PACTO FIDUCIÁRIO DE APRENDIZAGEM: REFLEXÕES DE UM VELHO CASMURRÃO
Vitor Geraldi Haase
Junho 2026
Tudo que eu gosto do FaceBook, eu não gosto do Instagram. O FaceBook permite textão, o Instagram é o reino da superficialidade. No FaceBook, compartilho afinidades com as pessoas, no Instagram sou exposto ao narcisismo mais grotesco. Uma das experiências mais terríveis no Instagram é assistir a alguns ex-alunos que ficam pontificando, arrotando perícia. Meninos e meninas que ficam compartilhando sua “experiência”. Qual experiência podem ter jovens que há poucos anos ficavam jogando videogame na aula, sem conseguir prestar atenção? Qual experiência podem ter jovens que, na aula, eram impérvios à sugestões de aperfeiçoamento dos seus trabalhos? Ficavam me olhando com cara de espanto, provavelmente avaliando a relação entre o custo enorme das minhas sugestões e o benefício que eles não conseguiam apreender. Hoje, fazem teatro professoral, sem que se identifique claramente o quê têm a ensinar. Agora é a minha vez de ficar espantado.
Fico me lembrando de uma brincadeira que meus filhos faziam, quando alguém lhes tentava impingir alguma lição de moral. Eles tapavam os ouvidos com as mãos, como que dizendo: “estamos cansados de lição de moral”. Ou seja: “entra por um ouvido e sai pelo outro”. Nesse contexto, é importante sublinhar também que grande parte da oferta narrativa infanto-juvenil contemporânea se resume a isso: lições de moral, sinalização barata de virtude. Dá para compreender que se cansem. Paradoxal, entretanto, é que se metam a dar lição de moral nos outros, repercutindo os chavões pelos quais foram doutrinados.
Tudo que eu gosto do FaceBook, eu não gosto do Instagram. Entretanto, gasto cada vez menos tempo com o FaceBook e mais com o ChatGPT. O FaceBook permite textão, o ChatGPT permite papo cabeça. Hoje, tive um papo cabeça com o ChatGPT, compartilhei minhas experiências e ele me forneceu o seguinte output, que compartilho com vocês.
Output do ChatGPT
O fenômeno descrito parece profundamente ligado a uma transformação cultural da própria relação entre conhecimento, autoridade e identidade pessoal. Tradicionalmente, aprender implicava aceitar uma assimetria fundamental: alguém sabe mais, alguém sabe menos, e o aprendiz precisa tolerar temporariamente a própria ignorância para adquirir competência. Esse processo envolve operações psicológicas sofisticadas, como humildade epistêmica, confiança, regulação narcísica, tolerância à frustração, capacidade de adiar reconhecimento social e identificação positiva com a autoridade intelectual. Muitos desses elementos parecem hoje mais frágeis na cultura contemporânea.
Aprender não depende apenas da transmissão de informação. Existe um pacto intersubjetivo de intencionalidade compartilhada: o professor deseja ensinar, o aluno reconhece valor nesse desejo e ambos entram em um jogo cooperativo de atenção compartilhada. Esse pacto se assemelha ao que ocorre na conversação, na narrativa, na parentalidade e nos processos de iniciação cultural. O aluno inicialmente não compreende plenamente o currículo, mas aceita atravessar uma zona de incompetência porque acredita que existe algo valioso do outro lado. Há, portanto, um componente fiduciário e inevitavelmente hierárquico na educação.
Durante muito tempo, escola e universidade funcionaram também como instituições de iniciação cultural. O estudante aceitava o desconforto da ignorância porque confiava na legitimidade do percurso formativo. Em muitos contextos atuais, porém, essa lógica foi parcialmente substituída por outra, centrada na performance: preservar autoestima, parecer competente, evitar exposição da ignorância e manter sensação imediata de agência. Isso altera profundamente a disposição subjetiva para aprender.
O encontro com a complexidade real frequentemente produz uma experiência narcísica difícil: perceber que se sabe muito menos do que se imaginava. Para alguns estudantes, essa experiência desperta admiração, curiosidade e desejo de crescimento. Para outros, provoca retraimento, cinismo, desvalorização do currículo, pseudoautonomia ou isolamento defensivo. Muitas vezes, não se trata simplesmente de preguiça, mas de uma defesa contra sentimentos de inadequação e desorganização narcísica.
A resistência simbólica ao aprendizado aparece de forma muito expressiva em comportamentos aparentemente banais, como “tampar os ouvidos” diante de uma explicação. Aprender genuinamente implica transformação, e transformação exige aceitar insuficiência, dependência temporária e reorganização interna. Nesse sentido, a tensão contemporânea entre cultura da formação e cultura da performance torna-se central. A cultura da formação pressupõe tempo longo, hierarquia, disciplina, interiorização gradual, admiração intelectual e paciência cognitiva. Já a cultura da performance favorece visibilidade, opinião rápida, identidade instantânea, aparência de domínio e exposição contínua.
As redes sociais intensificam esse fenômeno ao permitir que muitos indivíduos adquiram os sinais exteriores de expertise sem atravessar plenamente os processos internos de formação. Surge, assim, a figura cultural do “especialista sem iniciação”: alguém que fala antes de compreender profundamente, ensina antes de consolidar o próprio conhecimento e opina antes de estudar longamente. Psicologicamente, isso frequentemente funciona como defesa narcísica contra a experiência dolorosa da ignorância.
Existe aqui uma ironia importante: a verdadeira formação intelectual tende a aumentar a percepção da própria ignorância. Quanto mais alguém aprende seriamente, mais percebe a complexidade, a nuance, a incerteza, a profundidade histórica dos problemas e os limites do próprio conhecimento. Talvez por isso grandes intelectuais frequentemente pareçam cautelosos, enquanto pseudoespecialistas exibem segurança excessiva.
A relação entre inteligência, repertório cultural e tolerância à ignorância também merece atenção. Muitos estudantes ingressam na universidade sem instrumentos cognitivos, emocionais ou culturais suficientes para metabolizar a complexidade acadêmica. A ansiedade pode ser intensa. Uma forma de defesa consiste em desqualificar o currículo, ridicularizar a erudição, reduzir tudo à opinião ou refugiar-se em simplificações ideológicas.
Ao mesmo tempo, há também responsabilidade institucional. Parte da universidade contemporânea perdeu densidade cultural, clareza de finalidade, hierarquias intelectuais legítimas, rituais de iniciação e modelos de excelência. Quando o próprio currículo parece fragmentado, burocrático ou empobrecido, o pacto pedagógico se enfraquece ainda mais.
Nesse contexto, a sua ideia de educação como “banho de cultura” torna-se particularmente relevante. Ela procura restaurar uma experiência formativa fundamental: a de entrar em contato com um universo intelectual maior do que o próprio aluno. Muitos jovens só descobrem o prazer do pensamento quando encontram alguém genuinamente apaixonado por um mundo cultural suficientemente rico para despertar admiração, curiosidade e desejo de crescimento. Sem isso, a educação tende facilmente a degenerar em tecnicismo vazio, performance identitária ou entretenimento superficial.