Uma primeira ideia central é a noção de que a tentação surge de múltiplas fontes. No diálogo, as crianças e Alcott identificam diferentes origens para a tentação: os apetites do corpo, desejos da mente como a vaidade e o desejo de exibição, a influência social de outras pessoas, circunstâncias externas como comida disponível ou dinheiro, e até frustrações ou sofrimentos. Essa visão se aproxima muito do que hoje chamamos de modelo multifatorial do autocontrole. Na psicologia contemporânea entende-se que o autocontrole envolve a interação entre impulsos biológicos (como fome ou busca de prazer), processos cognitivos (planejamento e avaliação de consequências), fatores sociais (normas e pressão de pares) e condições situacionais (como a presença de recompensas). Em outras palavras, Alcott descreve intuitivamente algo semelhante ao que hoje seria chamado de um sistema de forças motivacionais concorrentes.

Outro ponto importante é o conflito entre impulsos e consciência. O eixo moral da conversa gira em torno da ideia de que apetites, paixões e ambição precisam ser subordinados à consciência. Na linguagem contemporânea isso corresponde ao conflito entre sistemas impulsivos e sistemas de controle executivo. A neurociência atual costuma descrever esse conflito como a interação entre sistemas de recompensa — associados ao estriado e aos circuitos dopaminérgicos — e sistemas de controle cognitivo ligados ao córtex pré-frontal. O que Alcott chama de consciência funciona, na prática, como aquilo que hoje chamaríamos de autorregulação, controle executivo ou monitoramento moral.

O texto também enfatiza repetidamente que a tentação envolve escolher entre um benefício imediato e um princípio mais elevado ou uma meta mais duradoura. Os exemplos discutidos — transformar pedras em pão, ganhar poder político, impressionar os outros — ilustram esse contraste entre gratificação imediata e valores de longo prazo. Essa ideia é muito semelhante ao conceito moderno de adiamento da gratificação (delay of gratification), estudado por Walter Mischel em seus experimentos sobre autocontrole. Esses estudos mostraram que indivíduos capazes de resistir a recompensas imediatas e manter o foco em objetivos mais distantes tendem a apresentar melhores resultados em várias áreas da vida. Alcott expressa essa mesma intuição ao dizer que o dever consiste em “striving after the Perfect”, isto é, orientar o comportamento por um ideal mais alto.

Outro aspecto notavelmente moderno aparece quando uma das crianças observa que um menino pode ser tentado a fazer o mal porque os outros riem dele por fazer o que é certo. Essa observação corresponde ao que hoje chamamos de influência normativa dos pares ou pressão social para conformidade. A psicologia social contemporânea demonstra que muitas decisões morais não são tomadas apenas por avaliação individual, mas também pela expectativa de aprovação ou rejeição social. Essa percepção aparece com grande clareza no diálogo.

Alcott também distingue entre tentações do corpo e tentações da mente. As primeiras estão relacionadas ao apetite ou ao prazer físico; as segundas incluem a vaidade, o desejo de elogio ou o prestígio social. Essa distinção reaparece em modelos psicológicos atuais que diferenciam impulsos hedônicos — ligados ao prazer imediato — e motivações de status ou reconhecimento social. Pesquisas modernas mostram que o desejo de prestígio pode ser tão poderoso quanto impulsos físicos, algo que Alcott reconhece ao discutir a vaidade como forma de tentação.

Outro ponto importante é a ideia de que o autocontrole constitui uma luta contínua. O texto descreve a autodisciplina como um esforço permanente de subordinar impulsos a princípios. Essa visão se aproxima das concepções modernas de autorregulação como processo dinâmico, não como um traço fixo da personalidade. Hoje sabemos que o autocontrole depende de atenção, regulação emocional, motivação e condições contextuais; ele não é uma capacidade estática, mas um processo contínuo de ajuste entre impulsos e metas.

Apesar dessas intuições notáveis, o texto também apresenta diferenças importantes em relação ao conhecimento atual. Em primeiro lugar, a linguagem moral é absoluta e religiosa, utilizando categorias como Satanás, pecado e perfeição moral, que hoje são substituídas por descrições psicológicas ou neurobiológicas. Em segundo lugar, Alcott parece assumir que a consciência pode governar diretamente os impulsos, enquanto pesquisas contemporâneas mostram que o autocontrole depende de muitos fatores adicionais, como fadiga mental, estresse, emoções e ambiente. Por fim, a dimensão emocional aparece menos explicitamente no texto, embora hoje se saiba que as emoções desempenham papel central na regulação do comportamento.

Talvez o aspecto mais impressionante do texto não seja o conteúdo teórico, mas o método pedagógico. Alcott não ensina autocontrole simplesmente dizendo às crianças que devem se controlar. Em vez disso, ele as leva a identificar tentações, refletir sobre suas causas, analisar exemplos concretos e discutir princípios morais. Esse método corresponde muito de perto ao que hoje seria chamado de educação moral reflexiva, metacognição moral ou aprendizagem dialógica — abordagens pedagógicas que só se tornaram comuns mais de um século depois.

Assim, apesar de sua linguagem religiosa e filosófica, o diálogo de Alcott contém várias ideias que aparecem em modelos científicos modernos de autocontrole: a tentação como conflito entre impulsos e valores, a influência social nas decisões morais, a importância do adiamento da gratificação e o papel da reflexão consciente na autorregulação. Em muitos aspectos, ele antecipou concepções que só seriam sistematizadas pela psicologia científica no século XX.



REFLEXÕES

Estou no meio da leitura de tetralogia de Louisa May Alcott sobre Mulherzinhas e Homenzinhos. Estou fascinado com os livros. A tetralogia é um verdadeiro tratado de psicologia do desenvolvimento aplicada através da ficção. As personagens que Louisa May Alcott cria são mesmas que eu encontro no consultório. Ela caracterizou literariamente no século XIX os dramas das crianças que atendo hoje no século XXI. Muita coisa muda, mas a natureza humana, os conflitos que fazem os indivíduos humanos, permanecem.  A literatura de ficção é uma das melhores maneiras de entrar na cabeça das pessoas. A crítica literária Lisa Zunshine considera que somente a ficção nos permite desenvolver habilidades mais sofisticadas de teoria da mente.

O que mudou de lá para cá é a tecnologia. Fiquei curioso para saber mais sobre o pai de Louisa May Alcott. Na internet, achei um facsmilie do seu livro de 1838. O ChatGPt me ajudou a transcrever e traduzir o texto do Capitulo XX, sobre autocontrole, um dos temas mais hot da clínica. O ChatGPT também me ajudou a fazer uma leitura mais aprofundada do capítulo.



REFERÊNCIA

Alcott, A. B. (1836). Conversations with children on the Gospels. Boston: Munroe.