Estou fazendo um trabalho de estimulação do pensamento narrativo com um menino que adora histórias de terror. Nunca fui muito fã de terror. Como é o cliente que sempre tem razão, eu danço no seu compasso. Então, fui atrás de histórias clássicas de terror para trabalhar com o menino. Drácula e Frankenstein já viraram clichê. A maioria das histórias do Ambrose Bierce não é muito adequada para crianças. Preparei algumas histórias ótimas do Edgar Allan Poe, até chegar no H. P. Lovecraft. Lovecraft era um autor que eu não conhecia muito. Falha minha. Fiquei doidinho pelo Lovecraft. Acho que ele era autista. Além de autista, ele tinha a mesma mania do Borges de transformar livros malucos no assunto das suas histórias, de inventar autores e citações que nunca existiram. Metade dos autores que o Lovecraft menciona nunca existiram. São coisa da cabeça dele. Adoro isso. Não sei se já contei, mas tenho sonhos recorrentes com livros. Adoro livros nos quais os persogens visitam bibliotecas malucas e encontram livros mais doidos ainda. Adoro, por exemplo, a série de Ruiz Zafon sobre o "Cemitério dos livros esquecidos". O Lovecraft era tão doido que inventou a Miskatonic University, que só investigava as artes das trevas. Como Borges e Lovecraft eram contemporâneos - Lovecraft era apenas 10 anos mais velhos que Borges - fica difícil saber quem imitou quem. Gosto de imaginar que, no final da tarde, Borges ficava na Biblioteca Nacional, mateando com Lovecraft. Adoraria estar lá para ouvir a conversa.
Uma história interessante sobre o Lovecraft é que seu pai morreu após ficar 10 anos internado com demência paralítica, ou seja neurosífilis. Naquela época, tudo quanto era demência recebia o diagnóstico de neurosífilis. Talvez fosse, talvez não fosse. Hoje, sabemos que algumas demências frontotemporais apresentam etiologia genética compartilhada com certas formas de autismo. Neurodivergência, como é moda falar, é sempre uma questão de dose gênica. Uma dose muito alta pode ser fatal. Uma dose mais baixa ou intermediária pode explicar a genialidade. O Borges tinha alguma doença degenerativa da retina, provavelmente retinose pigmentar (não sei se ainda é assim que se chama). A loteria genética da Babilônia é implacável. Todo mundo tem suas perebas. O importante é saber o que cada um faz com as suas mazelas, além de se sentir vitimizado.