QUAL É A MELHOR ÉPOCA DA VIDA?

Vitor Geraldi Haase
Maio 2026

Creso, rei da Lídia, era, naquele tempo, o homem mais rico e poderoso do mundo conhecido. Quando recebeu o ateniense Sólon, o legislador famoso por sua sabedoria, mostrou-lhe seus vastos tesouros e riquezas, e, depois de algum tempo, perguntou-lhe:— Sólon, ouvi dizer que és um homem sábio e viajaste muito, observando os costumes de muitos povos. Dize-me, pois: quem é o homem mais feliz que já viste? Esperando ser o próprio mencionado, Creso ficou surpreso quando Sólon respondeu:— Um ateniense chamado Telo. Ele viveu enquanto seus filhos cresceram todos com honra, e viu netos de ambos os lados. E, após uma vida próspera, morreu gloriosamente em batalha, lutando por sua pátria.Creso, então, insistiu:— E depois de Telo, quem mais? Sólon respondeu:— Os irmãos Cléobis e Biton, de Argos. Eles eram fortes e piedosos. Quando os bois para puxar o carro de sua mãe sacerdotisa tardaram, os jovens próprios se atrelam ao carro e a levaram ao templo, percorrendo cerca de 45 estádios (cerca de 8 km). A mãe, orgulhosa, pediu à deusa que lhes concedesse o maior dom possível para um mortal. E, após o sacrifício, os jovens dormiram no templo e nunca mais acordaram.Creso, irritado, exclamou: — Estrangeiro de Atenas, minha felicidade nada vale a teus olhos a ponto de me colocares abaixo de homens tão comuns? Ao que Sólon respondeu:— Creso, vejo que és rico e senhor de muitos. Mas a vida humana é cheia de incertezas. O destino reserva muitas voltas, e ninguém pode saber, antes do fim, se uma vida foi verdadeiramente feliz. Pois:“É necessário considerar o fim de cada coisa, e só então julgar se foi feliz. Porque a muitos, o deus mostra a felicidade, mas depois os destrói completamente.”— Por isso, ó rei, nenhum homem deve ser chamado de feliz antes de morrer. Até lá, ele é apenas afortunado — se o acaso assim permitir.

Sólon (cf. Heródoto, História, Livro I, 29-33)

Depende. No meu caso, acho que é a época atual. Não me lembro se já li alguma coisa sobre isso, mas talvez haja um viés de sobrevalorizar a felicidade no presente. Talvez isso seja um indicador de saúde. Não sei. Não é que o meu passado não tenha sido ótimo. Foi.

Foi bom em Tuparendi. Foi bom no Grupo Escolar da Sede, onde me alfabetizei com a Profa. Mariazinha. Foi bom no Hospital Tuparendi, onde despertei meu interesse pela medicina. Quando eu era jovem, o Rubén dizia que eu era ansioso e que isso passaria. Sua mão no meu ombro me acalmava. O futuro era uma promessa e, ao mesmo tempo, uma incógnita. Daí, a ansiedade.

Foi bom no Ginásio Salesiano Dom Bosco. Quando a aula era chata, eu cabulava e ia na biblioteca. Um dia, o Padre Faustino me pegou matando aula na biblioteca. Olhou bem o que estava fazendo e não disse nada.

Foi bom quando me preparei para o concurso da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx). Foi ruim quando me enxotaram de lá por causa da visão. Virei comunista. Foi bom no Anchieta, onde meu comunismo floresceu sob o beneplácito da Teologia da Libertação.

O comunismo durou até o quarto ano da Faculdade de Medicina, quando descobri as Enfermarias 14 e 15 de neurologia da Santa Casa. O interesse pela neurologia e neuropsicologia fez o comunismo murchar. Nessa época fui bagrinho do Juliano Fontanari e do Cleber Alvarez. Vivia correndo atrás deles e aprendendo.

A época da Santa Casa foi boa também porque conheci a Raquel e começamos a desenvolver um projeto de vida em comum. Minha vida se divide em A.R. e D.R. A parte D.R. já supera a parte A.R. por um fator igual a 2.

Depois da Santa Casa, veio a PUCRS. Outra época fantástica, sob a liderança intelectual do Jaderson e companhia da Mirna, descobrindo a pesquisa neuropsicológica, e da Feryal, descobrindo a pesquisa cognitiva. O mestrado foi complicado porque a dor nos olhos não me permitia ler. Foi uma frustração grande, descobrir a ciência cognitiva e não poder estudá-la do jeito que eu gostaria. Felizmente, consegui resolver isso graças aos transplantes e ao Dr. Joel Botteon. Ganhei uma visão nova que me permitiu construir uma carreira. 

A minha formação se completou em Munique, sob a orientação do Ernst Pöppel. À minha formação clínica anterior integrei uma perspectiva mais teórico-experimental da prática neuropsicológica como teste de hipóteses. Quando eu estava em Munique e chegava no Instituto de manhã cedo, eu custava a acreditar que tudo que eu tinha para fazer ao longo do dia era estudar. E eu estudei.

De volta ao Brasil, os primeiros anos em BH foram maravilhosos. O futuro tinha chegado. Voltamos da Alemanha com o Ramiro no colo. Olavo e Catarina nasceram logo a seguir. O começo em BH marcou o fim da minha formação. Inaugurei a fase da criatividade. O desafio não era mais apenas aprender, mas realizar, pôr em prática. Trabalhar com os alunos de IC e, depois, de mestrado e doutorado, aliando ensino, pesquisa e extensão, foi raro privilégio. Foi uma época de florescimento.

Aos poucos, o encanto pela  universidade foi murchando. O nadir foi no ano de 2016. A corrupção do ambiente acadêmico que já se anunciava há anos só progrediu e continua. A restrição à liberdade de cátedra foi aumentando até atingir seu ápice  no ano de 2016. Por ocasião das invasões das universidades, não apenas fui impedido de trabalhar, mas fui vilipendiado nas redes sociais e condenado em tribunal farsesco em praça pública. 

Fui cancelado, mas sobrevivi. Apenas perdi o elã. Passei a contar tempo para a aposentadoria. Os anos de reclusão durante a pandemia foram uma benção. Não passara nem um semestre após o fim do confinamento e eu me aposentei. Começou uma vida nova.

Trabalhei uns anos na TREINITec, onde tive a oportunidade de implementar a minha terceira linha de pesquisa, agora na iniciativa privada. O Pöppel sempre citava o Heidegger dizendo que, assim como todo filósofo tem uma idéia, todo pesquisador tem um programa de pesquisa. O Pöppel, desenvolve três programas de pesquisa: blindsight, processamento temporal e consciência e qualidade de vida.

Modestamente, já estou no meu quarto programa de pesquisa. Trabalhei com esclerose múltipla, cognição numérica e aspectos sensoriomotores do autismo. O meu quarto programa de pesquisa, desenvolvido atualmente no Instituto Letra & Número é sobre a neuropsicologia das narrativas.

Pessoalmente, a integração do pensamento narrativo à clínica neuropsicológica representa um resgate dos meus envolvimentos humanístico-literários que ficaram em segundo plano ao longo da vida toda.  Profissionalmente, o pensamento narrativo me ajuda a compreender melhor e ajudar os meus clientes e suas famílias. 

Estou feliz no consultório. Ninguém mais me enche de paciência. Tenho alunas maravilhosas e atendo crianças e famílias maravilhosas. Sempre acreditei em escolher a esposa certa, os filhos certos, os alunos certos e os clientes certos. A formação de uma clientela é um processo de seleção recíproca. O ajuste é mútuo. O profissional de saúde se especializa naquilo que os clientes que  o procuram precisam. E os clientes procuram o profissional porque vêem alguma coisa nele.

Eu me divirto demais com as crianças no consultório. Os seus desenhos e devaneios, sua atitude em relação à Torre de Londres e às narrativas me ajudam a compreender sua cabecinha. Minha bagagem de leituras, experiência clínica e o ChatGPT garantem a qualidade científica. O espectro do Carl Wernicke fica rondando em volta de tudo o que eu faço. E quando tenho algum dilema ético, a Raquel me ajuda a desenrolar. A Raquel é a minha bússola moral. O futuro se transformou em presente e tá bão dimais da conta!

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