Quando a sineta tocou, entreguei o trabalho e fui cuidar da vida. Qual não foi a minha surpresa quando, na aula seguinte, a professora disse que eu não podia entrar na aula dela e que deveria, antes, ir conversar com o padre. No final das contas, parece que a professora não tinha tanto senso de humor assim…
Lá fui eu, para a secretaria conversar com o padre. O padre era um cara bem legal, daqueles educadores construtivistas, imbuído de toda a tolerância que o Cristianismo prega e que pouquíssimos praticam. O padre me deu a real. Ele me falou que a professora não me queria mais na sala de aula e me perguntou o que eu sugeriria para resolver o problema.
Acho que não precisei refletir muito. Pensei um pouquinho com os meus botões, resgatei minha arrogância de gaúcho - ainda por cima de Tuparendi - e fiz uma proposta para o padre. Se a professora não me queria na aula dela, eu também não me queria na aula dela. Quando ela entrasse na sala de aula, eu sairia mui respeitosamente e iria tomar um café ou frequentar a biblioteca. No final do ano, eu faria uma prova para ver se eu dominava o conteúdo curricular ou não. O melhor (ou pior?) é que o padre topou. Passei o resto do ano tomando café e/ou frequentando a biblioteca nos horários de inglês.
No final do ano, eles montaram uma banca com três professoras e me fizeram um exame oral de inglês. No qual eu me saí muito bem. Fui aprovado e toquei minha vida adiante, sem precisar assistir à aula daquela chata. Meu pai morreu sem saber dessa história. Minha mãe só ficou sabendo dessa história mais de 40 anos depois, através de uma conversa casual com a secretária do padre.
O causo do pai de ontem me ajudou a ressignificar algumas máximas nas minhas reminiscências, as quais se cristalizaram ao longo dos anos. Em primeiro lugar, preciso reconhecer a tolerância do Padre; Fiquei me lembrando de uma piada do Barão de Itararé. O Barão também estudou com os jesuítas. Só que foi em São Leopoldo. Certa vez, o Barão estava à toa na aula e o professor lhe perguntou se, por acaso, ele gostaria de um cafézinho. O Barão não teve dúvidas, respondeu que dois cafézinhos seriam melhor do que apenas um. Tenho o maior carinho pelo padre e pela sua pedagogia.
Em segundo lugar, a comparação com os jovens de hoje em dia é reveladora. Naqueles bons tempos, a molecada se metia e saia (ou não) das confusões por conta própria. Os jovens metiam-se nas confusões sozinhos e também precisavam sair (ou não) das confusões sozinhos. Se não saíssem, e os pais descobrissem, as consequências seriam sérias. Assim, aprendiam (ou não) que as decisões tinham consequências e criavam (ou não) responsabilidade. Atualmente, a liberdade de experimentação foi substituída pela superproteção e pelo vitimismo.
Finalmente, essa e outras experiências certamente contribuíram para o desenvolvimento do Construtivismo de Tuparendi, que pratiquei na UFMG por 30 anos. Para o Construtivismo de Tuparendi contribuiu muito o MVP, ou Método de Viração Própria, praticado pela maioria dos professores da Faculdade de Medicina da UFRGS: A maioria dos professores não ensinava nada. Se o aluno quisesesse aprender alguma coisa, precisava se virar por conta própria. Era assim que se formavam os bons médicos: os que aprendiam a se virar por conta.
P.S. Com todo o respeito devido aos professores: muitas vezes os educadores não se dão conta de quão estressante a escola pode ser para crianças que têm uma batida diferente. O padre da minha história sacava isso. Bendito seja, onde quer que esteja.