Foi bom no Ginásio Salesiano Dom Bosco. Quando a aula era chata, eu cabulava e ia na biblioteca. Um dia, o Padre Faustino me pegou matando aula na biblioteca. Olhou bem o que estava fazendo e não disse nada.
Foi bom quando me preparei para o concurso da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx). Foi ruim quando me enxotaram de lá por causa da visão. Virei comunista. Foi bom no Anchieta, onde meu comunismo floresceu sob o beneplácito da Teologia da Libertação.
O comunismo durou até o quarto ano da Faculdade de Medicina, quando descobri as Enfermarias 14 e 15 de neurologia da Santa Casa. O interesse pela neurologia e neuropsicologia fez o comunismo murchar. Nessa época fui bagrinho do Juliano Fontanari e do Cleber Alvarez. Vivia correndo atrás deles e aprendendo.
A época da Santa Casa foi boa também porque conheci a Raquel e começamos a desenvolver um projeto de vida em comum. Minha vida se divide em A.R. e D.R. A parte D.R. já supera a parte A.R. por um fator igual a 2.
Depois da Santa Casa, veio a PUCRS. Outra época fantástica, sob a liderança intelectual do Jaderson e companhia da Mirna, descobrindo a pesquisa neuropsicológica, e da Feryal, descobrindo a pesquisa cognitiva. O mestrado foi complicado porque a dor nos olhos não me permitia ler. Foi uma frustração grande, descobrir a ciência cognitiva e não poder estudá-la do jeito que eu gostaria. Felizmente, consegui resolver isso graças aos transplantes e ao Dr. Joel Botteon. Ganhei uma visão nova que me permitiu construir uma carreira.
A minha formação se completou em Munique, sob a orientação do Ernst Pöppel. À minha formação clínica anterior integrei uma perspectiva mais teórico-experimental da prática neuropsicológica como teste de hipóteses. Quando eu estava em Munique e chegava no Instituto de manhã cedo, eu custava a acreditar que tudo que eu tinha para fazer ao longo do dia era estudar. E eu estudei.
De volta ao Brasil, os primeiros anos em BH foram maravilhosos. O futuro tinha chegado. Voltamos da Alemanha com o Ramiro no colo. Olavo e Catarina nasceram logo a seguir. O começo em BH marcou o fim da minha formação. Inaugurei a fase da criatividade. O desafio não era mais apenas aprender, mas realizar, pôr em prática. Trabalhar com os alunos de IC e, depois, de mestrado e doutorado, aliando ensino, pesquisa e extensão, foi raro privilégio. Foi uma época de florescimento.
Aos poucos, o encanto pela universidade foi murchando. O nadir foi no ano de 2016. A corrupção do ambiente acadêmico que já se anunciava há anos só progrediu e continua. A restrição à liberdade de cátedra foi aumentando até atingir seu ápice no ano de 2016. Por ocasião das invasões das universidades, não apenas fui impedido de trabalhar, mas fui vilipendiado nas redes sociais e condenado em tribunal farsesco em praça pública.
Fui cancelado, mas sobrevivi. Apenas perdi o elã. Passei a contar tempo para a aposentadoria. Os anos de reclusão durante a pandemia foram uma benção. Não passara nem um semestre após o fim do confinamento e eu me aposentei. Começou uma vida nova.
Trabalhei uns anos na TREINITec, onde tive a oportunidade de implementar a minha terceira linha de pesquisa, agora na iniciativa privada. O Pöppel sempre citava o Heidegger dizendo que, assim como todo filósofo tem uma idéia, todo pesquisador tem um programa de pesquisa. O Pöppel, desenvolve três programas de pesquisa: blindsight, processamento temporal e consciência e qualidade de vida.
Modestamente, já estou no meu quarto programa de pesquisa. Trabalhei com esclerose múltipla, cognição numérica e aspectos sensoriomotores do autismo. O meu quarto programa de pesquisa, desenvolvido atualmente no Instituto Letra & Número é sobre a neuropsicologia das narrativas.
Pessoalmente, a integração do pensamento narrativo à clínica neuropsicológica representa um resgate dos meus envolvimentos humanístico-literários que ficaram em segundo plano ao longo da vida toda. Profissionalmente, o pensamento narrativo me ajuda a compreender melhor e ajudar os meus clientes e suas famílias.
Estou feliz no consultório. Ninguém mais me enche de paciência. Tenho alunas maravilhosas e atendo crianças e famílias maravilhosas. Sempre acreditei em escolher a esposa certa, os filhos certos, os alunos certos e os clientes certos. A formação de uma clientela é um processo de seleção recíproca. O ajuste é mútuo. O profissional de saúde se especializa naquilo que os clientes que o procuram precisam. E os clientes procuram o profissional porque vêem alguma coisa nele.